Vamos passar vergonha na Copa

Numa das propagandas do PSDB na TV, um passageiro num aeroporto comenta os atrasos nas obras e afirma: vamos passar vergonha na Copa.

Nas últimas viagens que tenho feito de avião, é frequente algum probleminha (filas intermináveis, atrasos etc.) e, não infrequente, alguém sentencia: vamos passar vergonha na Copa.

Essa sentença, “vamos passar vergonha na Copa”, tem algo de estranho. Não é que os problemas não incommodem. Eles incomodam, mas parece que o pior é passar vergonha. Não tivesse o olhar do outro, seria menos ruim.

O Pérsio, no texto publicado na Piauí, comenta que sentia vergonha de ter sentido torturado. Eis a reflexão dele sobre esse sentimento estranho, a vergonha, o constrangimento:

A vergonha é um mistério. Quando criança, via pessoas humildes ficarem de pé na sala de visitas da casa dos meus pais, intimidadas com os tapetes persas, os Gallés e óleos. Não ousavam sentar-se, como se suas calças e saias pudessem macular o tecido dos sofás. Tinham vergonha de serem pobres.

(…) No fundo, sentia-me constrangido por não ter sido capaz de cuidar bem de mim. Envergonhado feito o barrigudo que ostenta na sua pança um testemunho público da sua incapacidade de cuidar da sua saúde.

De fato, pensando nessas palavras, parece que a vergonha na Copa advém desse sentimento de que não fizemos o que estava a nosso alcance. Como se os atrasos fossem um atestado do nosso subdesenvolvimento, de todos os brasileiros que usam aeroportos e deixaram isso acontecer.

É claro que para a vergonha operar é preciso também um sentimento de superioridade do outro, de uma capacidade que ele teve que nós não tivemos. Que nós deveríamos ter.

Eu lembro de quando morava em Maceió, adolescente, eu tinha vergonha do Shopping de Maceió, acanhado, pequeno. Quando tínhamos visitas de outros estados em casa, era comum pedirmos desculpa quando os  levávamos ao Shopping. “Desculpa o nosso shopping, pequeno. Não é como em São Paulo, viu?”, vinha um alerta de minha mãe, para evitar maiores decepções das visitas.

Depois de morar em São Paulo, achava uma vantagem ter o shopping pequeno. Menos impacto no trânsito, no comércio local etc. Mas a vergonha entre muitos Maceioenses persiste. E não era pra menos, Recife, ali do lado, tinha um dos maiores shoppings da América Latina!

Que a gente tenha vergonha de Shoppings pequenos e do que os gringos vão pensar na Copa diz um bocado sobre nós. Não é à toa que o padrão de consumo dos países centrais era figura central no argumento cepalino sobre o nosso subdesenvolvimento. Não é à toa também que o PSDB tenha decidido colocar em sua propaganda eleitoral o sentimento de vergonha que muitos da classe média (alta, AA) temem passar na Copa. E não é à toa que o FHC disse pro PSDB esquecer  o povão: está no DNA tucano entender os dilemas da classe média alta. Vem naturalmente. Mas eles tem muita dificuldade para entender quem não é como eles, quem é do tal povão.

Que a gente possa aprender tudo isso da vergonha, é realmente espantoso. Mas é um desses sentimentos que nos revelam muito mais do que a imagem que a gente contrói e tenta projetar o tempo inteiro.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Vamos passar vergonha na Copa

  1. Edito R.Queiroz Junior disse:

    nós deviamos deixar esta copa para 2114 ou vamos ganhar um exsa vexame.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s