Red Plenty

Terminei de ler o livro Red Plenty, que tinha comentado rapidamente aqui. Eu gostei bastante to livro, embora o tema do livro naturalmente se adeque aos meus gostos (um livro sobre a União Soviética e a tentativa de economistas matemáticos resolverem o problema do planejamento; fez economia? check; é filiado a um partido socialista? check; conhece o debate do cálculo socialista sobre a possibilidade planificação? check; gosta de literatura? check). Isso não significa, obviamente, que todos os leitores do Blog venham a gostar do livro. Além disso, o livro está em inglês. E embora o inglês não seja lá tão difícil, teve partes em que entendi pouco do que estava escrito. Eu acho que releria o livro, numa tradução para o português.

De todo modo, para aqueles interessados no livro, como posso resumir o livro? Eu diria que é um livro sobre a vida na União Soviética, na transição que aparentemente ocorreu entre uma fase em que ainda se acreditava ser possível redimir o passado pelo futuro (por meio da abundância material a ser trazida pela planificação) e o cinismo de apenas conservar as coisas como eram, mas sem sonhos utópicos de qualquer ordem.

Para vocês entenderem um pouco do que se trata, creio que a já bastante citada parte final do primeiro capítulo coloca esse sonho:

Seen from that future time, when every commodity the human mind could imagine would flow from the industrial horn of plenty in dizzy abundance, this would seem a scanty, shoddy, cramped moment indeed, choked with shadows, redeemed only by what it caused to be created. Seen from plenty, now would be hard to imagine. It would seem not quite real, an absurd time when, for no apparent reason, human beings went without things easily within the power of humanity to supply, and lives did not flower as it was obvious they could. Now would look like only a faint, dirty, unconvincing edition of the real world, which had not yet been born. And he could hasten the hour, he thought, intoxicated. He gazed up the tram, and saw everything and everybody in it touched by the transformation to come, rippling into new and more generous forms, the number 34 rattlebox to Krestovsky Island becoming a sleek silent ellipse filled with golden light, the women’s clothes all turning to quilted silk, the military uniforms melting into tailored grey and silver: and faces, faces the length of the car, relaxing, losing the worry lines and the hungry looks and all the assorted toothmarks of necessity. He could help to do that. He could help to make it happen, three extra percent at a time, though he already understood that it would take a huge quantity of work to compose the necessary dynamic models. It might be a lifetime’s work. But he could do it. He could tune up the whole Soviet orchestra, if they’d let him.

His left foot dripped. He really must find a way to get new shoes.

Esta passagem coloca claramente a ideia de utilizar a programação linear (“dynamic models”) para resolver o problema da coordenação de planos individuais, e que resultaria num crescimento econômico contínuo de 3% (“three extra percent at a time”), que por sua vez traria a abundância (“plenty”).

Como se sabe, a URSS experimentou estagnação econômica e a abundância nunca chegou. Ao final do livro (SPOILER), lemos:

Three thousand kilometres east it is already night, but the same wind is blowing, stirring the dark branches of the pines around the upstairs window where Leonid Vitalevich is sitting by himself, optimising the manufacture of steel tubes. Five hundred producers. Sixty thousand consumers. Eight hundred thousand allocation orders to be issued per year. But it would all work out if he could persuade them to measure the output in the correct units. The hard light of creation burns within the fallible flesh; outshines it, outshines the disappointing world, the world of accident and tyranny and unreason; brighter and brighter, glaring stronger and stronger till the short man with square spectacles can no longer be seen, only the blue-white radiance that fills the room. And when the light fades the flesh is gone, the room is empty. Years pass. The Soviet Union falls. The dance of commodities resumes. And the wind in the trees of Akademgorodok says: can it be otherwise? Can it be, can it be, can it ever be otherwise?

Eis o que disse Henry no The Crooked Timber,

Could linear programming – even if it had worked – have reversed the transformations that made human skin into metal, and metal into human skin, or was it just its own dehumanizing alchemy? Wasn’t the whole thing faintly ridiculous from the beginning? Leonid Vitalevich’s shoes let the rain in, and always were going to. The world is obdurate; the idea is too good for it. Which is, of course, another way of saying that the idea wasn’t ever as good as we thought it was going to be.

And yet, the wind still whispers: can it be otherwise?

A questão, é claro, não é se a planificação econômica poderia ter dado certo. Continuaríamos presos na alienação e fetichismo da mercadoria mesmo se ela tivesse funcionado. Mas as árvores sussuram: pode ser diferente?

Porque, no fim das contas, um dos componentes cruciais, no meu entendimento, da linha argumentativa à la Hayek, é a de que é necessário desistir de pensar que as coisas poderiam ser diferentes. Em outras palavras, e levando no limite meu argumento, tudo se passa como se o argumento conservador colocasse a necessidade de se aceitar o que em 1984 é colocado explicitamente: não pode ser diferente. Não há futuro que te vindicará. Ou ainda, aquilo que Debord chamou de presente perpétuo.

Então, para mim, e pra resumir a coisa, o livro não é, a despeito do que eu disse no começo, sobre idéias econômicas matemáticas. É sobre viver numa sociedade em que se nutre a esperança de que as coisas possam ser diferentes e o que decorre quando se descobre que não pode ser diferente. E no entanto, apesar da descoberta, não há como ficar com a dúvida no ar: mas nós descobrimos mesmo que não poderia ser diferente? Como é que a gente tem certeza de que descobrimos?

Eu creio que a vida é, em última instância, permeada constantemente por essa dúvida. Será que fiz a escolha certa? Poderia ser diferente? E essa é uma pergunta que não admite resposta definitiva. A dúvida sempre permanecerá…

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em literatura, orquídeas selvagens, poesia, Política e Economia e marcado , , , , . Guardar link permanente.

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