Scarlett Johanson, Bullying e o poder do discurso

A propósito de um texto sobre o episódio envolvendo o vazamento de fotos da Scarlet Johanson, um bom texto foi compartilhado no greader pela Aline. O texto é ótimo, só que eu fiz umas ressalvas e aí começamos uma discussão que, aparentemente, tava com muito ruído e pouco sinal, em parte pelo formato do greader, que não dá vontade de escrever textos muito longos, explicando sua opinião. Então eu trago a discussão praqui e explico minha posição.

Existe no texto, e também aparentemente na argumentação da Aline, a idéia de que uma das razões do bullying é que o discurso do opressor – aquele que faz a agressão, no caso, verbal – tem força porque é socialmente legitimado. No que eu concordo plenamente.

A aline (e o texto) trazem o caso da Hope, uma menina de treze anos que mandou uma foto dos seios pra um menino de quem ela gostava, alguém pegou a foto e fez ela virar viral. E aí, humilharam tanto ela (havia até site) porque havia “pagado peitinho”, que ela acabou por se suicidar.

Acontece que, como argumenta corretamente a Aline, qual é a fonte da humilhação e vergonha nesse caso? A  idéia de que pagar peitinho é  coisa de vadia, a vergonha de outros verem as coisas sexuais que você faz etc.; como se apenas você tivesse esses desejos e essas ações. Porque se a Hope tivesse mandado um SMS dizendo, gosto de você, e alguém tentasse humilhar ela com isso, ia dar com os burros n’água. A opressão depende, então, de que um comportamento qualquer seja visto e aceito como embaraçoso, vergonhoso, errado.

Tudo isso eu concordo. O que era a fonte da discordância é que nesses casos, adianta alguma coisa a prória Hope sair dizendo: gosto mesmo de mostrar meus seios pra quem gosto, não me sinto envergonhada e tal? Duvido muito, porque uma pessoa só não vai conseguir alterar a realidade nem a forma como os demais a encaram. A única coisa que vai acontecer é que ela vai enfrentar uma pressão social e humilhação e isolamento cada vez maior. Até que no final, diante de tanta pressão, ela acabará cedendo e aceitando a realidade como os outros a vêem, e não como ela via. O que tornará tudo pior.

Não quero com isso dizer que  realidade é imutável nem esvaziar o poder do discurso crítico e da capacidade de mudança das percepções do que é certo é errado. Se eu não acreditasse no poder da palavra, não seria um acadêmico que escreve artigos nem muito menos teria um blog.

Só que não dá para exigir isso de um adolescente. Dá para exigir isso da mãe dela, por outro lado. Aparentemente, a mãe dela disse que se soubesse que ela tinha pago peitinho, a teria castigado! Hesito em criticar a mãe, porque ela já passa por uma dor terrível, mas é  muita burrice. Então, adultos deviam saber mais. Somos nós que temos que rejeitar o discurso. Até porque, os adolescentes, em última instância, mimetizam o mundo dos adultos, tal como eles vêem. A capacidade, portanto, dos adultos alterarem as realidades intersubjetivamente partilhadas é muito maior do que dos próprios adolescentes, embora seja bom não exagerar aí também.

Como disse no meu comentário no greader, conflitos sempre haverão de existir, e temos que reconhecer isso.

ps.: Houve um caso parecido ao da Hope, mas em certa medida, bem pior, e our outro lado, menos trágico (não houve suicídio) quando eu fazia faculdade. Houve uma festa na FGV em que havia uns “quartos do amor”, para casais terem momentos de privacidade na festa. Acontece que algum idiota muito filadaputa colocou uma câmera escondida, tirou fotos dos casais fazendo sexo e o escambau e depois alguém divulgou na internet. E aí, tinha gente de todos os lugares, inclusive da própria FEA.

A despeito da invasão de privacidade, foi realmente terrível observar o moralismo hipócrita das pessoas da faculdade comentando e condenando quem havia ido pro quarto do amor. Como se a libido e o desejo e as fantasias sexuais não povoassem as mentes de todos nós. Eu mesmo me peguei tendo esses pensamentos hipócritas, o que me faz sentir mal até hoje. Mas o fato é que, naqueles dias, não havia muito o que os envolvidos pudessem fazer para não se sentirem humilhados ou envergonhados.

No mundo ideal, nós mesmos não teríamos vergonha de nossos atos, desejos e fantasias sexuais, e isso não seria motivo para embaraço e humilhação em público. Mas a nossa própria identidade atual é formada em parte nesse puritanismo, e ainda que possamos nos reinventar no longo prazo – e espero fortemente isso -, num dado momento do tempo a plasticidade é bem pequena daquilo que nós somos. E não há discurso capaz de alterar isso. Então, vítimas são mesmo vítimas, e é assim que temos que tratá-las. Os opressores e agressores são todos os bulleiros com sua crueldade sempre a espera de uma oportunidade de machucar o outro apenas pelo prazer de machucar…

 

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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