Esquerda e Direita

Um amigo perguntou o que diferencia esquerda de direita. E motivado pelo post anterior, sobre liberdades, quero me estender um pouco mais sobre o assunto.

As pessoas costumam citar o Bobbio na hora de definir esquerda e direita. Esquerda estaria mais preocupada com igualdade, e direita com liberdade. Eu acho terrível essa definição, especialmente por dar de bom grado à direita a defesa da liberdade, quando historicamente é a esquerda quem estava a favor da liberdade, contra as tiranias e o poder estabelecido.

De fato, eu diria o seguinte. A esquerda é a favor da liberdade para os indivíduos contra o Estado e contra o capital, e a direita é a favor da liberdade para o capital e para os indivíduos contra o Estado. Como resultado dessa ordem de preferência, a igualdade entra (para a esquerda) como política que ajuda os indivíduos a se protegerem contra a coerção privada do capital. Já a direita não vê problema na opressão do capital sobre o trabalhador, considerando apenas a liberdade do capital de oprimir o trabalhador como quiser. E, nesse sentido, a direita defende (mais do que a esquerda) a igualdade formal, isto é, a igualdade dos agentes na criação de contratos. Ou seja, a direita pode ser mais defensora da igualdade que a esquerda.

A visão da direita pode ser resumida, então, tal como Marx belamente descreveu em sua obra maior:

This sphere [of the market] that we are deserting, within whose boundaries the sale and purchase of labour-power goes on, is in fact a very Eden of the innate rights of man. There alone rule Freedom, Equality, Property and Bentham. Freedom, because both buyer and seller of a commodity, say of labour-power, are constrained only by their own free will. They contract as free agents, and the agreement they come to, is but the form in which they give legal expression to their common will. Equality, because each enters into relation with the other, as with a simple owner of commodities, and they exchange equivalent for equivalent. Property, because each disposes only of what is his own. And Bentham, because each looks only to himself. The only force that brings them together and puts them in relation with each other, is the selfishness, the gain and the private interests of each. Each looks to himself only, and no one troubles himself about the rest, and just because they do so, do they all, in accordance with the pre-established harmony of things, or under the auspices of an all-shrewd providence, work together to their mutual advantage, for the common weal and in the interest of all.

A crítica de esquerda a essa visão idílica é, obviamente, de que o trabalhador e o capitalista não entram numa relação de igualdade. Ao contrário, há uma desigualdade de fato de poder entre eles. E é preciso proteger o trabalhador contra essa desigualdade. Daí a necessidade de apoiar o direito de greve, a formação de sindicatos, e uma legislação trabalhista que puna o capitalista que não a respeite. Mais modernamente, propostas como renda universal básica caminham nessa direção. Ao invés de serem apenas uma proposta para que todos tenham um mínimo de renda pra equalizar um pouco as coisas, pode ser vista como uma tentativa de aumentar o poder dos indivíduos frente ao capital, na medida em que podem escolher mais livremente como querem viver. Quando aliás a direita critica o Bolsa Família por permitir que alguns sejam “vagabundos”, trata-se justamente de impedir que as pessoas tenham outras opções na vida que não se sujeitar a uma vida de opressão no trabalho.

Como bem assinalou Corey Robin:

So if liberty is the absence of coercion, as many libertarians claim, and if the capacity to act—say, by enjoying material conditions that would free one of the costs that quitting might entail—limits the reach of that coercion, is it not the case that freedom is augmented when people’s ability to act is enhanced?

Assim se percebe que a relação entre liberdade e igualdade, no interior da esquerda e da direita é algo mais complexo do que poderia parecer à primeira vista. O que falta colocar aí, creio, é a questão da liberdade e igualdade em temas não diretamente relacionados à questão de classe (trabalho e capital), como a opressão de gênero, liberdade e opressão religiosa, proteção do meio-ambiente (isto é, proteger a natureza da opressão humana, num sentido mais estrito. Embora seja possível também incluir os próprios seres humanos na natureza, tanto as gerações presentes e futuras, na medida em que a destruição ambiental hoje afeta as liberdades das gerações futuras e outros seres humanos do presente) entre outras temáticas.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em orquídeas selvagens, Política e Economia e marcado , , , . Guardar link permanente.

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