Lol

Nota: esse discurso será escrito num estilo algo filosófico (quando possível).

Começo explicando aos não iniciados na linguagem internética que a gíria lol, abreviação de Laugh Out Loud, significa aquilo que em português designaríamos, talvez, por gargalhada ou o ato de gargalhar.

E embora a rigor não tenha sido literalmente essa a minha reação – é tarde da noite e rio em silêncio – creio que o uso tradicional do termo na internet descreve adequadamente minha reação quando vi os vídeos abaixo, que trata de uma entrevista com o – hesito em chamá-lo de filósofo, afinal, o que seria um filósofo hoje? – professor de filosofia, Vladimir Safatle (que foi professor meu na USP).

A ironia responsável pelo lol é justamente a coincidência de que o que está em jogo na entrevista é justamente o objeto de que trata o livro do Safatle, que eu não li, mas tenho alguma idéia pelo que ouvi aqui e alhures (mas eu sempre me pergunto, seria essa “coincidência” mera coincidência?). Claramente a apresentadora não tá entendendo nada do que ele fala, o exemplo didático dele é bastante didático, reconheço, mas para um iniciado! Só que ela precisa atuar, encenar, e ele também. Só que ao transparecer tudo isso, ficamos na dúvida: é ironia, cinismo, hipocrisia ou mesmo uma bela sacanagem com o outro?

Como diria algum filósofo, e aqui filosofo (mais por usar filosofemas que por filosofar propriamente), tudo se passa como se a entrevista operasse simultaneamente em dois registros, um explícito e outro implícito. Ao entrevistador, cabe fazer perguntas previamente formuladas, tentando demonstrar ao telespectador que as perguntas fazem sentido para ele e, por extensão, ao telespectador, que tem na figura do entrevistador seu representante. Ao entrevistado, cabe ser o mais didático possível e responder às perguntas feitas, como se elas fizessem sentido. Num outro registro,  fica claro que a entrevistadora não entende nada do assunto e, por extensão, provavelmtente também não o telespectador, representado por ela. Mas que em nenhuma momento isso seja explicitamente denunciado, que  o jogo de cenas continue até o final,tudo isso parece apontar justamente para a operação da ideologica cínica lá mesmo onde menos esperaríamos encontrá-la: naquele que a enuncia, não para exaltá-la, mas para descortinar, desvelar sua existência e operar a crítica. Não deixa de ser irônico, portanto, que a crítica da razão cínica opere justamente, e primeiramente, pelo método antigo da ideologia como falsa consciência: trata-se antes e primeiramente de desvelar a existência dessa ideologia. Que essa operação se apresente como cínica, ou quiça como irônica, é sintomática da própria estratégia empregada.

Poderíamos até ver aí um apontamento para os limites do discurso filosófico, que pela sua própria natureza requer uma elaboração de tal ordem que precisa sempre operar, em algum nível, como uma desvelamento de uma estrutura que existe sem que agente perceba. Seria preciso pensar em outras formas de mostrar que a racionalidade de hoje é cínica.

Mas divago. Deixando de lado os filosofemas, acho que a entrevista traz temas sinteressantes, mas mais interessante mesmo é o riso que ela provoca. Se vocês também acharam engraçado, por favor, compartilhem nos comentários.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Lol

  1. L.M. disse:

    Manoel,

    honestamente, não vi a menor evidência de que a “apresentadora” não está entendendo nada. Pelo contrário: no primeiro bloco (no primeiro vídeo), ela está seguindo bem o que está sendo dito, como as intervenções que ela faz deixam claro. As perguntas feitas são muito boas, e parecem seguir a ordem do argumento do livro.

    É verdade que, depois, ela interage menos, ou foge menos do script – mas a explicação disso, me parece, é que ela estava preocupada com o tempo do programa. E também é verdade que ela lê as perguntas de forma mecânica, mas isso é só porque ela não é uma boa apresentadora.

    O que me leva, aliás, a falar da “apresentadora”: não sei se você sabe, mas ela tem um currículo respeitável – três graduações (em direito, letras e pedagogia), um mestrado (em linguística), e dois doutorados (em linguística e direito). Seria realmente chocante se uma pessoa com essa formação não entendesse “nada do assunto”, como você diz – e, se for o caso, o defeito é tanto dela quanto do sistema que a formou. Eu ficaria extremamente surpreso se alguém que estudou análise do discurso não entendesse nada sobre ideologia, ou se alguém que estudou direito não compreendesse o simples exemplo do Safatle sobre a dificuldade de aplicar nossos valores em situações concretas.

    Mesmo ignorando toda a formação da apresentadora, pra sua interpretação ser correta, você teria de tomar como falsa a afirmação de que ela leu o livro, e de que gostou muito dele (o que pressupõe que ela o entendeu, pelo menos em alguma medida); e você teria de presumir que as questões que ela pergunta não são de sua autoria. Eu me pergunto – não sem medo da resposta – que razões você teria pra isso…

  2. Caro L.M.,

    talvez eu tenha tido a impressão errada sobre o entendimento da apresentadora, afinal, não posso saber o que se passava na cabeça dela.

    E eu até achava que ela tem uma boa idéia do que seja ideologia. Razão pela qual as primeiras perguntas, relacionadas ao tema, são menos mecânicas e ela consegue interagir e fazer alguma perguntas fora do script. Depois minha impressõ sincera foi que ela não entendeu o que ele tava dizendo. E sinceramente, não acho fácil para um não iniciado no assunto acompanhar as falas do Safatle.

    Eu não sei se entendi tudo, mas ela balança a cabeça pra tudo que ele diz, como se entendesse tudo, e sinceramente não acho isso crível. Mesma que ela tenha entendido bastante, ela faz cara como se entendesse tudo. E pra mim isso ficou engraçado, pois foi evidente o encenamento dela, e do Safatle também, como se ela e o telespectador entendessem tudo perfeitamente, transparentemente.

    Por fim, minha experiência com jornalistas é que eles precisam de uma conversa prévia com o entrevistado, para ajudar a formular as perguntas para eles, chegando mesmo a anotar como farão as perguntas, sugeridas por eles mesmos, e foi isso que achei que tava rolando ali.

    Mas enfim, o que pra mim foi evidente, não o foi pra você. Posso muito bem estar totalmente enganado.

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