Diálogo socrático (adaptação de texto de Cosma Shalizi)

Eu já linkei pro blog do Shalizi aqui antes, mas creio que poucos foram ler o que ele tem a dizer. Então eu vou traduzir livremente um texto dele, em forma de diálogo, sobre o famigerado QI e fator-g, que supostamente mede inteligência.

Q: Você colocaria seu chapéu de pensamento direitista educado de forma liberal-esquerdista em Madison e Berkley por um momento?

A: Nada é mais fácil que isso. (Você deixou de fora a suja hiperprogressiva escola Montessori, onde eles me ensinaram Pirandello e Diderot.)

Q: Muito bom. (não se encaixava no ritmo, mas deu pra entender a idéia). Como você reagiria à idéia de que um traço/característica (trait) psicológico, intimamente ligado às funções mentais superiores, é altamente hereditário?

A: Com desconfiança e mal-estar, naturalmente.

Q: É fortemente correlacionado com nível de educação, classe e raça.

A: cada vez pior.

Q: Basicamente nada que acontece após o início da adolescência tem um impacto sobre ele; não só isso, é também correlacionado com a dieta.

A: Você trabalha na Heritage Foundation? Tais coisas não podem ser.

Q: E se eu lhe disse que a característica era sotaque?

A: Era o que?

Q: (com um sotaque da paulistano evidentemente falso): Quando você, tipo assim, fala diferente dos outros? Quem fala, tipo, a mesma língua? porque é assim que você, tipo assim, aprendeu a falar deles aos invés dos manos ao seu redor?

A: Você tem um ponto, ou você está apenas zombando de mim?

Q: Você concorda que sotaque tem todas as características que acabei de descrever?

A: funções cognitivas superiores – hereditária – classe e raça – sem plasticidade após a adolescência – correlação com a dieta, hah! – Acho que sim.

Q: Mas você diria que não há qualquer componente genético ou mesmo congênito no sotaque?

R: Na verdade não. Obviamente, algumas condições congênitas, como surdez ou defeitos das cordas vocais, tornam difícil ou mpossível adquirir algum sotaque. E eu posso imaginar, ainda que não consiga pensar em nada agora, que pode haver mutações muito específicas que tornam difícil ouvir uma distinção entre um dado par de sons, ou mais fácil de aprender uma distinção específica. Mas, em geral, não, não há componente não-trivial genético para o sotaque.

Q: Então por que você estava preocupado que eu estava prestes a começar a fazer proselitismo de Arthur Jensen?

R: Porque esses são os tipos de argumentos geralmente apregoados por pessoas que querem afirmar que algo é inato, não-plástico, e, geralmente, individuado; às vezes há um “infelizmente” para as afirmações de inferioridade de grupo e, às vezes, eu acho, que o “infelizmente” é mesmo verdadeiro.

Q: Esse último sentimento é últimamente magnânimo. Mas ao invés de contra-argumentar, transformando isso num diálogo genuíno, continuarei a dirigir o diálogo com perguntas – Certamente o exemplo do sotaque mostra a fragilidade dessa linha de argumentação?

R: De fato. O sotaque, que evidentemente não é inato nem plástico, tem todas estas características; portanto essas características não apontam, inequivocamente, o caráter inato ou não-plástico do sotaque. Logo,  mesmo se coeficientes de QI têm estas características, isso não significa que o QI é um traço/característica inalterável do organismo.

Q: Gostaria de desenvolver a analogia?

A: Por todos os meios.

Q: Na natureza, por assim dizer, o sotaque é altamente hereditário na população geral, e (pelo menos nos EUA), fortemente correlacionado com a raça. Isso implica que há uma base genética das diferenças raciais no sotaque?

A: não manifestamente.

Q: Pode o sotaque mudar significativamente ao longo do espaço de uma geração ou duas, dentro de uma única população, sem ser impulsionado por forças externas?

A: O trabalho de William Labov & c., se nada mais, parece ter mostrado isso, sim.

Q: Como você explicaria esse tipo de mudança?

A: O sotaque é o resultado da aprendizagem de falantes adultos e de outras crianças; embora eu não acho que sabemos muito sobre os mecanismos precisos do sotaque, nós sabemos que muitos tipos de aprendizagem social, inclusive pertinentes à linguagem, são propensos a imitação (herding) grandes oscilações de comportamento coletivo.

Q: Então você diria que esse tipo de mudança rápida de uma dada população é sugestivo de um traço que evolui culturalmente, em vez de geneticamente?

R: Essa pergunta é muito mal-colocada. Se qualquer coisa, ela me lembra uma das minhas frustrações perpétuas com muito da psicologia e sociologia, que é a forma pela qual eles pegaram algumas ferramentas estatísticas básicas, mais estatística descritiva e análise de resíduos que qualquer outra coisa, e as fetichizaram como as formas platônica de teoria matemática e análise causal.

