Cinismo e Ideologia

Eis um texto que escrevi, provavelmente em 2006, sobre cinismo e ideologia. É um texto otimista, combastante influência dos meus estudos filosóficos de então, inclusive na linguagem, bem típica dos filósofos. Relendo-o agora, achei engenhoso, embora a conclusão seja bem apressada e não muito convincente. Mas deixemos isso para depois e vamos ao texto. Ei-lo:

Do Cinismo e da Ideologia

Durante muito tempo boa parte da tarefa da esquerda era identificar, no discurso ideológico que buscava legitimar a ordem, os interstícios nos quais as fraturas desse discurso apareciam. Fraturas onde se podia ver que o discurso não correspondia à realidade que aquele discurso afirmava.

Mas, talvez não percebêssemos, à palavra ainda era reservado papel especial. De fato, certamente era porque se julgava a palavra sumamente importante que os regimes mais totalitários buscavam caçar o direito a ela. Buscava-se eliminar toda e qualquer voz dissonante, por menor que fosse, nos mais escondidos recônditos.

Contudo, lá onde parecíamos viver o mais sombrio dos tempos, na verdade vivíamos um tempo no qual as sombras nunca podiam escapar ao poder da luz. Afinal, não é possível caçar a palavra dos homens. Nós somos homens de palavra. No princípio era o verbo, inicia-se assim o livro talvez mais importante do ocidente. Com relação ao discurso, pelo menos, esse não era o tempo mais sombrio.

Seria então sombrio um tempo no qual o discurso já não pode ter a força performativa característica do discurso que identificava as fraturas nos interstícios da ideologia dominante? Lembremos que um tal discurso era performativo porque ele desvelava realidade, porque reordenava o campo de significações com o qual víamos a realidade, em suma, porque reordenava a própria realidade. Isso porque, como se sabe, não se trata de separação abismal entre infra e superestrutura. Mas de perceber que a forma afeta o conteúdo e vice-versa.

Ora, e o que pensar de um tempo no qual o discurso já não é capaz de operar positivamente a realidade? Um tempo no qual já não é possível crer em discursos cuja validade de crença não podem decorrer de seu caráter objetivo? É evidente que em um tal tempo a operação performativa de revelar contradições entre a palavra e o real, entre o discurso e o objeto não podem ter força, sob pena de ser esse discurso mesmo acusado (e com razão) de ideologia. Afinal, qual a validade da crença a um real ao qual o discurso crítico se reporta?

Eis portanto que tudo indica que num tal tempo a sombra sobre o discurso se daria de forma poderosa. Podem agora liberar o discurso para todos, pois a dominação já não se apóia em discurso. Mas como seria possível uma dominação que não se apóia no discurso, pelo menos não como a anterior? Ora, porque o discurso dominante é, agora, cínico.

O discurso cínico, lembremos, é aquele cuja posição do sujeito falante não é negada no discurso, é aquele justamente no qual o próprio sujeito se põe como presença no interior do próprio discurso. Eis então que é possível falar – sem causar espécie, como se diria antigamente – que o PT não fez nada (mensalão) que os demais não façam. E que isso sirva como justificativa para não negarmos essa prática. Não se trata aqui de acusação moral contra este ou aquele. Se trata justamente do fato de que esse discurso é, agora, encarado como a perfeita justificação da ação. Mas como desvelar as contradições nos nexos entre discurso e realidade se o próprio sujeito já pôs essa contradição como presença?

Tudo indica que esse questionamento só pode nos levar a efetivamente caracterizar o nosso tempo como tempos sombrios. Porém, talvez ainda haja certa esperança se nos lembrarmos da velha lição hegeliana de tentar perceber se uma tal concepção realiza o seu próprio conceito. Trata-se de achar, lá onde se poderia imaginar no mais distante do seu contrário, justamente a chave para ir ao seu contrário. Trata-se não de negar uma prática que se enraíza pela sociedade, mas de radicalizá-la para percebermos que ela ainda não realizou o seu conceito. Que podemos, portanto, passar para um outro estágio.

E como seria possível uma tal operação? Talvez valha a pena comentar aqui o que talvez seja a forma de expressão artística mais característica do nosso tempo imagético: o cinema.

No filme “Invasões Bárbaras” vemos na figura do pai doente e na figura do filho yuppie a síntese perfeita dos desencontros geracionais resultado justamente dessa mudança de tempo. Enquanto o pai foi aquele que acreditou na força do discurso crítico performativo, revelado talvez quando fala que já foi “leninista, maoísta, marxista, existencialista… todos os istas”, o filho é aquele que não acredita senão no poder do frio dinheiro para comprar o reconhecimento dos estudantes para o seu pai, ex-professor, para conseguir a heroína que aliviará a dor – sem pudores de comprar droga de traficantes – do doente terminal.

Em outro filme lançado na mesma época, “Adeus Lênin”, podemos perceber que, no seio de uma sociedade paranóica com a palavra, o conflito geracional é outro. Estamos ali ainda num mundo em que a prática do filho não é a do cinismo, mas ainda a de esconder a realidade por meio da produção de uma outra realidade, de um outro discurso, com seus antigos signos, que remeteria à velha ordem, então superada. Quase podemos dizer que o filho deve ainda produzir ideologia no seu sentido clássico.

Em ambos os casos, apesar da oposição entre o cinismo de um e a produção de uma ideologia mais ingênua do outro (como toda ideologia, obviamente as fraturas do discurso fatalmente iriam aparecer, ainda mais que seu poder era restrito), o que anima as duas práticas é, ainda, um referencial de relação não ideológica e não cínica entre pai e filho, ou entre mãe e filho.

Para nós aqui, porém, por tratarmos de um tempo no qual reina não a paranóia com a palavra, mas o cinismo desarvegonhado, interessa-nos mais “As Invasões bárbaras”. De fato, nesse filme podemos ver, na figura do romance do filho cínico com a mulher drogada, que ainda é a esperança de uma relação não cínica que anima no fundo o filho cínico. Ou, posto de outra forma, o cinismo só pode operar quando apesar do sujeito se por como presença no discurso, esse sujeito for animado por uma reconciliação que não é posta no discurso e contra a qual o cínico age.

Ou seja, o cinismo só pode adquirir sua força quando ele estiver dialogando com o seu contrário, quando pressupor ainda alguma ordem de não-cinismo ao qual é preciso se reportar. Assim, quando alguém diz que “o PT não fez mais do que os outros fazem”, apesar de todo o cinismo presente nessa frase, há ainda algo de não cínico nessa afirmação. Há algo de não cínico porque o cinismo puro (radical), se podemos falar assim, simplesmente não tentaria justificar nada. Não só silenciaria, como também não daria palavra para o silêncio. Seria esse, então, o verdadeiro tempo sombrio no qual ao discurso não restaria mais lugar.

Eis, portanto, que é possível ainda ter esperança de que há espaço sim para a palavra, e há espaço sim para a disputa discursiva com relação a que ordem de referências normativas irá orientar o discurso.

A fraqueza do discurso cínico encontra-se não num outro, mas em si mesmo. Enquanto o cínico for cínico por causa dessa ordem do discurso transparente, sempre será possível o discurso crítico. Será preciso apenas lembrarmos que o discurso crítico já não é mais aquele que buscará apontar as lacunas da produção de realidade do discurso ideológico. Agora, é preciso incorporar o ganho (do cinismo) da presença do sujeito no discurso crítico. Bastará apenas por também como presença que ainda continuarmos a nos orientar por uma ordem de reconciliação e que não faz sentido negarmos isso. É essa a fratura que temos que apontar entre discurso e prática no discurso cínico.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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