Livraço do Pérsio, ou pelo menos parece

Quando o professor que orientou minha monografia foi defender sua tese de Livre Docência, tive a oportunidade de assistir a ela. E a banca pegou no pé dele pela referência ao Pérsio, numa tese sobre Keynesianismo. Pegava mal pra um keynesiano, de esquerda, ficar citando o Pérsio, claro. Esse aliás um exemplo das besteiras de parte dos economistas heterodoxos-esquerdistas brasileiros.

O referido Pérsio é o economista Pérsio Arida, que agora vai lançar um livro de memórias no segundo semestre. Tive a oportunidade de ler, na revista Piauí, um longo trecho da obra e gostei muito. Devo comprar o livro assim que lançar. Primeiro porque gostei, segundo porque o Pérsio foi figura importante na minha carreira intelectual nos tempos da graduação. Conto aqui essa importância.

Quando eu entrei na FEA, fiquei excitadíssimo nos primeiros dias com a aula inaugural aos Calouros, a ser proferida por ninguém menos que o então ministro da Fazenda, Pedro Malan. Eu nem sabia que existiam aulas inaugurais, muito menos que teria a oportunidade de ouvir um economista desse porte ministrando a aula inaugural. Aguardei ansioso pela aula, mas no fim uma reunião com o FMI impediu o Malan de comparecer, um professor da casa substituiu o Malan defendendo a dolarização da economia brasileira – lembrem-se que era Março de 99 e a desvalorização do real ainda era assunto quente – e a palestra foi interrompida por uma invasão de protestantes da USP, que imaginavam que o Malan estava lá dentro. Conto inclusive essa história outro dia. Agora importa apenas mencionar que, antes da aula inaugural, havia também uma homenagem aos formandos. Os melhores alunos (melhores notas) e as melhores monografias de graduação eram premiadas e homenageadas no mesmo evento. Decedi ali mesmo a ser um desses alunos  a ser premiado quando me formasse.

Mas como o jovem costuma ter um otimismo injustificado, logo descobri que teria de abandonar o desejo de ser o melhor da turma. Se nos tempos de escola raramente eu tirava nota menor que sete ou oito, já no primeiro ano de USP raramente eu tirava nota maior que sete ou oito. Acho que tirei um dez, numa provinha de cálculo, e um sete (quarta maior nota da sala) num curso de estatística. E foram esses meus melhores momentos naquele ano. Os piores foram vários dois e três que tirei.

Mas havia ainda a chance da melhor Monografia. Não podendo mais ser o melhor aluno, podia ter a melhor monografia. Assim, ao contrário de muitos colegas, escolhi cedo o orientador da monografia e dediquei tempo bastante para fazer um excelente trabalho. De fato, acabei premiado com o prêmio de melhor monografia, mas já não me importava tanto com isso.

E o orientador foi justamente o professor Soromenho, criticado na sua livre docência pelas referências ao Pérsio. Ocorre que o Pérsio Arida havia sido orientador do Jorge Soromenho em sua dissertação de mestrado, anos antes. Assim que acabamos, eu e amigos, lendo textos do Pérsio por influência do mestre.

Sobre o Pérsio, eu gostava de contar duas histórias, meio romanceadas, a segundaprovavelmente mais próxima da verdade que a primeira. Ei-las. Tinha uma história de que o Pérsio foi fazer o doutorado nos EUA e, na hora de entregar a tese, tinha feito um negócio cabuloso envolvendo Hegel e o escambau, que ele aprendera pois havia feito uns anos de filosofia antes de mudar pra economia. Os americanos não gostaram daquele negócio de Hegel, não tavam entendendo nada e não deixaram o Pérsio entregar a tese daquele jeito. Aí, pra não perder o título e agradar os americanos, fez uma coisinha qualquer pra agradá-los. Essa coisinha qualquer era o diganóstico da inflação inercial no Brasil, que viria a ser mais tarde a gênese do Plano real.

A outra história diz respeito a um artigo, meio famoso entre economistas brasileiros com pendores mais filosóficos, intitulado “A história do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica”. Pra entender a importância desse texto, é preciso entender que a gente se perguntava se dava pra fazer uma contribuiução à ciência econômica a partir do Brasil, quem sabe até ganhar o Nobel. Pois então, o texto do pérsio foi uma das poucas vezes em que um economista brasileiro quase fez uma contribuição original realmente relevante para a economia. Tá certo que não uma contribuição de teoria ou de empiria, mas meramente de filosofia da ciência e aplicada a economia. Mas que importa? Era uma contribuição.

