Falando lateralmente da USP

Eu tenho evitado falar aqui no blog sobre os episódiso da USP. A razão principal é porque quero deixar o blog sempre o mais crítico possível, e o envolvimento passional com uma questão costuma não ser um amigo muito bom de um exame mais apurado da realidade.

Além disso, eu desconheço os fatos em detalhes. É claro que muita gente lê na mídia as coisas e acredita piamente no que lê. E toma como verdade, como fato, relatos da mídia viesada. Nem que digo que sejam sempre mentiras. Mas eu desconfio muito.

No Amálgama, por exemplo, o Daniel Lopes escreveu um texto metendo a boca na ocupação da Reitoria. Ele linka até para uma foto de coqueteis molotov que supostamente teriam sido feitos pelos alunos. Eu me pergunto é como alguém pode não duvidar da veracidade desse fato. Quero dizer, é possível que fossem coqueteis molotov, mas é crível que os estudantes estivessem fazendo isso? A nossa gloriosa polícia não iria plantar esse tipo de coisa? O que é mais crível: acreditar que estudantes da USP estão fazendo coqueteis molotov, ou que a polícia pegou as bebidas que tinham lá e plantou as provas?

É claro que pode ter uns débeis mentais lá dentro do movimento estudantil fazendo essas coisas. Por outro lado, não precisa acreditar que tem débil mental na polícia. A gente sabe que eles plantam provas para tirar o corpo fora de exageros que eles cometem.

Então, tudo isso pra dizer que eu não acredito no que sai na mídia. Eu lembro que na primeira ocupação da Reitoria, passei um tempinho lá dentro da reitoria, dando uma olhada. E por acaso no dia seguinte tinha a polícia chegado e os estudantes saíram. E mais uma vez tinha as acusações de depredação do patrimônio etc. etc. Só que não havia nada disso lá quando eu fui lá. E havia inclusive orientações explícitas para preservar tudo.  Contraste total com o retratado depois e relatado pela polícia. Então, já tendo observado em outros momentos todos esses indícios de manipulação pela reitoria, polícia e mídia, porque ficaria surpreso agora?

Outra questão que estão colocando é que o movimento estudantil não é democrático. Essa alegação é, certamente, uma das mais risíveis e tolas. Em primeiro lugar, quem não é democrática é a USP. Aliás, o próprio Rodas, atual Reitor, não foi o escolhido pela comunidade acadêmica, num processo que em si não tem nada de democrático. Então, são as insituições da USP que não são democráticas, antes de mais nada e acima de tudo.

Em segundo lugar, o movimento estudantil pode ser acusado de ser formado por pessoas cínicas, oportunistas e políticos profissionais. Mas elas respeitam as regras do processo democrático.

Basicamente, como é que a coisa costuma funcionar? Você convoca uma assembléia da qual todos podem participar. Só que ela não tem quórum. Então, começa com os presentes, seja lá quantos forem. E uma vez instaurada, a assembléia é soberana. Ela pode decidir o que quiser. Ela pode votar por entrar na reitoria. Ou fazer greve. Qualquer estudante pode ir lá, propor votação e votar nas propostas. Que a esmagadora maiore opte por não participar das assembléias é um claro problema de déficit democrático. Mas, formalmente pelo menos, continua sendo um processo democrático. Aliás, se tem tanta gente assim contra a decisão de uma  assembléia, basta convocar outra assembléia, toda essa maioria comparecer na assembléia e fazer a votação. Que essa suposta maioria não queira pagar o custo político da participação política, mas ainda assim reclame que não é representada é algo meio ridículo. Tudo se passa como se 60% dos cidadãos americanos deicidissem não votar, aí o Obama é eleito e então eles passam a dizer que o Obama não foi eleito democraticamente, pois mais de 60% não queria ele lá. Mas se você não votou, você delegou para quem votou a decisão eleitoral. Formalmente não tem conversa.

Isso não quer dizer que o processo político estudantil não seja viciado, nem que o fato de tantos não participarem não seja um problema. Repito, é um déficit democrático claro e uma questão normativa importantíssima para os estudantes. Mas não deixa de ser ridículo quando quem escolhe não pagar o custo político da participação fica acusando quem decide pagar de ser mimado. E ficam falando no blog, no facebook, twitter e afins. Eu mesmo quase intimei os colegas ex-uspianos que ficavam falando de estudante mimado: “mas diz aí, de  quantas assembléias você participou mesmo enquanto era estudante? Nenhuma? Ah, então tá.”

Mais uma vez, eu entendo as razões porque muitos estudantes não pagam esse custo político. O custo é realmente alto, e qualquer um interessado em democratizar a bagaça substantigvamente, não apenas formalmente, buscaria reduzir esse custo. Mas não tenho dúvidas que muitos dos que falam asneira não estão interessados em demcratizar mesmo a coisa, mas apenas em achar uma razão a posteriori para uma condenção a priori.

