Orquídeas Selvagens

Há uma categoria aqui do blog que é “orquídeas selvagens”. Eu já falei aqui no blog que a referência às orquídeas selvagens vem do Richard Rorty.

O trecho relevante do Rorty sobre as Orquídeas Selvagens é esse aqui:

Eu  cresci  sabendo  que  todas  as  pessoas  descentes  eram,  se  não  trotskistas, pelo  menos socialistas (…) eu  sabia  que  os  pobres  seriam  sempre  oprimidos  até  que  o  capitalismo fosse  superado (…) e,  assim,  aos  doze  anos,  eu sabia  que  o  objetivo  de  sermos humanos era passar a vida lutando contra a injustiça social

(…)

Eu estava meio ciente, entretanto, que havia algo meio dúbio nesse esoterismo – este interese em flores socialmente inúteis. Eu tinha lido (no enorme tempo livre dado a um filho único nerd e esperto) pedaços de Marius the Epicurean [romance] e também pedaços de crítica marxista da estética de Pater [autor de Marius the Epicurean]. Eu tinha medo que Trotsky (cuja Literatura e Revolução eu dei uma olhada) não aprovaria meu interesse em orquídeas.

(…)

Contigência, Ironia e Solidariedade [o livro de Rorty] argumenta que não há necessidade de entrelaçar (weave … together) o equivalente pessoal de Trotstky e o equivalente pessoal das minhas orquídeas. Ao contrário, devíamos tentar renunciar à tentação de ligar as responsabilidades morais de alguém a outras pessoas com a relação com qualquer coisa idiossincrática ou pessoa que alguém ame com todo o seu coração, alma e mente (ou, se você prefrir, as coisas ou pessoa com quem alguém fica obssecado). As duas vontades coincidirão para algumas pessoas – como coincidem  para esses cristãos sortudos para quem o amor de Deus e de outros seres humanos são inseparáveis, revolucionários que são movidos por nada mais que o pensamento de justiça social. Mas não precisam coincidir, e não devíamos nos esforçar demais para fazê-los coincidir.*

O problema, é claro, é que não dá para passar a vida inteira lutando contra a injustiça social. Mais especificamente, não dá para passar a vida inteira tentando conciliar o interesse público com o interese privado, as necessidades dos outros com as suas necessidades. E isso pela simples razão que nem sempre elas coincidem.

Ele percebeu essa contradição, justamente, quando passava as férias na casa do Avô e gastava seu tempo admirando e se preocupando com as orquídeas selvagens. Com tanta injustiça no mundo, cabia gastar o tempo admirando as orquídeas selvagens?

Eu aprendi que era impossível concilicar o público com o privado mais ou menos aos 21 anos. Foi quando li o Rorty. E também quando li uma biografia do Che Guevara. Creio, aliás, que comprei o livro do Rorty e a biografia do Che Guevara na mesma Bienal do livro. Na biografia do Che (do Jorge Castaneda), há uma passagem em que o Castaneda conta de como o Che instituiu o dia de trabalho para ajudar a Revolução. Na sua folga, o trabalhador cubano podia trabalhar de graça para ajudar a revolução. O problema, é claro, é que, após o entusiamo inicial, quem se recusava a trabalhar era confundido com um contra-revolucionário. Na minha cabeça, era claro que o problema é que os revolucionários estavam tentando fazer com que para todas as pessoas o privado coincidisse com o público. Mas às vezes a gente tem preguiça, e é importante que nós tenhamos espaço para ter preguiça. Ou pra admirar as orquídeas selvagens.

Na minha cabeça, aliás, uma das razões porque eu sempre me mantive relativamente distante da maioria dos meus amigos esquerdistas é pelo que sempre me pareceu a incapacidade deles de entenderem – ou apreciarem devidamente – a importância desse aspecto. O público não é mais importante do que o privado e não deve ser. Na minha cabeça, o totalitarismo de esquerda, estilo soviético, nasce dessa confusão, desse erro de Marx e de quase toda a esquerda.

Em resumo, quando eu estou pensando apenas nas minhas coisas, são as minhas orquídeas selvagens. Por isso posts categorizados como orquídeas selvagens. E hoje eu estou num mood de orquídeas selvagens.

ps.: É sempre difícil equilibrar entre pensar demais nas orquídeas selvagens e pensar nas obrigações que eu sinto que tenho com o mundo. Às vezes dá vontade de mandar o mundo a merda. Mas eu quase nunca mando.

* Parte da tradução eu copiei desse texto, e parte é tradução minha do original em inglês.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, orquídeas selvagens e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Orquídeas Selvagens

  1. Tomas Bueno disse:

    Que bom que existe o “quase” antes do “nunca mando”😉
    Gosto dos “Posts Orquídeas Selvagens”.

  2. Valeu. Tbm acho importante. Antes eu mandava mais o mundo à merda. Agora sou mais conservador (infelizmente).

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