A história é mais ou menos a seguinte. Na mesma época em que o pérsio fez esse texto, mostrando que a história do pensamento econômico pode ser vista a partir das regras da retórica, a McCloskey publicou um texto com argumento similar nos EUA, retirando a originalidade do Pérsio. Ocorre que o texto do Pérsio é muiito melhor que o texto da McCloskey. Mas como ela publicou antes, em inglês, e o Pérsio nunca publicou seu artigo, ficou restrito só aos brasileiros e em portugês, sua contribuição original ficou no quase. Ficava a certeza que, fosse ele americano, teria publicando antes. Se no Brasil ele tinha chegado na fronteira ao mesmo tempo, imagina nos EUA?

Além disso, claro, tem os artigos de Macroeconomia e a idéia da criação de uma moeda virtual, indexada à inflação, núcleo do plano Real, esboçado em artigos dos anos 80. Tudo isso pra dizer que, na época, admirávamos muito o Pérsio.

Depois de um tempo a gente foi perdendo o encanto com o Pérsio. Suas explicações para os juros altos, problema desde então, eram bem pobres. Tive a oportunidade de assistir a uma apresentação de paper na FEA, e achei o argumento fraco. Havia ainda uma confusão entre incerteza Keynesiana e risco que era estranho pra alguém que conhecia tanto de Keynes. Enfim, o encanto passou e a vida continuou.

Tive a oportunidade agora de ler esses trechos da memória do Pérsio, que se passam durante a ditadura e contam seus tempos presos, a tortura e o escambau. Além de muito bem escrito, tem momentos engraçados, partes muito tocantes e uma sensibilidade que eu jugava inexistentes em seu tucanismo PSDBista da PUC-RIO. Lendo os trechos, relembrou a sofisticação intelectual que tanto fascínio me causava nos meus anos de graduação, ao ler os textos de inflação ou o artigo sobre retórica.

Há nas memórias, talvez, alguma explicação para a transição entre o economista sofisticado dos anos 80 e a aparente probreza intelectual dos anos 2000. Dialoga ainda, inclusive, com certo tipo de dor na consciência que o FHC notou entre parte dos tucanos com algumas coisas. Isso porque, parece-me, que a dor na consciência a que se referia FHC deriva justamente daqueles que não se tornaram cínicos pura e simplesmente. Que pensam, como o Pérsio, por exemplo, que uma aliança com o que havia de pior na ditadura, ajudando a reconstruir a história em favor dessas pessoas, não pode passar impune de quem não virou cínico. Eis o que diz o Pérsio:

A história foi sendo gradualmente recontada e sempre no mesmo sentido: eliminar a responsabilidade daqueles que viviam no poder. Os políticos, biônicos ou eleitos, que votavam ordenadamente no Congresso de acordo com os interesses do regime militar, na verdade teriam sido sempre contrários à prática de torturas. Os setores da mídia que veiculavam as notícias de acordo com os interesses do regime constituído, e prosperavam materialmente por conta disso, teriam na verdade atuado em uma franja de sutileza imperceptível aos censores para divulgar, de forma subliminar, o conteúdo que de fato espelharia suas convicções democráticas. O establishment militar, por suas vez, teria obedecido às ordens do alto comando por disciplina, e não por convicção. O alto-comando, por sua vez, teria tido divisões internas de largo espectro que inocentariam boa parte de seus participantes.

Nessa pasteurização adocicada do passado ocorreu também um curioso empurra-empurra dos vivos para os mortos. Os vivos que integravam o núcleo do poder, ou em torno dele viviam, recontaram o que se passou mostrando como eles, na verdade, operavam a favor da democracia por dentro, quintas-colunas habilíssimos. Por exclusão, a sustentação da ditadura teria sido obra exclusiva dos mortos, e mesmo assim somente daqueles que não contaram com a simpatia dos vivos para lhe salvar a memória, ou que não foram previdentes o suficiente para deixar algum escrito ou papel que servisse de base, por mais precária que fosse, para sua reabilitação posterior.

(…)

Quando penso no que aconteceu depois da Lei da Anistia, me pergunto: onde se escondeu o terceiro poder da nossa alma [referência à platão, fala da alma irascível, ou seja, indignação]? Operado o esquecimento, feita a rasura na memória, a indignação morre pela ausência de objeto, e as vozes isoladas que mantêm viva a memória daqueles anos acabam soando como ressentidas e de mal com a vida.

Eis um longo trecho do que o Pérsio tem a dizer. Aguardo o livro por inteiro, para devorá-lo e entender um pouco mais a história de uma figura que, por algum tempo, foi uma influência intelectual em minha vida. De passagem, acho que ganho uma história do Brasil contada pelos olhos dele, o que pode agregar muito, se tiver mais passagens como essa.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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