Sobre a violência

Há muita confusão no Brasil sobre como devemos encarar a violência, especialmente entre a esquerda e entre um grupo de pessoas que, se não são propriamente de esquerda num país como o Brasil*, certamente estariam mais próximos, digamos, dos democratas que dos republicanos nos EUA. Diante dos episódios recentes de violência política, a coisa se complica mais ainda. Esse texto é uma tentativa de organizar meus pensamentos e tentar clarear um pouco o meio-de-campo. Dada a complexidade da matéria, serei mais teórico do que gostaria. Mas não vejo outra maneira, se quisermos pensar a sério e encontrar soluções para os dilemas do presente

Num nível abstrato, ou mais geral, é preciso lembrar que nem toda violência é errada. Há, de partida, a contra-violência, que é plenamente justificada – mas é preciso ter cuidado para que uma violência qualquer não se aproprie indevidamente do discurso da contra-violência. Volto a isso. Além disso, a crítica à toda forma de violência, como por exemplo no pacifismo extremado, é tanto ingênua quanto pressupõe um homem que não existe e é muito difícil que venha a existir um dia. Como diz Fausto, o humanismo tem os seus limites. O humanismo, que só aceita uma política que tem o homem como fim e não aceita instrumentalizar esse homem para quaisquer fins, se constitui num problema numa sociedade inumana. De forma que defender o humanismo acaba sendo defender o anti-humanismo. Isso é evidente num pensamento dialético rigoroso, e que as pessoas sejam incapazes de perceber isso apenas mostra como o abandono da dialética empobrece a compreensão do discurso.

De fato, usualmente a discussão fica num dos pólos da dialética, mas sem dialética. Assim, uma parte da esquerda critica a violência do estado e da sociedade para com o indivíduo. E a direita vê nesse crítica a absolvição de tudo que o indivíduo faz.  Do mesmo modo, a direita, querendo responsabilizar o indivíduo, nega qualquer traço inumano na sociedade civil e no estado. Em termos dialéticos, falta distinguir o que está posto e o que está pressuposto.

Mas o diabo é que é preciso uma síntese desses discursos. Ora, a única solução possível é aceitar apenas aquela violência que leve à não-violência. No discurso Marxisa, em que o socialismo era um horizonte bem próximo, a violência revolucionária estava justificada pela não violência do socialismo. Mas dada a violência do socialismo, é óbvio que a violência revolucionária terá extremas dificuldades de ser justificada. De minha parte, eu acho que essa via está, em termos bem gerais, descartada. Que outras violências sobram? Houve algumas contra-violências no século XX claramente justificadas, como por exemplo na luta anti-colonialista, ou anti-apartheid, especialmente aquela contra a propriedade. Ou ainda contra regimes totalitários em várias partes do mundo, ou mesmo regimes autoritários. Mas tudo isso num nível mais geral. Importa agora o caso Brasileiro do presente.

O que é mais urgente, parece-me, é assimilar o diagnóstico de que o Brasil é uma sociedade extremamente violenta, e de que essa violência tem aumentado, especialmente nos meios urbanos. Esse o dado de partida, e que parece-me sugerir, de início, a ideia de que dificilmente, qualquer nova violência vá levar a um fim não-violento. Mas se esse é o caso deveríamos rejeitar todas as manifestações, inclusive políticas, que recorram à violência. O reconhecimento do caráter violento do Brasil implica de um lado em reconhecer que o Estado brasileiro é extremamente violento, e que seria urgente uma política de redução da violência estatal. Qualquer um não-comprometido com isso estará defendo um inumano. Mas é preciso ir além disso, especialmente na esquerda, já que a crítica à violência estatal é comum na esquerda. É preciso reconhecer que o indivíduo no Brasil é extremamente violento no interior da sociedade civil. E que não podemos contemporizar com quaisquer violências dos indivíduos. No Brasil se mata, estupra e agride outros seres humanos por muito pouca coisa. Tanto a vida, quanto a integridade física e os traumas psíquicos decorrentes da violência são banalizados no nosso país. De certo modo, a regra geral é ser violento e nós aceitamos a violência como algo natural.

Disso tudo, o que resulta? Eu diria que, no Brasil, os impulsos inumanos do homem estão dominantes, e a própria sociedade é inumana. É necessário portanto atuar em todas as frentes, simultaneamente, para reduzir o espaço do inumano. E não basta atuar em apenas um dos pólos, pois ocorrerá a famosa interversão dialética. É preciso atacar nas duas frentes.  Daí porque a maior parte do discurso tanto da esquerda quanto da direita são insuficientes e, de certo modo, se complementam na sua insuficiência.

Concretamente, no nível do discurso, seria necessário que fizéssemos afirmações como a seguinte: é errado manifestante bater no coronel da PM, como também é errada a violência policial. Ou ainda, “É um absurdo a PM matar e torturar o Amarildo, como também o é o tanto de violência a que são expostos os policiais”. Pode parecer prolixo, mas é preciso por, sempre, ambos os lados. Justamente porque é preciso entender que atacar apenas uma das pontas não é suficiente, e para evitar que, ao enfatizar apenas um dos pólos, se acredite que estamos apenas numa crítica de esquerda (tradicional) ou de direita (tradicional). Pôr ambos os lados tem a vantagem, também, de deixar claro que não há justificativa para a contra-violência, pois ela não irá levar a não-violência, pelo menos no contexto atual. Isso é importante, porque ideologicamente, há que se evitar que um grupo se aproprie do discurso da contra-violência para justificar uma violência qualquer que não pode ser justificada. Finalmente, é preciso evitar termos como arruaceiros e baderneiros, que colocam apenas um dos polos da violência, como se não houvesse o outro polo.

* Dada a influência do pensamento marxista, especialmente entre os setores mais educados da esquerda brasileira, um liberal-institucionalista é empurrado para a direita no Brasil.

ps.: Eu escrevi esse post antes desse texto do Diego (mas publiquei depois). Após um rápida leitura do texto dele, quero enfatizar algo do meu texto. Não se trata de querer acabar com a violência, mas de diminuí-la. E leiam o texto do Diego. Como o texto dele é longo, recomendo pelo menos a leitura do meio pra frente, que achei mais bacana).

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Sobre a violência

  1. Diego disse:

    Coincidência, né?

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