Outro assunto é a questão da polícia. Eu tenho evitado falar muito sobre o assunto, porque eu desconheço os detalhes da presença da PM na USP. Mais uma vez, por ter visto e conhecido muita coisa sobre essa mesma PM, eu sempre vou ter suspeita do que ela faz. Já li vários relatos de gente relatando a forma abusiva e preconceituosa como ela tem agido, revistando e parando estudantes e professores sem motivo algum. Mas as pessoas, sem conhecimento do assunto, mais uma vez formaram opiniões sobre o tema e ficam buscando razões a posteriori para justificar um posicionamento a priori.

Quem já fz protesto pacífico na vida ou foi a jogos de futebol em clássicos aqui em São Paulo sabe como a polícia pode ser violenta desnecessariamente. Ela não está presente para proteger o cidadão, mas para prender e descer o cacete em bandido, o que é obviamente algo tosco. Mas como muita gente compartilha dessa visão de mundo violenta, agressiva e não respeitadora dos direitos humanos, se recusam a criticar a ação desproporcional da força policial.

update: saiu uma nota da pós, assinada por alguns estudantes (e outros formados) na pós da USP. Eu a subscrevi, ainda que discordasse pontualmente de uma passagem do texto. Segue abaixo….

No dia 08 de novembro de 2011, vários grupamentos da polícia militar realizaram uma incursão violenta na Universidade de São Paulo, atendendo ao pedido de reintegração de posse requisitado pela reitoria e deferido pela Justiça. Durante essa ação, a moradia estudantil (CRUSP) foi sitiada com o uso de gás lacrimogênio e um enorme aparato policial. Paralelamente, as tropas da polícia levaram a cabo a desocupação do prédio da reitoria, impedindo que a imprensa acompanhasse os momentos decisivos da operação. Por fim, 73 estudandes foram presos, colocados nos ônibus da polícia, e encaminhados para o 91º DP, onde permaneceram retidos nos veículos, em condições precárias, por várias horas.

Ao contrário do que tem sido propagandeado pela grande mídia, a crise da USP, que culminou com essa brutal ocupação militar, não tem relação direta com a defesa ou proibição do uso de drogas no campus. Na verdade, o que está em jogo é a incapacidade das autoritárias estruturas de poder da universidade de admitir conflitos e permitir a efetiva participação da comunidade acadêmica nas decisões fundamentais da instituição. Essas estruturas revelam a permanência na USP de dispositivos de poder forjados pela ditadura militar, entre os quais: a inexistência de eleições representativas para Reitor, a ingerência do Governo estadual nesse processo de escolha e a não-revogação do anacrônico regimento disciplinar de 1972.

 Valendo-se desta estrutura, o atual reitor, não por acaso laureado pela ditadura militar, João Grandino Rodas, nos diversos cargos que ocupou, tem adotado medidas violentas: processos administrativos contra estudantes e funcionários, revistas policiais infundadas e recorrentes nos corredores das unidades e centros acadêmicos, vigilância sobre participantes de manisfestações e intimidação generalizada.

Este problema não é um privilégio da USP. Tirando proveito do sentimento geral de insegurança, cuidadosamente manipulado, o Governo do Estado cerceia direitos civis fundamentais de toda sociedade. Para tanto, vale-se da polícia militar, ela própria uma instituição incompatível com o Estado Democrático de Direito, como instrumento de repressão a movimentos sociais, aos moradores da periferia, às ocupações de moradias, aos trabalhadores informais, entre outros.

Por tudo isso, nós, pesquisadores da Universidade de São Paulo, alunos de pós-graduação, mestres e doutores, repudiamos o fato de que a polícia militar ocupe, ou melhor, invada os espaços da política, na Universidade e na sociedade como um todo.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Mídia, Política e Economia e marcado , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Falando lateralmente da USP

  1. Com o seu espírito crítico comunicou de modo excelente, é isto mesmo o que penso. Abraços.

  2. Rafael disse:

    O que me causa mais resistência ao discurso do Movimento Estudantil é essa caracterização dos policiais como agentes da opressão, como os inimigos a serem combatidos. São caras que moram em bairros periféricos, cujos filhos não farão intercâmbio na Espanha (provavelmente não farão curso superior) e que vêm para a USP cumprir as ordens de gente que ganha muito mais do que eles. Quando vejo, como naquele primeiro dia de confusão, estudantes de classe média que se dizem críticos e progressistas colarem os lábios no ouvido de um policial de cabeça baixa e gritar MERCENÁRIO FILHO DA PUTA, não consigo deixar de pensar que, se essa narrativa pode ser dividida entre oprimidos e opressores, os estudantes estão do lado mais forte. Aquele moleque vai pegar o diploma dele e conseguir um emprego muito mais vantajoso do que o de seu “opressor”.

