Estudo prova que gordos são mais felizes (possível manchete do UOl)

Esse já o terceiro post que escrevo hoje, só que vocês não sabem, porque eu não consegui terminar os outros pra publicá-los. É, eu sei, porque começar um outro ao invés de terminar os já começados? É que bateu preguiça de terminá-los e esse aqui acho que é rapidinho.

Negócio é o seguinte. Vi essa notícia no UOL, dizendo que “estudo indica que passar fome atrapalha regime”. Na hora pensei, “hummm, tem cara de estudo observacional com problemas de interpretação causal. Não é provável que pessoas que mais passam fome em regimes sejam aquelas para quem o regime é mais custoso e mais propensas a quebrar o regime? Nesse caso, a associação não seria causal. Isto é, se você passa fome, não vai resolver simplesmente começar a comer as coisas. Seu regime não vai funcionar.”

Aí fui investigar mais de perto e ver se era isso mesmo. Eis o que diz a chamada quando clicamos no link:

Consumir gorduras nos deixa menos vulneráveis a emoções tristes, mesmo sem sentir o estímulo do paladar, é o que comprova um estudo da Universidade de Leuven, na Bélgica. Pessoas induzidas por imagens e sons tristes tinham um índice de tristeza 50% menor quando recebiam ácidos graxos (gordura) no estômago por uma sonda do que quando recebiam apenas uma solução salina.

Primeira coisa. Não é estudo da Universidade, é estudo de autores. Mania errada de citar a Universidade em vez dos pesquisadores. Certo é dizer, estudo de Van Oudenhove e colaboradores.

Sobre o conteúdo do estudo. Eu dei uma olhada rápida no artigo. O estudo consistiu de 12 pessoas (na verdade 11, pois a Ressonância Magnética de um deles deu problema) que participaram de um experimento. O que significa que não é estudo observacional. Aparentemente o experimento foi bem conduzido. Ele consistia em inserir gordura (direto no aparelho digestivo, pra evitar efeito do sabor) ou uma solução salina, como controle, em indivíduos com 12 horas de jejum. Assim o indivíduo não sabia o que estava sendo inserido. E eles também induziram tristeza (música triste) ou neutralidade (música neutra). E os indivíduos tinham que fazer um rating do humor deles (1 a 9, um triste, 5  neutro,  9 alegre), fome, etc.

A parte estatística parece bem feita, com correção no p-valor para múltiplas comparações. O objetivo do estudo era checar a interação gordura-humor, isto é, indução de emoções tristes com gordura tem efeito na fome, no humor etc. Basicamente, emoções tristes pioram o humor, mas ingestão de gordura mitiga o efeito da piora no humor.

A despeito do tamanho amostral ser pequeno (eles faziam medições ao longo do tempo, de forma que eles tinham 11 indivíduos mensurados 3 vezes, o que dá 36 observações. Com 3 variáveis independentes, + controle como sexo e múltiplos testes, o poder do teste é pequeno, embora eles façam uns testes pra checar isso), é um estudo bem feito. Nada definitivo, óbvio, mas parece bem feito.

Duas questões, porém: 1. Qual a magnitude do efeito? 2. Como diabos a reportagem conseguiu sair desse estudo e  concluir que passar fome em dieta atrapalha o regime?

Pra entender a magnitude do efeito, vale a pena entender como a VD foi definida. Eles mediram o humor antes do estudo, no rating, e calcularam a variação no rating induzido pelo experimento.

Pelo gráfico, o efeito de música triste sobre o rating é de diminuí-lo em 2 pontos, com erro padrão de .5. E o efeito de música triste com gordura ingerida diminui o humor em .8, com erro padrão de .5 (tô chutando pelo gráfico). Ou seja, música triste com gordura tem um efeito menor que só música triste. A questão é, a diferença é significativa? Afinal, vale lembrar do Gelman, a diferença entre significante e não significante não é, em si, significativa.

Fazendo uma conta simplificada, temos que a diferença entre as médias é de 1.2 e o erro padrão da diferença é 0.7 (sqrt(.5^2 + .5^2)).  Ou seja, por essa conta simplificada, a diferença não é estatisticamente significante. É claro que minha conta é simplificada, e uma computação mais precisa só com os dados e valores precisos. Mas creio que estou certo. Então, a diferença dos efeitos pode ser zero, como pode ser 2.6. O problema aqui, quase certamente, é de tamanho amostral.

Além disso, o efeito parece grande demais pra ser verdade. É preciso algum background aqui, que eu não tenho, pra avaliar isso. Mas uma variação de dois pontos no humor apenas por ouvir uma música triste? E aliás, não entendi porque eles não computaram a variação percentual. E  mais, o que acontece com quem fez um rating de 1 (triste)? Só podia melhorar, não? E quem fez um rating de  9? Só podia piorar!

Então, acho que o estudo é ok no geral, mas bastante limitado na capacidade de generalização. Amostra pequena, 12 horas de jejum e possivelmente dependendo do humor prévio das pessoas (chuto que a maioria fez rating de 5, neutro).

O que nos leva à chamada da reportagem. Simplesmente ridícula. Não tem nada a ver com dieta, exceto que no protocolo experimental as pessoas estavam em jejum. Só que jejum não é dieta.

Uma hora no texto dizem o seguinte: “A pesquisa descobriu a razão porque recorremos a um sorvete ou pedaço de bolo em momentos de estresse”? Jura? Só que ela não descobriu nada. Muitas coisas diminuem a tristeza, entre eles se alimentar após jejum de 12 horas. Nada de informação sobre ingerir alimentos após jejum de 6 horas, 1 hora. E muito menos sobre alimentos específicos (bolo, sorvete…). Ele não comparou, por exemplo, gordura com alface. Mas gordura com solução salina.

Em resumo, não era o que esperava em relação ao estudo, mas era o que esperava em relação à reportagem: abobrinha pura. O que me leva à pergunta: porque não a chamada com o título do post: “Estudo mostra que obesos são mais felizes”. É uma distroção tão grande do resultado quanto a chamada original.

 

Anúncios

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, estatística, Mídia e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Estudo prova que gordos são mais felizes (possível manchete do UOl)

  1. Isabel disse:

    Certeza que vc só faz esses posts malas destrinchando pesquisas pq vc não trabalha com isso o dia inteiro heuheuheuehue
    Quando eu vejo essas manchetes bizarras, só dou risada pensando em quem acredita =P

    Anyway, gostaria de ver sua opinião sobre a reportagem de capa da Exame do dia 10/08 =)

  2. Não vi a capa da Exame… Tem link? Vou ver se acho na Banca…

  3. Ah, eu trabalho com pesquisa o dia inteiro, mas não em fazer reportagem. Mas esse caso foi muito bizarro… Mais que o usual.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s