Minorias, Maiorias e a cidade higiênica

Sobre essa polêmica do metro de Higenópolis, tem duas questões aí que as pessoas estão confundindo. Uma coisa é o nojinho que muita gente tem dos “mais humildes”, que se traduz na famigerada idéia de higienização social e que, por acaso (Hegel diria que é a astúcia da Razão) aconteceu justamente no bairro Higienópolis. Nesse sentido apoio totalmente a idéia do churrasco da gente diferenciada. Outra coisa é que uma associação de bairro defenda seus interesses perante ao poder público contra o interesse (suposto) da maioria.

Vou contar uma história rapidinho. Eu morava próximo à praça Elis Regina (ainda moro, na verdade, mas morava mais perto ainda), aqui no Butantã, em São Paulo (ver foto abaixo, via google maps), e havia um projeto da prefeitura para construir um túnel se lá de onde até a Corifeu, principal avenida do bairro, destruindo no caminho justamente a praça Elis Regina, bastante frequentada pela população local. Eis que os moradoes fizeram um abaixo-assinado e a prefeitura desistiu da idéia. Não sei se por causa dessa movimentação dos moradores, mas presumo que sim.

Ora, é claro que, num primeiro momento, a nossa demanda era pra beneficiar os moradores da região e prejudicar muita gente que usaria o tal túnel. Ou seja, beneficiar uma minoria em deterimento da maioria. A julgar pela defesa generalizada que tem sido feita no caso Higienópolis de que minorias devem ser atropeladas pelos direitos da maioria, tudo se passa como se nós do Butantã também estivéssemos errado, o que não concordo.

A questão é que, no processo de construir uma cidade para as pessoas passarem de um lugar para outro, cada vez menos teremos lugares para as pessoas ficarem, para se apropriarem do espaço público. E são justamente os moradores, os locais, quem sentem isso na pele e sua voz tem que ser ouvida sim e tem que se capaz de influenciar políticas públicas, sob o risco de cairmos numa política impessoal, dirigida pelos números e maximização de uma utilidade social, no espírito dos utilitaristas iluministas do séxulo XIX.

Isso não significa também que devemos cair no outro extremo da imutabilidade para evitara a destruição do presente. Não se trata nem de ser conservador, nem muito menos de reconhecer que há conflitos com ganhos e perdas e que lados terão de ser escolhidos, às vezes com reparações para os perdedores.

No caso específico de higienópolis, minha posição é que dentro de uma perspectiva de cidade que planejamos ter, uma estação de metrô é importante para melhoria do transporte coletivo e deve ser prioridade sobre outros interesses.

A questão da cidade higienizada é também complicada, e a esquerda faz bem em politizar como tem feito o assunto, mas faz mal em interditar toda discussão mais séria, simplesmente acusando de ser preconceituoso e o escambau quem quer viver numa cidade higienizada. Digo que faz bem porque é preciso aproveitar o momento político e nesses casos é preciso utilizar mesmos as paixões. E faz mal porque um debate mais racional é importante para que as cosias possam avançar com solidez, e não por uma modinha acrítica que facilmente se desmanhará lá na frente, evanescendo o apoio conquistado conjunturalmente.

Apenas a título ilustrativo, coloco algumas questões que me parecem importantes sobre esse assunto: Muros devem ser pichados, ou queremos eles limpos? Pichação significa apropriação do espaço público pelas pessoas, mas é também uma intervenção com externalidades de produzir poluição visual pelo excesso, numa cidade como São Paulo em que o excesso é a regra. Outra questão: Flanelinhas, camelôs ou não? São a efervescência das pessoas se virando como podem, ou a ilegalidade e o jeitinho suprimindo a racionalidade pública?

Todas essas questões não são fáceis, e é pelo menos compreensível que cada pessoa e agrupamento da cidade tenha sua visão sobre o todo e o que queremos para ela. Alguma escolha deve ser feita e reparações para os perdedores devem ser empreendidas. Mas não devemos apoiar irrestiratamente o atropelo de minorias, mesmo que discordemos delas. Amanhã, a minoria podemos ser nós mesmos. A discussão mais importante é, que cidade queremos construir?

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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