A democracia nos protestos contra o aumento da tarifa

Eis o que diz Hélio Schwartzman na Folha:

Vou um pouco mais longe e afirmo que há algo de egoísta nos protestos, já que impingem a todos as reverberações de uma agenda que não é consensual.

Vamos começar então esclarecendo algo bem básico. A democracia é necessária justamente porque não existe agenda consensual. A democracia é uma forma de processar conflitos. Ao invés de decidirmos na porrada, a gente tenta convencer as pessoas de nossas causas e no limite o enfrentamento se dá contando quem tem mais apoiadores. Quem não quer viver numa sociedade onde há conflitos quer viver numa sociedade totalitária.

Em segundo lugar, a democracia é feita (de pessoas e) de instituições. Essas instituições podem facilitar ou dificultar a resolução dos conflitos. Quando as instituições falham, os conflitos se exacerbam e caem na violência. A violência da PM contra os manifestante em São Paulo é um sintoma dos problemas institucionais da nossa democracia em lidar com visões conflituais. Quando a passeata fecha uma rua, impedindo as pessoas de transitarem por aquele local, nós temos o conflito saindo das instituições e indo pras ruas. Cabe as essas mesmas instituições ter mecanismos para que esse conflito nas ruas seja processado de maneira pacífica.

Ainda no mesmo artigo, diz Hélio Schwartzman:

Se é líquido e certo que cidadãos podem protestar, também é fato que a propriedade, pública ou privada, precisa ser preservada

Alguém realmente acredita que a propriedade, pública e privada, é preservada no Brasil no dia a dia? Quantos furtos e assaltos acontecem numa cidade como São Paulo todos os dias? E na periferia, onde a violência é maior ainda? E o que falar da corrupção, que justamente não preserva o patrimônio público. Porque a polícia não é designada pra descer a porrada nos acusados de corrupção? Afinal, os manifestantes são apenas isso, acusados (suspeitos) de vandalismo. Tanto quanto os políticos e empresários mafiosos são acusados de corrupção. Que tal mandar a polícia descer a porrada nos donos das empresas de ônibus, suspeitos de corrupção, cartel, etc. etc. etc.?

Devemos concluir disso que é melhor então o liberou geral? Não, porque não queremos construir uma anarquia, mas aperfeiçoar nossa democracia. E o primeiro passo é reconhecer que o conflito que está aparecendo pra algumas pessoas já existe em muitos outro lugares e a resposta é atender as demandas. Aperfeiçoar nossas instituições. Reconhecer que temos problemas e pedir ajuda dos manifestante para resolver esses problemas, e não aliená-los com porrada policial.

Uma saída simples seria, por exemplo, submeter à consulta popular algumas opções. Quanto custaria adiar por mais um ano o aumento da tarifa? Algo em torno de R$ 400 milhões, que é o valor de subsídio dado ao estádio do meu Corinthians? O que a população prefere? Porque não submeter à consulta pública essa opção? Ou ainda, algo mais realista (porque agora Inês é morta, a Copa tá aí e o custo de não ter a Copa aqui em SP seria muito alto): o que é melhor, gastar os previstos R$ 4 bilhões* no túnel (apenas para carros) da Águas Espraiadas até a Imigrantes, ou  investir todo esse dinheiro pra melhoria da qualidade do transporte público?

Então, caro Shwartzman, da próxima vez que você objetar ao dispositivo constitucional que “permite a pequenas minorias impor grandes aborrecimentos à maioria”, lembre-se que isso é feito diuturnamente nesse país. E que essa manifestação é uma tentativa de parar com isso, ao contrário do que os coxinhas imaginam.

* por falar em preservação do patrimônio público, custo inicial estimado do túnel, em 2008: R$ 2 bilhões. Depois, distância encurtada quase pela metade, e aumento de mais R# 700 milhões no custo. Em 2011, iria custar R$ 3,7 bilhões. Quanto vai custar no final?

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para A democracia nos protestos contra o aumento da tarifa

  1. Eduardo disse:

    Stocks vs flows.

  2. Eu sempre penso nisso. As pessoas confundem fluxo com estoque. Ou não prestam atenção nisso. Mas nesse caso não entendi o que tem a ver.

  3. Eduardo disse:

    “Algo em torno de R$ 400 milhões, que é o valor de subsídio dado ao estádio do meu Corinthians?” O subsídio é anual?

  4. Ah… Não, não é anual. É pontual. Mas serveria para adiar por um ano o aumento. Certamente não resolveria o problema dos outros anos.

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