Síndrome da Jabuticaba

Já se passaram mais ou menos 40 anos desde que o intelectual Francisco de Oliveira publicou seu ensaio Crítica da Razão Dualística. Mais recentemente, atualizou a análise para o Ornitorrinco. No fundo, está a idéia da jabuticaba brasileira. Tudo no Brasil é diferente do resto do mundo, em geral pra pior, mas nem sempre.

Às vezes criticamos muito os americanos por serem excessivamente auto-centrados. Piadinhas abundam por aí. Mas tenho minhas dúvidas se aqui a coisa é difrente. Não conheço estudo disso, mas evidências anedotais não faltam. Eis uma lista não exaustiva.

O Juca Kfouri relata que uma competição no Pinheiros de Handebol não tinha medalha de bronze para premiar os argentivnos, que ficaram em terceiro. Faz a crítica merecida e conclui: “E teremos uma olimpíada em breve no Brasil…”. Meu Deus, o que uma coisa tem aver com a outra, se não a idéia de que no Brasil tudo é amador e desorganizado, mais do que no resto do mundo, em suma, que somos a Jabuticaba?

Voltava eu outro dia de Chicago, EUA, após um congresso de ciência política, e pegamos uma fila gigantesca na imigração. Claramente o aeroporto de Guarulhos não está comportando a demanda. Motivo para reclamações e críticas, claro. Mas volta e meia o teor era sempre o mesmo: “O Brasil não tem planejamento, por isso ocorre outras coisas. Lá em Miami estão ampliando o terminal de aluguel de carros. E nem precisava. Aqui é assim.” Jabuicaba brasileira, claro. Curioso é que lá nos EUA o que se fala é que ainfra-estrutura deles está velha, sucateada e o governo não tem dinheiro pra investir.

E na política? Aqui é que somos jabuticaba mesmo. Só elegemos políticos ruins, o povo não sabe votar, instiuições não prestam e por aí vai. Diferente do resto do mundo (desenvolvido), claro. Aqui o eleitor é volátil (sic), uma hora vota num partido, outra hora vota em outro. Lá nos EUA, quando ele muda de voto de um partido para outro, é porque o incumbente está governando mal, ele quer um governo dividido (executivo de um partido, maioria no legislativo de outro partido). Ou seja, o mesmo comportamento no Brasil é taxado de volatilidade, instabilidade, todos termos negativos. Nos EUA é sofisticação política. No Japão, o mesmo partido ficou uns 50 anos no poder. Ninguém pareceu reclamar muito da ameaçã à democracia Japonesa. Aqui, o PT vai ficar 12 anos e muito se falou sobre o perigo da Mexicanização etc. Porque não o perigo da japonesização (sic)? Ah, sim, tinha me esquecido, somos a jabuticaba.

Mas não somos a jabuticaba só em termos negativos não. Aqui o futebol é diferente do resto do mundo, só aqui tem carnaval de verdade, só nós temos a palavra saudade, somos o único povo realmente caloroso e receptivo do mundo, nossa música é a melhor do mundo, e por aí vai.

A cereja do bolo nesse quesito, porém, ainda é a comemoração dos 500 anos de descoberta do Brasil. Aprendemos na escola que Colombo descobriu a América em 1492 e Cabral o Brasil em 1500. E na aula de geografia aprendemos também que o Brasil é parte da América. Só que ninguém conta pra gente como é possível que o continente inteiro tenha sido descoberto em1492, mas o Brasil só em 1500.

Pois é, sabe quem comemorou os 500 anos do descobrimento da América em 1492? Todos os países do continente, incluindo aí os EUA, menos o Brasil. E sabe quem comemorou os 500 anos em 2000? O Brasil. Pois é. Pro bem e pro mal, parece que insistimos em ser a Jabuticaba. E em que pese a sensação de sermos únicos, faríamos melhor em olhar menos pro umbigo e ver que partilhamos muito mais com o resto do mundo do que imaginamos.

ps.: Eu sei, eu sei… Talvez vários países do mundo vejam seus próprios países como Jabuticaba, de onde a tendência nossa de nos vermos assim seria normal. Nesse caso, eu que estaria tendo a síndrome da Jabuticaba.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Síndrome da Jabuticaba

  1. Paulo de Tarso Soares disse:

    Caro Maceió, gostei da crítica, é isso mesmo e também me enche o saco. Você não acha que a síndrome da jabuticaba é prima do complexo de vira-lata? Abraços. Paulinho.

  2. Perfeita a crítica, amigo. Uma grande pena ler esse texto hoje, depois de 3 anos, e perceber que ainda somos a jabuticaba, e o que na época escreveu sendo uma jabuticaba boa, nosso futebol e nossa receptividade, se inverteu. Hoje somos a jabuticaba em tudo. Parabéns.

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