Q: Você acha que você pode detonar tal idolatria da regressão linear e análise de variância melhor do que Clark Glymour pode?

R: Não, então eu vou deixar isso para ele. (Não siga o link, no entanto.) Para voltar à sua pergunta, deve haver uma base genética para ter qualquer sotaque no fim das contas. Eu diria que há uma série de sotaques que são fáceis de adquirir, cercado por uma penumbra de sotaques que seres humanos comuns achariam difíceis de adquirir, e então, sotaques que, embora possam ser logicamente concebíveis,  não são passíveis de serem aprendidos. A localização desses conjuntos poderá mudar com alterações genéticas. Mas, mantendo o conjunto de genes mais ou menos fixo, mover-se dentro do espaço de sotaques fáceis de aprender sotaques parece ser devido inteiramente a processos de aprendizagem social.

Q: Então, tomando todas essas qualificações em consideração, o que a analogia com sotaque sugere para o Efeito Flynn?

A: O que?

Q: Eu tenho que fazer as perguntas, eu estou com “Q” e você está com “A”!

A: Olha, eu estaria perfeitamente feliz em responder se eu tivesse alguma idéia do que eu estou respondendo! Mesmo em um weblog, isso é pedir demais?

Q: Muito bem, só desta vez: o Efeito Flynn é um fenômeno observado pela primeira vez por James Flynn, olhando para dados sobre testes de inteligência, que não foram re-normalizados ao longo do tempo. Se você as mesmas pessoas fizerem as versões dos testes  [de QI]  de dois anos diferentes, você pode ver quão bem respondente mediano no ano X teria alcanãdo no teste do ano  Y. A conclusão é que se tivéssemos usando os mesmos testes de QI ao longo do século XX, o QI médio teria subido algo como dois a três pontos a cada década – às vezes menos, às vezes até mais, mas sempre em algum lugar nas proximidades. Isto se aplica mesmo em situações onde você pode muito bem descontar reprodução diferencial ou a imigração (por exemplo, os resultados dos testes de recrutas do exército holandês).

A: Então, um QI de 100, em 1900, seria equivalente a um QI de 80 ou mesmo 70 hoje?

Q: Isso; o que é o limite para retardados mentais.

R: Bem, uma possibilidade é que as pessoas eram realmente estúpidas, afinal, as gerações de 1900 e 1910 foram as que nos trouxeram a Grande Guerra, no fim das contas. Anti-democratas como Pareto ou Nietzsche podem na verdade ter medido com precisão as habilidades mentais de seus contemporâneos.

Q: Eu não lhe pedir para colocar seu chapéu de pénsamento direitoso liberal esquerdista?

A: Ah, sim, me esqueci. Bem, mesmo se isso fosse verdade, sem dúvida que foi devido à opressão sofrida pela grande maioria, até mesmo das sociedades mais ricas, uma contrapartida mental para a forma como a aristocracia poderia literalmente olhar para baixo sobre as ordens inferiores.

Q: Um pouco menos da “esquerda” e um pouco mais do “liberal”, talvez?

A: Outra possibilidade é que isso não reflete, de forma alguma, qualquer tipo de mudança na capacidade mental de base (qualquer que seja). Ir bem em testes padronizados, de múltipla escolha, está relacionado a certos tipos de habilidades cognitivas, certos tipos de solução abstrata de problemas. Talvez mais precisamente, você precisa tanto de aptidão para compreender regras explícitas para a manipulação de símbolos, comunicadas a você por meio da escrita, com muito pouca informação contextual para ajudá-lo a entender o sentido da mensagem, e você precisa estar disposto a seguir essas regras, mesmo quando elas são inúteis. Estas são habilidades que vêm fazendo o seu caminho através de uma sociedade industrial, ou mais precisamente burocrática e alfabetizada em massa. (Sombras de Luria!) Estas são habilidades que você vai dominar mais numa família que já é altamente letrada, etc, do que se seus pais e vizinhos são todos os camponeses deslocados ou proles assediadas. Certamente não é surpreendente que alguém que cresce em uma família de intelectuais (ou seja, funcionários) encontra esses hábitos fáceis de aprender.

Q: Então, a analogia sugere que as pontuações de QI são …?

A: Uma proxy para as habilidades e hábitos incentivados por uma sociedade burocrática, habilidades e hábitos que podem ser ao mesmo tempo altamente hereditárias (por causa da transmissão forte através da família e vizinhos) e altamente aprendidas (no âmbito do que é biologicamente possível para os seres humanos de aprender e internalizar). Issoo nem precisa ter haver com habilidade inata. As implicações para a democracia seriam quase nulas (nealry nil).

Q. E o famoso g?

R: É um artefato estatístico, ou melhor ainda um mito, mas isso é outra história para outra hora.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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