Socialismo e Capitalismo

Enquanto escrevia meu post sobre esquerda e direita, acabei encontrando uma afimação de Marx que achei interessante. No capítulo 12, livro I, d`O Capital, Marx escreve.

A mesma consciência burguesa que celebra a divisão do trabalho na manufatura, a anexação vitalícia do operário a uma operação parcial e sua completa subordinação ao capital, como uma organização do trabalho que aumenta a sua força produtiva – esta mesma consciência burguesa denuncia com igual vigor qualquer regulamentação e controle social consciente do processo social de produção como uma intervenção nos direitos invulneráveis de propriedade, na liberdade e no espaço irrestrito de ação da inventividade capitalista. É muito característico que os apologetas entusiastas do sistema fabril nada de pior saibam dizer contra qualquer organização universal do trabalho social senão que ela transformaria toda a sociedade numa fábrica.

Essa citação (retraduzida por mim em alguns pontos, a partir dessa tradução), me fez pensar que, contra Marx (de certo modo), os apologistas burgueses estavam certos. O controle social da economia resultou numa sociedade organizada como um fábrica despótica. Ao ver as coisas desse modo, percebe-se em primeiro lugar que sim o ambiente de trabalho sob o capitalismo é, essencialmente despótico. E que qualquer projeto de transformação que envolve o controle social da economia tem que cuidar muito para não se transformar num despotismo generalizado, isto é, numa sociedade autoritária e talvez até mesmo totalitária.

Do recuo do projeto socialista (ou de certo projeto socialista, pelo menos), não deve se seguir contudo uma adesão ao capitalismo. Pela razão mesma de que os apologistas burgueses estavam certos. O capitalismo é despótico e ampliar o espaço de atuação capitalista é ampliar o despotismo. Os defensores da liberdade contra a coerção e o autoritarismo deveriam lutar justamente para limitar com o capitalismo, se não acabar com ele. Digo que talvez acabar com ele porque, dado o imenso fracasso que foi o dito socialismo real, é de se temer (e com boas razões) quaisquer tentativas de acabar com o capitalismo. É melhor o capitalismo limitado que temos hoje (mais ou menos limitado, a depender da sociedade) do que o socialismo real ilimitado de outrora.

 

é dizer a um tempo que os apologistas do capitalismo estavam certos, no sentido de que o Stalinismo foi a transformação da sociedade num grande sistema fabril, e portanto, altamente despótico. E a consequência disso é que o sistema capitalista é em si despótico, e quanto mais sua esfera de ação é ampliado, mais despótico a sociedade se torna. A grande lição socialista seriam, portanto, duas (ou pelo menos duas). É preciso, no mínimo, controlar e limitar o espaço do capital se queremos uma sociedade não despótica. No limite, é preciso extinguir o capital. Mas isso não é condição suficiente. É preciso também cuidar para que o que quer que venha a substituir o capital não seja igualmente despótico, ou até mais, na medida em que mais geral que o próprio capital (como foi o caso do Stalinismo).

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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4 respostas para Socialismo e Capitalismo

  1. brandizzi disse:

    Olá, Manoel.

    Entendi e concordo com seu texto, exceto que a ideia de extinguir o Capital… não a acho errada: acho-a inconcebível.

    Enfim, sendo o Capital o detentor de meio de produção, não há como bani-lo sem banir a própria produção. Se toma-se o capital do burguês através da ditadura do proletariado, temos ainda Capital, mas agora na mão de quem também tem o poder coercivo do Estado. Olhando para trás, não é surpresa que tenha dado errado, né? Se dá-se o capital ao proletário, por exemplo ao distribuir ações, os interesses do indivíduo como assalariado e como capitalista vão ser diferentes, e ele trabalhará com ambos de maneira diferente. O resultado é que haverá pouca diferença entre o que faria o capitalista burguês e o que faz o capitalista proletário. Como disse aquele excelente texto sobre Marx:

    Marx talked about people, indeed classes, as being divided into workers and owners of the means of production, and he made some allowance for the fact that we are ‘bearers’ of these roles, different aspects of which might be in play at different times, with the result that a proletarian may find himself competing against other proletarians even though their class interests are aligned. The fact is that in the modern world our selves are far more fragmented and contradictory than that. Many workers have pensions invested in companies whose route to profit lies in cutting to a minimum the number of workers they employ; one of the things that led to the credit crunch was pension funds’ search for higher stable returns to pay the pension liabilities of future generations of retiring workers, so that in very many cases we had a situation in which people lost their jobs because of losses incurred in the attempt to provide future security for the same workers. Most of us are wage slaves, beneficiaries of the welfare state, funders of that state, at the same time as being current or future pensioners who, in that capacity if in no other, are textbook bourgeois owners of the means of production.

