Porque eu desisti da Dialética

attention conservative notice: texto longo (+ de 1.700 palavras) e pouco objetivo sobre um tópico obscuro de interesse apenas para acadêmicos esquerdistas e mais uns perdidos por aí.

Quem estudou economia ou ciências sociais, ou ainda quem participou de movimento estudantil em universidade pública certamente se deparou com a tal da dialética Marxista. Comigo não foi diferente e, além disso, por gostar e estudar bastante o Marx durante minha graduação eu me interessava em entender o que era essa tal de dialética.

Essa foi uma das razões, aliás, porque eu decidi ir estudar filosofia. Queria beber na fonte da dialética clássica, isto é, Hegel (eu sei que tem dialética no Aritóteles, Platão etc., mas para os marxistas a dialética clássica é a Hegeliana). Por sorte, encontrei na filosofia uns amigos que compartilharam meu desejo de estudar a dialética Hegeliana e nós formamos um grupo de estudo para ler Hegel, começando pela Fenomenologia do Espírito. E foi aí que eu finalmente encontrei a dialética.

Ocorre que a dialética é escorregadia e tem suas peculiaridades. Se você for olhar na wikipedia, dificilmente você entenderá o que significa a dialética. Verá a tradicional menção ao esquema tese, antítese e síntese, verá que ela se distingue do método de investigação que estebelece causa e efeito, e no final sairá entendendo menos do que quando entrou.

E é difícil dizer o que é afinal a dialética, pois creio que pela sua própria natureza, ela não se presta a definições e delimitações que esclareceriam seu significado. Mas para não ficar assim tão no escuro, vamos dar algunas exemplos de uso da dialética.

Uma frase dialética que eu gosto muito é a seguinte, dita pelo Ruy Fausto: “É da essência da essência aparecer”. A frase é bonita e é dialética, mas dita assim, fora de contexto, não esclarece nada. Então expliquemos.

Como se sabe, há uma distinção clássica na filosofia entre essência e fenômeno, ou essência e aparência. Nós podemos dizer que o Manoel (isto é, eu) tem 84 kg, cabelos cacheados e grandes, pele parda (?) etc. Mas obviamente eu posso mudar, pois posso engordar, cortar o cabelo, pegar um bronze etc. em suma, essa seria a minha aparência, meu “eu” superficial, mas não minha essência. Minha essência seria dada, talvez, pela minha personalidade, caráter, atitudes, idéias, minha identidade enfim.

Pois bem, depois do Kant essa distinção se tornou um pouco problemática e o Marx então vai retomá-la no nível da sociedade. Se você analisar o capilismo apena na sua aparência, será enganado e cairá na ideologia. É preciso ir até a essência do capitalismo para não cair em ideologias. Assim, na esfera da circulação, isto é, no nível das trocas, tudo se passa como se o capitalismo fosse o reino da liberdade e igualdade. Afinal, quando você vai comprar seu gol zero quilômetro, o comprador e o vendedor são iguais, livres, que desejam trocar o que possuem (o comprador, seu dinheiro, o vendedor, sua mercadoria) entre si.

Ocorre, diz Marx, que se você for para a esfera da produção, numa fábrica, verificará uma plaquinha na sala onde se decidem as coisas verdadeiramente importantes: no entrance, authorized personal only. O trabalhador se encontra subordinado ao capitalista no processo produtivo e é o capitalista quem define como, quando e onde se dará o processo produtivo, cabendo ao trabalhador se sujeitar a esse processo sem liberdade de negociação nem igualdade de poderes para tomada de decisão. Ou seja, na produção o que temos é desiguldade e ausência de liberdade.

Portanto, análises supeficiais, concentradas na aparência, produziriam ideologia. Análises que vão à essência produzirão a verdade. A aparência, aí, esconderia a verdade contida na essência.

Tudo muito bom, se não fosse por uma coisa. Como é que a gente sabe que a esfera da produção não é uma segunda aparência, e que a essência verdadeira, ou a essência essencial não está em outro lugar? Ou ainda, quem garante que a troca não é a essência e a produção a aparência? Questões legítimas, claro, mas que muitos marxistas não ousam se fazer porque o que (supostamente) disse o Marx não pode ser contestado. Mas todas essas questões, no fim das contas, remetem a uma só, que é a seguinte: como é que a gente sabe que a essência é a essência e a aparência é a aparência? Onde o que nos aparece é aparência e onde o que nos aparece é essência (sim, porque se enxergamos a essência é porque a essência, de algum modo, tem de aparecer). Daí a frase dialética segundo a qual “é da essência da essência aparecer”. Ocorre que se é da essência da essência aparecer, então a distinção simples entre circulação como aparência e produção como essência é errada, pois tem de haver algo da essência na aparição, ou seja, tem de haver algo de verdadeiro na esfera da circulação. Do mesmo modo, e aqui sou eu quem digo, me parece natural que algo da essência seja mera aparência. Tudo isso para indicar, no fim das contas, que não é tão simples falar que a análise da aparência é mera ideologia, pois a ideologia tem aí seu momento de verdade. Daí porque, também, aquela frase dialética segundo a qual “a verdade é um momento do que é falso”.

