Argumentar baseado em primeiros princípios e o princípio do “good enough”

Tenho acompanhado alguns blogs de americanos, e estou impressionado com a qualidade da argumentação dos comentaristas. Se você comparar a qualidade dos comentários desses blogs com alguns similares aqui (NPTO, Biscoito Fino e a Massa, Nassif, PHA, Elon etc.) verá que o nível aqui é bem mais baixo. Pelo menos essa foi a minha impressão. Não confio muito nessa impressão não, na verdade. Melhor seria ver alguma análise sistemática sendo feita, mas obviamente isso é dificíl.

Mas o objetivo desse post não é tanto comparar comentários, mas discutir um comentário que vejo com alguma frequência. Muitos comentaristas pedem que os argumentos sejam feitos baseados em “primeiros princípios”. É o que o Friedman faz nesse vídeo aqui:

Se você vir o vídeo (em inglês, áudio meio ruim, sem legendas, sorry people), verá o que quero dizer por argumento baseado em princípios. Minha impressão é que muitos radicais nos EUA, estilo Tea Party, têm posições baseadas em primeiros princípios.

Posições desse tipo são boas para ganhar debates, já que o outro fatalmente incorrerá em contradições mais cedo do que quem argumenta baseado em primeiros princípios. Mas qualquer um que leu filosofias como a de Kant sabe que mesmo aquele que argumenta baseado em princípios incorrerá mais cedo ou mais tarde em alguma incoerência ou contradição, ou então defenderá uma posição claramente ridícula e insustentável diante do senso comum. De todo modo, o fato de se investigar as consequências lógicas não imediatas de um argumento é algo positivo, e que aqui poucos fazem.

Contra os primeiros princípios, eu acho que a política do “good enough” (bom o bastante  ou bom o suficiente) é uma boa saída. Diz Timothy Burke

I don’t want to care very much about whether one particular implementation of TARP or another is better. I don’t want to insist that my kid’s teachers and school need to follow my exact pedagogical preferences. I don’t want to bring a court case because this one time somebody had my kid be part of a moment of silence before a fifth-grade class. I don’t want to regard myself as endlessly called upon to personally participate in the righting of every wrong I can see, understand or know about. I want to flip Marx around and get to the point where most of the time, the point of thinking and talking and writing is not to change the world but just interpret it and enjoy the interpretations of others.

Flip it. I don’t want anybody telling me what the fuck to do in my house. I don’t want my kid’s pediatrician who I otherwise like to quote me media effects research that I know a great deal about and regard with skepticism and make my daughter recite the appropriate catechism in order to get out of the annual exam without a lecture. I don’t want the guy down the street and his co-religionists to start relentlessly lobbying the school board to remove references to evolution from high school biology class. I want fellow professionals who push constantly for ever-more insane levels of meritocratic pressure to be structurally and culturally inflicted on our kids (or on my students at Swarthmore) to just cool it in public, if they have to be tiger moms and dads, to keep that as private as they would if their sex lives involved razor play and urinating on each other. I want to accept and marvel at human resiliency rather than build an endless managerial and supervisory apparatus for preemptively protecting every potentially vulnerable person from every potential kind of trespass or offense. I want rules and strictures to be a last resort rather than a leading preference.

In short, my political aspirations at this point could be summed up pretty well by Jon Stewart’s plea to just chill the fuck out, America, take the temperature down. Do reasonable things. Appreciate the genuinely tough questions in life and politics for what they are, and appreciate the different answers that people come up with to those questions. I think there is, if not a “moral majority”, a decent majority, a mellowable majority, who pretty much also just want life to be good enough

Nos comentários, Timothy esclarece um ponto importante:

the politics of “good enough” is in my mind very much not opting out in the sense of being apolitical or non-political. Schwartz and others have a more formal word for the concept, “satisficing”, which I really hate the sound of. At the simplest level, Schwartz argues that satisficing is a decision rule about everyday choices which tends to produce much more satisfaction and peace-of-mind for people who employ it. If, for example, you don’t care that much about whether this detergent or that detergent is the best, and just figure that anything that’s not to expensive and works well enough, then you just grab something and pay it no more mind. If you want to always get the very best detergent at the very best price point, you’re a “maximizer”, in Schwartz’ view, and much more unhappy or unsettled as a result. Every choice or decision is perpetually accompanied by regret, as well as a tremendous amount of mental labor.

Esse tipo de perspectiva, parece-me, consegue responder bem ao argumento do Friedman, e era, acho, o que o menino do vídeo mais ou menos estava tentando dizer, talvez sem o saber. Ele não queria argumentar baseado em primeiros princípios, pois ele não estava argumentando a partir de uma perspectiva otimizadora dados os primeiros princípios. Simplesmente parece uma regra heurística boa dizer que 13 dólares por carro para salvar 200 vidas parecem valer a pena. Se a linha divisória dessa conta para em 100 dólares, 200 mil dólares, só faz sentido num argumento maximizador racionalista totalizante. Para uma visão “good enough”, nesse caso prático, 13 dólares pareceria ser pouco e, portanto, algo que a empresa de carro deveria gastar.

Timothy também parece acertar quando diz algo assim:

many of the long-standing details and particulars that fuel left-liberal conflicts are themselves fueled by maximizing, that various political fractions don’t set goals like, “less discrimination” or “more income equality” but instead have extremely specific political objectives that become fetishistic over time and make everything less or different seem horribly insufficient. This is just an extension of seeing satisficing as an active political project: applying it TO politics means that you’ve got to learn to embrace a much broader range of outcomes as basically ok, and be much more general about drawing the line between basically ok and basically not at all acceptable.

De fato, a esquerda tem um histórico terrível de ficar dividida e criar facções por desacordos em questões menores. O partido do qual faço parte, o Psol, é um típico exemplar disso. A corrente do qual faço parte, por exemplo, anda meio rachada e pode se dividir em duas partes, o que é ridículo, dado que é uma corrente minoritária de um partido minoritário! Menos maximizaing e mais satisfizing seria o ideal.

Anúncios

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Argumentar baseado em primeiros princípios e o princípio do “good enough”

  1. Pingback: Chill the fuck out | Blog Pra falar de coisas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s