Elite, Salário Mínimo, liberalismo e debates para 2014

Eis três textos importantes, ao que me parece, para balizar alguns dos debates de 2014. Dois deles são do Mansueto, que sempre escreve bons textos, e outro do Bresser. O primeiro do Mansueto é sobre o salário mínimo, o segundo é sobre quem é a elite do Brasil, e o terceiro, do Bresser, é sobre a política econômica do governo.

O texto do salário mínimo é importante por resumir o que a ciência econômica tem a dizer sobre os efeitos do salário mínimo sobre a renda (resultados inconclusivos) e por acrescentar ao debate brasileiro a indexação de vários gastos governamentais (notadamente a previdência) ao salário mínimo. O PSDB faria um grande serviço ao país se forçasse um debate sobre o tema nas eleições. Mas é difícil, pois temem que seja anti-popular falar em desvincular o salário mínimo da previdência. E é especialmente importante esse tema porque em 2015 teremos o fim da regra atual de ajuste do salário mínimo.

O que faltou porém no texto do Mansueto, em minha modesta opinião, é a questão da luta de classes. Como vocês sabem, eu não acredito (ou melhor, não acho que nos leva muito longe) a teoria de luta de classes do velho Marx. Mas isso não significa que eu ignore que há um conflito de classes, entre o capital e o trabalho, e que [e dos conflitos mais importantes em nossa sociedade. Minha discordância com relação ao Marx está na centralidade política que ele dá à luta de classes. Mas de todo jeito, o Manuseto ignora no debate a importância do salário mínimo para reduzir as diferenças de poder entre trabalhadores e capitalistas. Quando o poder de barganha dos trabalhadores é mais forte, várias condições de trabalho não monetárias podem ser melhoradas. E o salário mínimo pode ajudar (ou não!) nesse ponto.

Já no texto sobre a elite brasileira, eu gostaria de um pouco mais de ciência política no texto. Infelizmente eu mesmo sei muito pouco sobre teoria de elites em ciência política. Mas, pelo que sei, se olharmos a teoria, por exemplo, do Pareto (até onde entendo), as elites seriam não aqueles que têm mais dinheiro, mas um grupo de pessoas que seriam superiores (intelectualmente, capacidade de governar etc.) a outras pessoas. Ou então, se quisermos pensar em algo mais recente, temos as teorias sobre grupos de interesse que conseguem extrais benefícios para si em detrimento da população em geral. Isso não significa que os funcionários públicos de Brasília que ganham R$ 13.500,00 ou mais não sejam um dos grupos de interesse. Eu até acho que são. Meu ponto é que se colocarmos um pouco de ciência política no assunto, veremos a crítica ao mal funcionamento da democracia, devido ao elitismo é um ponto importante.

Mansueto argumenta no texto que todos os governantes são parte da elite, e que portanto não podemos fazer críticas a esse ponto, pois não haverá quem governe. Novamente, e desculpe ficar insistindo no ponto da ciência política, mas há toda uma literatura de ciência política, inclusive com contribuições de economistas – como Acemoglu – sobre quando e como elites têm os incentivos corretos ou errados. Então a crítica é sim possível e reformas podem ser feitas nesse sentido.

Por fim, sobre o texto do Bresser. Eu acho irritante a despreocupação com a inflação que os desenvolvimentistas demonstram. Em segundo lugar, nesses debates, seria mais útil se nós fizéssemos algumas previsões sobre o efeito de política econômicas sobre a economia. Não dá para, em retrospecto, vir com os argumentos de que os efeitos são não lineares, ou que sem as políticas a situação teria sido muito pior. Não é que tais argumentos não possam ser corretos, mas eles devem ser formulados antes dos acontecimentos. Porque depois, fica parecendo desculpa. E isso vale para ambos os lados, tanto os mais liberais quanto os mais intervencionistas.

Esses são alguns dos debates que eu gostaria de ver em 2014. Além deles, gostaria de algo sobre direitos civis, política externa, meio-ambiente, e direitos políticos de minorias (indígenas, por exemplo).

 

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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