Classe Média e o texto do Pondé

O conservador Pondé ataca agora a classe média. Ele quer atacar mesmo é a democracia, mas como não pega bem perante os outros, ele finge atacar a classe média. Ironicamente, se preocupar com o que os outros pensam é justament um dos sintomas de ser class média, segundo ele. Por fim, um monte de afirmação sem sustwentação empírica que a comprove. Se isso não é ser opinativo no pior sentido da palavra opinião (aquela asseração sem fundamento) que ele tanto critica no artigo, não sei mais o que é.

A tese clássica e que pode ser lida, por exemplo, em Tocqueville, é sobre democracia Na democracia, substitui-se o desejo de glórias e grandes aventuras típicas da aristocracia pelo pragmatismo e busca de bem-estar. É a igualdade, diz Tocqueville, que é a pedra de toque da democracia. A equalização das pessoas as tornam cidadãos comuns e indivíduos virtuosos apenas na vida privada (bom pai de família, bom irmão, bom amigo etc.). Pondé substitui democracia  e igualdade de condições por classe média.

Mas ele é esperto e não quer atacar a democracia. Critica então a opinião pública, onde todo mundo tem opinião sobre tudo e todos. Mas não é esse o princípio da democracia: cada um tem o direito a ter sua opinião sobre os assuntos políticos do dia e a ser considerado um igual perante todos os outros?

Na ânsia de desfarçar seu ataque a democracia como um ataque à classe média, Pondé cai em contradições óbvias. Diz que é de classe média quem se preocupa com o que os outros vão pensar, que a marca da classe média é a hipocrisia. Tudo isso misturado, claro, para desvalorizxar as ações e opiniões da tal classe média, que na verdade é a opinião do cidadão comum. O argumento até parece fazer sentido: suas opiniões e ações são levadas apenas pelo que os outros vão pensar, e não pela verdade ou validade das coisas mesmas. Seguir o vulgo, enfim, não é mesmo nossa perdição?

É óbvio que isso aí é tudo besteira. Todo mundo dá valor ao que pensam os outros, inclusive o aristocrata. Aliás, não é póprio da aristocracia manter as aparências e defendê-las? Qual o papel das aparências se não a significação intersubjetivamente compartilhada? Todo mundo cria uma história sobre sua própria vida, que pode ser edificante ou não, mas raramente é uma história factualmente correta. Como apontam Kahneman e Tversky, todos ós estamos sujeiutos aos mesmos limites cognitivos, sendo apenas um deles a memória seletiva e o viés de interpretação da realidade. Atribuir isso apenas à uma tal classe média é não somente sem base científica, como non-sense.

No fim das contas, meu problema com o texto do Pondé é esse. Ele pega uma tese culturalista clássica, torce ela, e faz várias afirmações em contradição com o que a ciência do ser humano tem mostrado, e sem se preocupar em sequer conhecer o que essa ciência tem dito sobre esses assuntos. Menos certeza e menos opinião sobre o que ele não conhece (que é o que ele gostaria da classe média) é o que ele tiha que ter feito.

ps.: Com a asenção social da classe C, que seria a nova classe média, é normal que as pessoas das classes mais altas sintam angústicas com a modificação do status quo. Não me parece que seja só coincidência que justamente nesse momento esses discursos de ataque a classe média sejam desferidos.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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