Mas eu dava esses exmplos para ilustrar a dialética em ação. Acredito que consegui mostrar um pouco da dialética, mas não esclarecer exatamente em que consiste a dialética. Certamente tem de haver, em algum momento, um sentimento de que a dialética carrega em sia a contradição. É por exemplo o que fica patente em fórmulas como “a verdade é um momento do que é falso”, ou “é da essência da essência aparecer”. Mas é uma contradição fraca, no sentido de que não é extamente uma contradição lógica de se afirmar, ao mesmo tempo, A e não-A, que, por exemplo, uma coisa é branca e não-branca ao mesmo tempo.

Mas se a dialética nos faz pensar em contradição, mas apenas aparentemente (digamos assim), não seria mais fácil simplesmente colocar tudo em termos tradicionais. Por exemplo, dizer que há um fenômeno microscópioc (a produção) e um macroscópico (troca), e que eles se retoralimentam, ainda que em níveis diferentes?

Esse tipo de abordagem, ainda que mais próximo da dialética, não seria exatamente dialético porque a dialética assume ou pressupõe que o objeto é algo obscuro e que toda tentatativa de clarificar o objeto vai, em algum momento, falhar em apreendê-lo, irá falseá-lo. Daí porque nem tudo pode ser posto com clareza e colocar nos termos do parágrafo acima é justamente uma tentativa de colocar com clareza e definições relações que são, por si mesmas, obscuras.

Eu sei que esse discurso é em si mesmo pouco claro, então vou me esforçar para clarificá-lo (ainda que isso seja problemático. volto a isso depois) um pouco. Um exemplo que eu gosto muito é o seguinte. Suponhamos que eu seja uma pessoa humilde (não é lá muito verdade, mas vamos assumir isso). Como eu posso anunciar num discurso a minha humildade. Toda tentativa de explicitar minha humildade redundará em fracasso, pois ao anunciar que eu sou humilde eu deixarei de ser humilde. Em linguagem dialética, a posição (no sentido de explicitar) da minha humildade se interverte (inverte?) no seu oposto, isto é, na arrogância ou pretensão. Para eu falar da minha humildade eu preciso de um discurso que apenas arrodeie a humildade, que deixe obscura essa minha característica. Eu preciso dizer, por exemplo, que é embora a humildade não apareça, quando as pessoas noatare minha humildade ela deve ter aparecido. Ou seja, a humildade precisa aparecer e não aparecer ao mesmo tempo para ser humildade. Note que lá em cima eu não precisei recorrer a nenhuma formulação que apelasse para uma noção de contradição, e agora eu formulei a humildade em termos explicitamente contraditórios. Esta última formulação é proposital, para mostrar como a linguagem dialética tende a ser expressa nesses termos. Mas é preciso que fique claro que, reformulando a frase, não há efetivamente nenhuma violação da lógica formal e do princípio da não-contradição.

Se eu consegui ser minimamente claro até aqui, nós entendemos que a dialética é um discurso que reconhece que o seu objeto é obscuro e que, portanto, o próprio discurso dialético será obscuro, envolto no que parecem ser contradições e formulações complexas.

Ocorre que se isso é verdadeiro, nós temos dois riscos grandes com o discurso dialético. O primeiro é saber quando efetivamente um objeto é obscuro e portanto requer um discurso dialético, e quando um objeto não é obscuro e, nesse caso, o discurso dialético é inadequado (e adequado seria o discurso do entendimento). Até onde entendo, a própria dialética não pode dar essa resposta (os Marxistas vão discordar de mim) e não há nenhum meta-discurso capaz de dar essa resposta.

Em segundo lugar, embora a dialética seja um discurso da obscuridade, não quer dizer que todo discurso obscuro é dialético. Um discurso pode ser não-dialético e obscurso, confuso, o que é o pior dos mundos, pois não é adequado nem ao objeto da dialética nem ao objeto do entendimento. E finalmente chehamos à explicação de porque eu desisti da dialética.

Na própria filosofia eu descobri que sou uma pessoa que precisa de clareza. Eu não gosto quando as coisas não são deixadas claras. Lido mal com a ambiguidade e com o obscurso. Daí porque, para mim, o discurso dialético me é muito penoso. Exige muito esforço de minha parte e além disso eu nunca estou seguro se estou sendo dialético ou apenas confuso. Além disso, eu noto que é muito difícil distinguir nos outros quando ele está sendo dialético – e portanto a obscuridade é necessária – e quando ele está sendo apenas confuso. E, ao que me parece, um texto pode ser ao mesmo tempo dialético (em algumas partes) e confuso (em outras partes).

Então, eu concluí que esse é um estado de coisas muito difícil e que a obscuridade beneficia o charlatão que não fala nada com nada, mas aparece como sofisticado e complexo. Eu tenho prefirido, desde então, adotar a filosofia da clareza e um discurso o maisw claro possível, mesmo sabendo que às vezes eu cometerei um erro quando o meu objeto demandar um discurso dialético. Eu espero que a minha clareza permita ao menos identificar com clareza essa inadequação, e nos casos em que meu discurso for adequado, estarei indo no caminho certo. Em suma, assim eu acho que erro menos e sigo um caminho mais adequado ao meu espírito.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para Porque eu desisti da Dialética

  1. Vanessa disse:

    Olá ! Sou estudante do ensino médio . Vou apresentar um seminário sobre a “Dialética de Hegel”, e detalhe o trabalho escrito é em grupo, porém somente uma pessoa do grupo deve apresentar ! E eu sou essa pessoa:/
    Eu já dei uma olhada em vários sites , e vídeos no youtube. Por favor fala um pouco sobre a dialética Hegeliana , de uma forma mais simples possível , usando exemplos . Ficarei muito agradecida !🙂

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