    Por isso não vejo como sequer pensar em extinguir o Capital, a não ser que (a) apliquemos uma estratégia de Khmer Vermelho de destruir TUDO ou (b) digamos que “Capital” é só quando o capital está na mão de uma classe burguesa, o que não ajuda muito porque muitas das questões ainda prevalecem. Podem ser pioradas – como quando o Capital é o Estado – ou amenizadas – como quando o Capital é o proletário – mas não sanadas apenas por desfazer uma classe

    Que diz?

  2. Boa pergunta. De início, tenho de concordar pelo menos que, se não é exatamente inconcebível extinguir o capital, é algo muito difícil de conceber. De todo modo, estou usando o termo Capital, não no sentido que os economistas usam (aliás, eles usam em mais de um sentido. às vezes são as máquinas, prédios etc., às vezes são os recursos monetários), mas num sentido que Marx usa: o Capital como um processo de acumulação, uma guia que procura sujeitar a produção ao propósito do lucro, da valorização do valor.
    Mas como seria isso, de acabar com o Capital? Eu não tenho a mínima ideia, não sei se é possível, e não sei mesmo nem se é desejável. Eu só não quero riscar do horizonte completamente essa possibilidade. Quero deixar aberta essa possibilidade, mas sem me comprometer muito com ela. Na prática, deixemos isso de lado enquanto não tivermos nenhuma boa ideia, e caminhemos no sentido de limitar a força do Capital. Então, acho que estou de acordo com você.

  3. João Alexandre Peschanski disse:

    Oi, Manoel, interessante sua colocação, mas:
    — o capitalismo industrial de fato teve momentos de regime fabril despótico, mas no geral os incentivos racionais foram para o desenvolvimento de regime fabris em que o trabalho e sua intensificação fossem consentidos. Analisando o capitalismo emergente, Marx estava correto em dizer que o despotismo interno prevalecia, mas logo mudou o regime interno. Para fazer com que os trabalhadores trabalhassem “ao máximo” foram criados ‘jogos de produção’, em que soldo era em parte dependente de empenho e desempenho (cf. Michael Burawoy, Manufacturing Consent). Ou seja, nem internamente o despotismo de fato prevaleceu — por mais que a ameaça despótica, esta sim, tenha prevalecido, como as pressões do desemprego para estimular o mais-trabalho, e haja evidentemente uma gradação nos regimes de produção (as maquilas são mais despóticas do que produções circulares, por exemplo)
    — a frase de Marx revela uma falha de ação coletiva dos capitalistas, que são capazes de desenvolver estratégias racionais para maximizar seus lucros, gerando mais-trabalho e mais-valor, mas que têm problemas para, nas micro e macrofundações, ter consciência do que está de fato no seu interesse. Os burgueses, na citação, percebem individualmente a intervenção estatal como uma intromissão despótica — o que indica que o Estado e os capitalistas individuais nem sempre têm os mesmos interesses — , mas a intervenção estatal garante muitas vezes a capacidade de reprodução do capitalismo como sistema — o que indica que o Estado no capitalismo tem na sua agenda os interesses de classe dos capitalistas –, por mais que limite em certa medida e em certos casos a realização de lucro do capitalista individual (por mais que vá na linha de reprodução de seus interesses de classe).

    Abraço,

  4. É, de fato eu estou sendo um pouco simplista aqui no uso do termo despótico. O Marx vai distinguir entre subsunção formal e subsunção material do trabalho. Hoje em dia, teríamos aquilo que o Ruy Fausto (não Marx) chamou de subsunção intelectual (formal e material) do trabalho. Eu incluo essas subsunções sob o termo despótico, embora isso possa ser problemático. Mas pra não ficar só na abstração, vou dar um exemplo concreto do que quero dizer. A Maitê Proença foi no roda vida, e disse que não tem autorização da Globo pra fazer o que fez no Porta dos Fundos. E teve de pedir desculpas. O trabalho dela é um que depende claramente dela se envolver com o trabalho e empregar suas energias de certa forma voluntariamente, para gerar o máximo de valor para a Globo. Ou seja, a Globo não pode só fazer ela trabalhar no porrete, ela precisa que a própria Maitê queira fazer um bom trabalho. Agora, o fato mesmo da Maitê se sujeitar (que tem a ver com condição de quase monopólio da Globo, claro) à restrição da sua liberdade artística de atuar numa obra que pode realizar ela, de ser submetida a uma alienação tão forte, é pra mim exemplo desse despotismo que falei. Então, o despotismo continua existindo, ainda que sob outras formas. Ou, talvez devêssemos usar outro nome, que não despotismo. (eventualmente despotismo negado?) Mas aqui é só um post de blog, então não me preocupei muito com esses detalhes.

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