Emenda à lei de Godwin

A lei de Godwin, como muitos sabem, diz que não se deve utilizar argumentações citando o Nazismo. Essa comparações seriam muletas retóricas para ganhar discussões, mas com argumentos vazios. Afinal, como ninguém ficará do lado do Nazismo, o comparado com o Nazismo fica numa situação difícil. Mas essa é uma arma fácil, que mais atrapalha que ajuda uma discussão. Assim, devemos evitar esse recurso. É o que diz a lei de Godwin.

A propósito dessa discussão das biografias não-autorizadas, tive a ideia de propor uma emenda à lei de Godwin, que é a seguinte: Não deverás dizer que o outro defenda a censura. Como no Brasil, com o histórico da ditadura, a censura é algo que ninguém vai se associar, é comum usarem o argumento de que se estão defendendo a censura. Então, por favor, vamos parar de falar que o outro é a favor da censura, e ficar em discussões mais produtivas. Por exemplo, que tal falar que a biografia não-autorizada acrescenta informações relevantes e permite conhecer melhor personagens da história do país? E que o trade-off é a perda da intimidade que os personagess têm com isso? Caetano aponta muito bem que há sim esse trade-off. E gritar simplesmente “censura” é interditar o debate. Não é algo muito legal.

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Ainda sobre a censura, é comum os que acusam o outro de censura citarem os EUA. Mas o curioso é que ninguém sabe ou pelo menos reflete ativamente sobre o fato de que a liberdade de expressão, resguardada pela famosa primeira emenda, diz respeito apenas à liberdade de expressão protegida contra o Estado. Não há proteção contra poderes privados (como o Capital) nesse quesito. Aliás, eu me pergunto quantos dos que gritam”censura!” são efetivamente a favor da liberdade de expressão de verdade, isto é, a favor de estender esse direito para o interior do ambiente de trabalho. Aposto minhas fichas que não muitos.

Eu diria inclusive que, se é pra deixar os defensores da liberdade de expressão na defensiva, bastaria algum dos ilustres atacados começar a questionar esse ideólogos liberais (digo ideólogos porque só são a favor da liberdade quando favorece o capital ou o trabalho deles, mas não quando favorece o trabalhador) sobre liberdade de discurso no interior do ambiente de trabalho. Por exemplo, eles são a favor da proteção estatal de um jornalista da folha contra a censura (da Folha, p.e., por meio de coerção com ameaças de demissão e contratos de non-disclosure?).

ps.: Sim, sou a favor da publicação de biografias não-autorizadas. Mas minhas defesas da liberdade não param na defesa contra o estado. É preciso proteger o trabalhador contra o Capital também.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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6 respostas para Emenda à lei de Godwin

  1. relances disse:

    Mas nos EUA não há lei nenhuma proibindo biografias, seja de quem for. A citação aos EUA se encaixa aí. E lá também existe uma jurisprudência consolidada para garantir a liberdade de expressão contra entes privados. Basta ver como lá citam e zombam de marcas com frequência enorme sem punição, e aqui nem mesmo citar o nome dos times de vôlei (todos de patrocinadores) a Globo faz, chamando o Finasa de “Osasco” e o Rexona-Ades de “Rio de Janeiro”.

  2. Justamente. Não há lei proibindo biografias e há uma lei (emenda a constituição) protegendo a liberdade de expressão. Só que essa proteção diz respeito apenas ao Estado. No interior de uma empresa, não há essa proteção. Isso tem sido tematizado bastante no The Crooked Timber, de onde tirei boa parte das minhas reflexões a respeito do tema.

  3. relances disse:

    “No interior de uma empresa”. É que o seu texto dá a entender que a liberdade só seria garantida contra o Estado em todas as circunstâncias, e sempre entes privados (pessoas ou empresas) estariam imunes. Não é o caso, especialmente se compararmos com a nossa questão atual.

  4. Pingback: Esquerda e Direita | Blog Pra falar de coisas

  5. Rafael disse:

    “Por exemplo, que tal falar que a biografia não-autorizada acrescenta informações relevantes e permite conhecer melhor personagens da história do país? E que o trade-off é a perda da intimidade que os personagess têm com isso?”

    Não acho que tenha trade-off entre perda de intimidade e disponibilidade informação. Na verdade, não entendo por que você (e os que defendem a restrição a biografias) considera que biografias violam a intimidade de biografados. As fontes de uma biografia são documentos públicos e depoimentos de pessoas próximas, que as fornecem de livre vontade. O biógrafo junta essas informações em torno de uma narrativa, mas são informações que já estão aí. Se alguma pessoa falar besteira, processa ela (e talvez o autor do livro). Eu consideraria que há violação de intimidade se o biógrafo se valesse de documentos protegidos ou de técnicas de espionagem, coisas ilegais. Se são informações ao alcance de um documento público ou de uma entrevista, não vejo muita diferença entre biografias e reportagens. Vamos também pedir autorização para fazer reportagens sobre alguém?

    Na verdade, nem acho que a polêmica atual seja por causa de perda de privacidade. A Paula Lavigne deixou claro que o negócio é dinheiro: “se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso”. Não tem problema expor a intiimdade, o problema é que eles não estão recebendo.

  6. Eu não sou contra biografia não-autorizada. Sou a favor. E expõe a intimidade sim. O fato de muitas vezes as pessoas falarem voluntariamente sobre isso, não quer dizer que a intimidade não foi exposta, ora. Se, por exemplo, alguém contar como eu faço sexo, esse alguém está expondo minha intimidade, quebrando minha confiança. Que elas forneçam essa informação de boa vontade não muda o fato.

    Agora, você tem razão que juntar as peças públicas das pessoas não é problema nenhum. Se alguém quiser pegar meus tuítes, posts do Blog, posts em sites etc. e contar uma história, não tenho do que reclamar. Agora, ficar noticiando fofoca? Dando uma de paparazi? Tem que ter proteção contra essas coisas sim. Isso nem costuma ser um problema em biografia, autorizada ou não, mas é um problema nesses sites de celebridades. Veja o vídeo do Pedro Cardoso tbm sobre o assunto. Concordo muito com ele.

    Sobre a posição dos outros, eu acho que há interesses diversos aí. Desde dinheiro até a questão da intimidade.

    Obrigado pelo comentário, de fato tinha um buraco na minha argumentação.

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