Inside Job

Acabei de assistir ao filme Inside Job. É um filme muito bom mesmo. Já foi comentado bastante em vários lugares. Como alerta o Beluzzo, inside job é uma expressão idiomática não caberia tradução literal. A expressão é utilizada quando um crime é perpetrado coma ajuda de alguém em quem a vítima confiava. Assim, por exemplo, quando uma joalheria é roubado com ajuda de um funcionário da loja, isso é um “inside job”. No caso do filme, a crise ocorreu com a ajuda da desregulamentação financeira do próprio governo dos EUA e dos economiasacadêmciso que deram o suporte ideológico para a desregulamentação.

Eu gostei muito do filme, embora concorde parcialmente com o Erza Klein de que Inside Job “got it wrong”. Uma das coisas que é “misleading” no filme, creio, é que era fácil ver, ex-ante, que a crise ocorreria. Erza Klein acerta quando diz:

There’s a lot to dislike about Wall Street. The pay. The culture. In many cases, the people. But that doesn’t explain what happened in 2007 and 2008. A lot of observers understood we had a housing bubble — Dean Baker, for instance, had been sounding the alarm for years — but few of the housing skeptics saw everything going on behind the bubble: That the subprime mortgages had been packaged into bonds, that the bonds had been sliced into tranches, that the formulas being used to price and rate the tranches got the variable expressing correlation wrong, that an extraordinary number of banks had purchased an extraordinary amount of insurance against getting that correlation wrong from AIG, that AIG had also priced the correlation wrong and would be unable to pay its debts in the event of a meltdown, that a meltdown would freeze the mostly unregulated shadow market that major financial institutions and players used to fund themselves, that the modern financial system was so fragile that an uptick in delinquent subprime mortgages could effectively crash the global economy.

De fato, qualquer economista que tentou entender as causas da crise durante o acontecimento dela viram que ninguém sabia explicar. Naquele momento, eu ensinava Macroeconomia e, claro, tinha de entender a crise para explicá-la aos meus alunos. Eu procurei muito, mas a verdade é que apenas depois de um tempo os próprios economistas foram entender o que havia de errado. Os derivativos e outros instrumentos financeiros eram muito complexos. A falta de regulação limitava a quantidade de informação aberta para análise. As fraudes contábeis dificultavam (e ainda dificultam) uma avaliação séria dos riscos. As agências de risco só faziam merda, mas ninguém de fora do jogo sabia disso ou quase ninguém sabia.

A verdade é que sempre haverá um argumento de que “agora o mundo é diferente”. É fácil ver que isso é besteira após a história mostrar que isso não é verdade, mas é tentador ver mudanças que deixaram alguns problemas para trás. Peguemos o caso do Brasil agora. Os preços dos imóveis subiram assustadoramente nos últimos anos. No entanto, se você conversar com economistas muito inteligentes que estaõ comprando suas casas, eles lhe dirão algo assim: mas esse é o novo patamar. O Brasil mudou.  A renda das pessoas aumentou e não há casas para todos. O Brasil está crescendo, vai continuar crescendo e não vamos voltar aos preços anteriores.

Essas pessoas bem podem estar certas. Prever o futuro é um negócio complicado (óbvio) e pode muito bem ser verdade que atingimos um novo equilíbrio de preços do setor imobiliário. Por outro lado, é muito coincidente que esse tenha sido o discurso dos justificadores da ordem econômica nos EUa nos anos 90 e 2000. E no entanto, aquilo era uma mentira, uma ilusão.

Veja esse discurso, reportado pelo Erza Klein, de Michael Lewis:

“Davos,” he wrote, “is where people with no talent for risk-taking gather to imagine what actual risk-takers might do.” The problem with trembling doomsayers like Nouriel Roubini was that “none of them seemed to understand that when you create a derivative you don’t add to the sum total of risk in the financial world; you merely create a means for redistributing that risk.” The reality, Lewis said, is that “the financial markets in 2007 are astonishingly robust. They seem to be working out how to absorb and distribute risk more intelligently than any member of the global economic elite could on his own.’’

De certo modo, o Lewis estava certo. A invenção das CDOs é uma coisa brilhante. E no entanto, o fato de numa crise as correlações terem sido mal modeladas e o fato de muita gente ter apostado na crise para ganhar dinheiro (Goldman Sachs por exemplo contra AIG) e isso não transparecer no mercado ilustra como eles estavam sim adicionando riscos, mas essa informação não foi transmitida para os agentes.

Voltando ao filme, creio que o Inside Job não mostra que era realmente difícil ver a crise chegando. Por outro lado, ele mostra corretamente (e contra Erza Klein) que os incentivos estavam todos errados. No mercado, existe um princípio não dito que é o seguinte: é melhor errar com todo mundo do que erra sozinho. Se todo mundo ganhar dinheiro ao fazer certo tipo de operação financeira, você tem que fazer também, pois será limado do mercado se não a fizer. E se você achar que essa operação vai dar merda em algum momento, você terá que se proteger contra ela, mas continua fazendo para ganhar dinheiro ans duas pontas (enquanto ela der certo e quando ela der errado). Então, os incentivos estão sim errados. E faltou regulação. Nesse ponto, creio que Inside Job acerta na mosca

 

 

Anúncios

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s