Meus centavos sobre a polêmica do fiu-fiu

Peguei a conversa no meio, então não sei bem como começou, mas aparentemente estão discutindo se fiu-fiu é assédio sobre as mulheres ou não. Fizeram até um fluxograma com os argumentos em favor da tese do assédio.

O que eu acho interessante nessa polêmica é que o xis da questão está em respeitar o espaço dos outros versus dar vazão a expressar o próprio desejo. Estava nos EUA e fui ao Happy Hour do programa de doutorado da NYU. Conversando com brasileiros, eles comentavam que a regra social lá é que há espaços próprios para dar em cima das mulheres – grosso modo, na balada. Ao contrário daqui do Brasil, onde toda hora é hora.

Ainda lá nos EUA, encontrei um amigo que passou uns tempos na Dinamarca. Segundo ele, se você atravessar fora da faixa de pedestre, é repreendido, pelo mau exemplo que dá às crianças. Conversamos também sobre ser legal (permitido) ou não beber na rua. Aparentemente, em NY é permitido.

E tudo isso me lembrou da primeira vez que fui para o exterior, e uma guia dizia que em Miami era proibido deixar a garagem da casa aberta mostrando as tranqueiras por muito tempo (ou algo assim, já não lembro direito). A lógica seria que as ruas ficariam mais feias.

Todos esses exemplos são expressões de regulação do conflito natural entre vontades particulares e imperativos universais. O que me lembra do Hobbes, que reforçava a importância das regras de etiqueta e bons modos (ou algo assim) como forma de evitar conflitos.

No Brasil, nossa cultura é de limitar ao máximo as restrições. Aqui tudo é permitido, e o que o não é, quase sempre se pode violar sem grandes consequências. Essa é a cultura do país, para o bem e para o mal. Dirigimos bêbados, bebemos na rua, atravessamos fora da faixa de pedestre, furamos fila, furamos o sinal vermelho etc. etc. Mas por outro lado somos mais livres para seguirmos nossos desejos. Temos dificuldade de seguir regras, mesmos as estipuladas por nós mesmos. Na minha turma, quase todos chegam atrasados. Os mais pontuais, que chegam antes de todo mundo, atrasam uns 15 minutos. Ninguém considera isso falta de respeito para com os outros. Aqui se atrasa até quando se pega carona.

“Você passa lá em casa às 8 e me dá carona?”

“Claro.”

O dono do carro chega às 8:15 e o caroneiro ainda atrasa.

Nesse contexto, e com o agravantes de que nós homens consideramos nossos desejos mais legítimos que os desejos femininos, como não vai haver fiu-fiu? É complicado. E nem digo com isso que seria desejável abolir o fiu-fiu. Mas é preciso reconhecer que há aí um conflitos de desejos e falta de respeito para com os outros. Mas tem mulher que gosta. E é moralismo. Pode ser. Mas e daí? Vontade moralista não pode ser usada como guia para regular conflitos? Ou, pra usar um argumento que eu gosto mais, demandar bons modos é demais?

Dou um penúltimo exemplo. Você é convidado para ser padrinho num casamento. Resolve não ir de terno e gravata. É falta de respeito com quem espera um comportamento tradicional seu? Ou é apenas a manifestação de sua individualidade, e o outro que se vire com o incômodo dele, sem querer impor a vontade dele sobre a sua individualidade?

Quando fui à Londres, fiquei sabendo que o prefeito queria proibir beijos em públicos. Creio que a racionalidade é a mesma da proibição ao fiu-fiu. Se pode incomodar outras pessoas, guarde a realização do desejo para espaços privados. Vários brasileiros homofóbicos que começam frases dizendo “não tenho preconceito, mas…” argumentam que nada têm contra homossexuais, mas que acham um absurdo vê-los se pegando em público. E o mau-exemplo pras criancinhas?

Enfim, não acho que haja solução fácil. O conflito existe e não creio que existe uma posição correta. Numa perspectiva filosófica, é o velho conflito entre universal e particular, tão bem tematizado por Hegel na Fenomenologia do Espírito. Numa perspectiva economicista, lembra o famoso teorema de Coase. Na ausência de custos de transações, uma barganha entre as duas partes pode resolver o problema. Mas como há custos de transação, eis uma justificativa para existirem firmas e Estado. E regulação. Em ambas as visões, não vejo saída fácil. Qualquer que seja a posição, porém, que não nos resumamos a fazer gracinhas, como se fosse óbvio e fácil de qual lado se deve ficar nessa importante e grandiosa polêmica do dia.

 

 

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Meus centavos sobre a polêmica do fiu-fiu

  1. Gabriel disse:

    Ótimo!

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