A importância do esquecimento e do desparecimento, ou a insensibilidade

Vi essa notícia (nem li a reportagem, só a chamada), falando que 2 mil línguas (idiomas) podem desaparecer segundo a ONU, e pensei: Uma pena, mas talvez tenham que desaparecer mesmo. Nada contra quem quiser lutar pra uma língua não desaparecer, mas parece que hoje em dia a gente tem uma dificuldade imensa em deixar as coisas desaparecerem. Em esquecer, deixar cair no esquecimento.

É claro que quando você esquece alguma coisa você perde algo. Mas a gente não pode ‘esquecer’ que o esquecimento acontece para que outro algo assuma o lugar do esquecido. Historicamente, as coisas sempre desapareceram.  Línguas, religiões, espécies, seres vivos, estrelas. E nós estamos aqui, agora querendo preservar tudo, para que nada seja esquecido. Por um lado é bacana preservar a memória para as gerações futuras, mas por outro, me pergunto: a que custo?

Filosofando um pouco, muita gente leu aquela tese IX do Walter Benjamin sobre o progresso, e aquele quadro do Paul Klee, que fala que o progresso deixa uma destruição atrás de si. A chave é excelente, e é isso mesmo. Mas o que o pessoal não entendeu disso aí é que não é uma crítica unilateral do progresso, do tipo: viu, não queremos progresso, ele só destrói as coisas. Porque o progresso  é uma forma de deixar o passado, que de algum modo tem de ser destruído no caminho. Não tem saída. Quer preservar o passado, então fique preso nele.

O risco, é claro, da minha perspectiva, é que eu posso cair numa filosofia de justificar qualquer atrocidade ex-post-facto. Uma coisa meio stalinista: matamos alguns milhões, mas gente tá mais perto de alcançar o socialismo. Toda a humanidade futura vai se beneficiar, não vale a pena esse sacrifício de uns poucos  milhões de seres humanos? O que são um punhado de milhões de seres humanos diante do futuro todo da humanidade?

É claro que o Stálin e o stalinismo estavam errados, e não somente porque o paraíso não estava chegando. O ponto mesmo é que, mesmo que o socialismo fosse ser alcançado, que  fosse o paraíso na terra, ainda assim seria errado, ponto final. Tudo isso pra dizer que não se trata pura e simplesmente de ser insensível, coisa que às vezes a Paula, minha companheira, me acusa.

Mas não é insensibilidade, é apenas uma questão de achar um equilíbrio enre sensibilidade e apego excessivo ao presente. Filosofando novamente, é aquilo que Hegel (e quase todo filósofo, claro) discutia, sobre como conciliar o particular e o Universal. E a resposta, claro, é que não tem como conciliar, e é preciso portanto instituições, práticas e acordos contingentes, que vaibilizam o florescimento do partiular, mas que permitam, de tempos em tempos, a afirmação do universal contra o enraizamente dos particularismos.

Não por outra razão, Hegel falava na importância da Guerra, nesse sentido de romper com os particularismos. E creio também que é por isso que Lincoln falava, a propósito da Guerra Civil americana, que conflitos como aqueles eram importantes pra uma geração. É porque chega um momento em que os particularimos se enraizam de tal modo que é preciso quebrá-los, para que o novo possa surgir. E a quebra dos particularismos será dolorosa, mas creio que necessária. Então, que deixemos muitas línguas desaparecerem e cairem no esquecimento.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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