O crepúsculo dos Sábios? Parece que sim.

Pegue um jeito de pensar, alguns termos chave, misture tudo e produza um texto que não se dá ao trabalho de ir ao empírica verificar se o objeto sobre o qual ele fala corresponde à teoria. Eis um exemplo disso.

A Universidade, até os anos 60, formava “mestres da verdade, pois “capaz de compreender seu ofício na complexidade dos saberes e da história”, e, ainda, “O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações imediatamente materiais e do mercado”. Até que ponto isso não é parte uma ilusão retrospectiva? Para não violar a lei de Godwin, não citarei aqui as pesquisas do Nazismo. Mas citemos os cientistas pagos pela indústria de cigarro, nos anos 50 e 60; as pesquisas na Rand Corporation, nos laboratórios Bell, o uso e desenvolvimento da estatística Bayesiana na II Guerra mundial, ou mesmo pelas redes de televisão americana nos anos 60 e 70, apenas para citar o que me vem à cabeça. Se nos Brasil era diferente, é porque tanto a ciência era mais atrasada quanto o capitalismo ainda não se apropriava do conhecimento gerado nas Universidades.

O texto então me vem com essas:

A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção, constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do lucro.

Agora digam, tirem o jargão, e o que sobra? “Produtividade quantificada do conhecimento”? O que isso significa? E quantificar é ruim por si mesmo? E a pesquisa se torna obsoleta pela revolução técnica promovidas pelas inovações industriais voltadas para o lucro? Algum exemplo empírico que sustente essa afirmativa? Nenhum, claro. Porque não é necessário. Basta usar as palavras mágicas produção, lucro e quantificação. Ah, esqueci do pós-moderna.

Temos também a velha cantinela da crises das grandes narrativas. Mas será que ela sabe quanto o sabe se especializou nos últimos 100 anos? Como é muito difícil estabelecer uma grande narrativa? E no entanto ainda há tentativas. Vejam, por exemplo, o livro do Graeber, Debt: the first 5000 years (livro que eu não li), e os comentários em seminário que houve no Crooket timber. Por acaso o livro foi produzido fora da Universidade?

Há também a crítica à pressão para publicar. Ora, todos sabemos (do mundo acadêmico) que há pressão para publicar sim. Mas vjeam como são as coisas. Conversando com amigos de doutorado nos EUA e Inglaterra, onde a pressão para publicar é sem dúvida maiores, eles me relatam que, pelo menos nos programas de pós em que estudam, não é para eles publicarem artigos nos dois primeiros anos. Que se concentrem em estudar. Não é nada, não é nada, é melhor que aqui. Ou seja, há disfuncionalidades que nos são próprias e que não têm necessariamente relação com o mercado, pós-modernidade ou o que quer que seja. Ou melhor, podem ter, mas falta muita mediação aí.

Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria criou.

Ela sabe que cada vez mais, a internet ocupa lugar importante na formação da opinião das pessoas, especialmente dos mais jovens, não? E a pesquisa de opinião cria o consenso? Evidências? Ah, esqueci, não é necessário.

Em resumo, é um texto com generalizações, lugares-comum, que aplica um estilo argumentativo frankfurtiano para falar da Universidade. Mas sem se debruçar em colher informações para tentar entender se de fato a empiria corresponde à teoria.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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