    Aliás, não é difícil identificar no discurso dos estudantes, particularmente na FFLCH, um tom discriminatório contra a simplicidade e falta de cultivação dos policiais.Dizem que a PM não está preparada para lidar com a população universitária, a guarda atuante no campus mereceria um treinamento específico por parte da “comunidade”, mas parecem estar satisfeitos com o preparo da PM para lidar com o resto da população. Eu ainda não ouvi uma resposta convincente às seguintes perguntas: como a ação de policiais “preparados” teria diferido na abordagem daqueles alunos que estavam fumando um baseado? E na reintegração de posse (a reitoria me pareceu generosa o bastante na extensão de garantias e de prazos para a saída pacíficada dos estudantes)? Ainda não entendi qual é o plano proposto pelo ME para que a PM (ou a guarda universitária, que seja) seja boa o suficiente para os alunos de quem eles vão cuidar.

    Por fim, na nota dos alunos de pós, o que quer dizer “o atual reitor, não por acaso laureado pela ditadura militar”? Não conheço tal homenagem, e sinceramente espero que eles não estejam se referindo à sua titulação acadêmica. Você sabe me dizer?

    Abraço

  3. Por partes:
    1. Não sei sobre a homenagem da ditadura…
    2. Sobre a PM. Concordo com você que eles são vítimas também. Mas também, não é só preconceito não. No meu cas opelo menos, minha raiva da PM é solidariedade com os oprimidos pelo abuso do poder policial nas periferias ou em protestos sociais pacíficos dos quais eu particpei e pude observar a atuação da polícia. Eu não consigo deixar de esquecer um episódio que aconteceu no dia da inauguração da ponte estaiada, em frente à globo. Estávamos lá um grupo para protestar e foi tudo tranquilo. Ao final, o evento da prefeitura já tinha acabado e estávamos num canto. Um rapaz saiu com a namorada por canto. Era perto da favelaque ficava por ali. Um policial viu os dois e abordou eles, dizendo que o cara tava tentando estuprar ela. Ela falou que ele era namorado dela, mas eles não acreditaram. Desnecessário dizer, a esa altura,que ela era branca e ele negro. Acontece que ele tava com uma camisa da USP e, tentando não ser preso, disse que estudava na USP. Ao que eles retrucacaram algo como: um tipo como você não estuda na USP. Nós percebemos que havia algo errado, chegamos lá e ele viu que tinha cagado. Aí, naturalmente, escondeu o nome dele que identificava ele, para que não pudéssemos denunciar o abuso policial. Enfim, eu posso contar inúmeros exemplos similares. E sempre que lembro não consigo deixar de ficar puto com esses policiais.

    3. Que os estudantes não tenham uma receita pronta sobre como deve ser a atuação da polícia não significa muito. Cabem aos especialistas desenhar uma polícia que proteja o cidadão, dando o treinamento necessário para isso. Pra mim é claro que uma coisa é a lógica de pegar bandido, e outra é a lógica de proteger o cidadão. Basta ver, por exemplo, Tropa de Elite.

    4. Você ficou sabendo sobre o que a polícia fez com os moradores do CRUSP que não estavam participando da ocupação da reitoria? Como mulheres grávidas e crianças repiraram gás lacrimogêneo e acordaram pela fumaça e gás enquanto dormiam? Isso é ação proporcional?

  4. Rafael disse:

    Li os relatos do Crusp e conheço gente que mora lá. Talvez por más experiências com o ME, ou talvez por falha de caráter mesmo (vai saber), me vejo obrigado a desconfiar das narrativas que partem de quem já era contra a atuação da PM — afinal, os testemunhos não estão aí apenas para registrar os fatos, mas também para fazer avançar uma agenda. Essas acusações de ataques direcionados a crianças e grávidas me soam como tentativas bastantes exageradas de reforçar a imagem da brutalidade da polícia; sendo verdadeiras, conte comigo para condená-las. Os moradores do Crusp que são favoráveis à presença da PM no campus (ou à ação do Choque na reitoria) estão contando a mesma história?

  5. Não temos desacordo então. A diferença é que você desconfia mais dos relatos contra a polícia, eu desconfio mais dos relatos a favor da polícia… Como a gente não tava lá pra ver nem vai ter uma fonte não interessada pra relatar os fatos, já era… Vai ficar nisso mesmo…

    abçs
    M

  6. Rafael disse:

    Não sei se você recebeu isto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=LSwrqEiVOv4

    “Eu sou uma mulher e estou sendo violentada”. É a esse tipo de coisa que me refiro quando falo dos relatos exagerados, difícil levar a sério.

  7. Vi o vídeo. O que eu tiro do vídeo é efetivamente a Polícia impediu o cara de se movimentar e rolou gás lacrimogêneo no CRUSP…

    Lamentável a Polícia e o Rodas. Que durante o evento a mulher, p da vida,use uma palavra que voicÊ pode entender como estupro é o mínimo. Até porque, violentada não significa necessariamente apenas estupro… Enfim, não consigo ver o exagero que vocÊ viu. Pra mim só reforça meu ponto hehehe

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