Tosses noturnas e catarro na mesa de jantar

A tosse não me deixa dormir durante a noite. Os pulmões estão congestionados pela gosma amarela, mas não suficientemente para evitar a tosse seca. Ao acordar, hesito entre sair para mais um dia enchendo a cara e ficar em casa, convalescendo. Escolhi a última opção.

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Diante do computador, assisti ao primeiro episódio da quarta temporada de Game of Thrones. Um belo episódio sobre recomeço. E afinal, não se trata sempre, de recomeçar?

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Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, que já no título do livro usa uma fórmula redutora típica dos integrados, caracterizaria os apocalípticos como aqueles críticos de tudo, admiradores de uma alta cultura perdida para sempre. Uma crítica que é, no fundo, conservadora, pois ao negar qualquer possibilidade de grandes mudanças, ajuda a conservar o estado de coisas. Restaria apenas aos apocalípticos a consolação de pertencerem aos poucos escolhidos a perceber a situação. A piscada de olho já não seria Kitsch. Eles saberiam se reconhecer, como num aperto de mão Maçom.  Alias, seria o Aécio Neves um apocalíptico?

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Hoje em dia, Reinaldo Azevedo é um integrado – afinal está a serviço da manutenção da ordem reinante -, mas que usa da fórmula apocalíptica. É meu grande amigo Rodrigo Ará quem, via Facebook, traz um adjetivo que poderia ser usado por Eco numa atualização do seu já antigo livro: é um débil petulante.

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Rodrigo Constantan, outro que escreve em Veja, aparentemente cunhou o termo “esquerda caviar”. Ele é tão patético em sua auto-promoção[1], que diferentemente do tio Rei, seria antes um patético petulante, ao invés de um débil petulante.

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Por outro lado, olha a potência do Funk e da Valeska Popozuda. Comparem uma coisa e outra. Quem, nos tempos de rede social, ousa dizer não sei? Aparece mais quem é mais opinoso e opina com mais ousadia e certezas.

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Mas vivemos um recomeço. Diz o Bob Black que, pré-golpe de 64, o Brasil vivia uma era de recomeços. E que a marcha pela família com Deus pela Liberdade não foi furto apenas de gente estúpida. Pelo contrário, a ameaça era real. Naquele tempo, as moças vindas do interior preferiam trabalhar na indústria a se sujeitarem a serem empregadas domésticas. E quem ousaria suportar a altivez das domésticas? Quem o filhinho delas iria estuprar na iniciação sexual deles? Tome marcha da família. O recomeço foi abortado.

Mas o governo Lula trouxe o recomeço. Novamente as domésticas não querem mais ser empregadas domésticas. E vem o péssimo gosto musical do Funk, a falta de educação à mesa requintada do avião, os rolezinhos nos shoppings. A Classe C vai ao shopping, poderia ser um filme. Tudo isso enquanto os 1% ganham mais dinheiro do que nunca. É o recomeço.

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O melhor do Brasil são os brasileiros. E o pior também, pelo visto. Eu não sou protagonista do recomeço, mas estou adorando participar dele, de longe, como membro da classe média que aprendeu nos bancos escolares a alta cultura (diferentemente dos verdadeiros pertencentes da alta cultura, que aprendem de berço). Ainda hoje eu luto para não cruzar os talheres no prato depois de comer nos restaurantes.

[1] Eu ia oferecer um link da carta aberta (sic) dele à Letícia Spiller, mas não quero dar pageviews para ele. Então colo aqui um trecho da carta.

Prezada Letícia,

Antes de mais nada, gostaria de dizer que admiro seu talento como atriz e também te considero muito bonita. (…)

Ontem, sua casa no Itanhangá foi assaltada por bandidos armados, que lhe fizeram de refém enquanto sua filha dormia logo ao lado. Lamento o que você passou, pois deve ser, sem dúvida, uma experiência traumática. Nossa casa é nosso castelo (…)

Como você talvez saiba, sou o autor do livro Esquerda Caviar, que fala exatamente de pessoas com seu perfil (aproveito para lhe oferecer um exemplar autografado, se assim desejar).

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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