Just de facts ma’am

Acabei de ler um texto do Bule Voador, um blog que descobri recentemente. O texto é uma crítica do anti-intelectualismo, realmente bastante chato e que tenho visto bastante recentemente. Porém, a propósito de criticar o (alegado) anti-intelectualismo americano, lá no Bule Voador, um texto apresenta argumentos sem evidências empíricas nenhuma para apoiá-los, e ainda faz raciocínios no mínimo tortuosos.

Eis os pontos em que acho que o texto escorrega.

1. As coisas pioraram nos EUA nos últimos 50 anos em termos de anti-intelectualismo. ” uns chegam mesmo a declarar que a coisa só fez piorar nessa passagem de milênio”. Pode ser, mas qual é a evidência? “1 em cada 4 americanos adultos não haviam lido um único livro no prazo de um ano inteiro”. Aí eu me pergunto, e 50 anos atrás? Era melhor ou pior? Não sabemos. Então, como dizer que piorou?

2. “ninguém parece ter se dado conta de que a onda de desempregos continuou crescendo, mesmo depois da aprovação da ajuda aos bancos”. O texto tá criticando a ajuda aos bancos? O tom é ambíguo, mas qual é o contrafactual que ele está propondo para analisar a ajuda aos bancos? Sem isso, a avaliação da política adotada é tosca. Parece-me que o contrafactual aí seria: “deixar os bancos quebarem, e adotar as demais políticas keynesianas de expansão monentária e fiscal”.  Alguém me diga que eu estou errado, mas creio que o desemprego seria ainda maior.

3. “Milhões de americanos pobres, sem condição de acesso a bons tratamentos, sobretudo em casos de doenças mais sérias, aceitaram como verdade inquestionável as palavras de vários políticos republicanos que, defendendo os interesses dos planos de saúde privados, vieram a público dar o grande alerta: Obama estava querendo implantar o “socialismo” nos Estados Unidos!”

Evidências empíricas? Cadê as evidências pra essas afirmações? Então eu vou fornecer as evidências.

1. A opinião popular sobre reforma de Saúde que o Obama enfrentou é bastante similar à que o Clinton experimentou em 94.

2. Se alguém ler esse artigo do Gelman, verá que, no fim das contas “In the most direct sense, legislation to cover the uninsured would thus benefit young, poor Americans, and these are exactly the people who most support federal intervention” (p. 12). Ou seja, são sim os mais pobres e jovens, os maiores beneficiários da reforma de saúde, aqueles que mais apoiavam uma reforma do sistema de saúde.

Então, no fim das contas, o texto, que procura criticar o anti-intelectualismo e para tanto argumenta que esse mesmo anti-intelectualismo é o responsável por coisas bizzaras, acaba fazendo um desserviço ao intelectualismo, na medida em que faz ilações sem evidências empíricas para apoiar as ilações.

Não quero aqui dizer que o texto é muito ruim, nem dizer que discordo do ponto central. Mas é que me irritam o costume que temos de fazer afirmações peremptórias sobre questões empíricas sem nem ao menos nos darmos ao trabalho de checar os fatos. Não chego ao extremo da famosa frase que é título desse texto, mas diria: “at least the facts ma’am”.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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