De ladrões e Capitalismo

Algum tempo atrás, convencido do desastre que é andar de carro em São Paulo, e também da crise vindoura do aquecimento global, decidi-me a não ter mais carro. Eu queria compatibilizar meus desejos coletivos com minhas escolhas individuais. Em suma, fazer aquilo que o Rorty recomendou não fazer: fundir público com o privado, exigir do privado coerência com o público e vice-vera.

Bastava então eu vender meu carro. Levaria numa concessionária e conseguiria algum dinheiro. Mas eu sei que vender carro em concessionária é o pior negócio que se pode fazer. Melhor arranjar um comprador particular para meu carro. Mas a gente sabe que aí dá muito mais trabalho. É preciso negociar, garantir que não te darão um calote. Seria preciso talvez até fazer uma revisão no carro. Pois não quereria enganar alguém e vender gato por lebre. Mas a gente sabe que levar carro na oficina dá trabalho. Sem mecânico de confiança, podem te enrolar. Já pensou eu vender gato por lebre porque o mecânico me vendeu gato por lebre? Sem falar que também não quero ter prejuízo e gastar num carro velho e não recuperar o valor justo investido, pois afinal se trata de um mercado de limões, certo?

Eu pensei até em não vender o carro. Como vocês viriam acima, é algo que dá muito trabalho. Poderia ficar com o carro e só usá-lo em emergências ou casos excepcionais. Mas e ficar pagando IPVA e seguro? E, no fim das contas, eu acaba usando várias vezes, porque afinal é cômodo.

Eis que um ladrão veio e furtou meu carro. E resolveu meu problema. Não comprei outro – pois queria justamente me livrar do carro e, além disso, daria trabalho. Fim de papo. Às vezes um ladrão pode trabalhar contra o capitalismo, e não é porque desrespeita a propriedade privada. Aliás, a maior mentira que inventaram é dizer que no capitalismo a propriedade privada é sagrada*. Mas isso é assunto pra outro post.

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Meu smartphone, produzido com o suado trabalho semi-escravo da China estava com problemas. Nele não funcionava mais o wi-fi, só o 3g.  A bateria durava pouco, e ele ficava desligando sozinho com frequência. Travava bem na hora de um tuíte importante, quando alguém estava errado na internet. Eu queria comprar um celular novo, mas hesitava justamente pela mesma ideologia que me levou a não ter mais carro. Temos que reduzir o consumismo e não podemos ficar trocando de celular todo ano, ou a cada 2 anos. Mas meu desejo era comprar um celular novo. Só que tem que pesquisar, comparar modelos, achar o melhor preço. Enfim, acabava não trocando.

Veio um ladrão e furtou meu celular. Então comprei outro, novinho, mais moderno, no mesmo dia. Está faltando o chip, mas resolvo logo. Às vezes, um ladrão trabalha a favor do capitalismo, e não estou falando de desrespeitar a propriedade privada.

* Estou pensando aqui em duas coisas. Em primeiro lugar, como a corrupção, pilhagem, expropriação, guerras e o colonialismo foram importantes para o desenvolvimento histórico do capitalismo. Em segundo lugar, num modelo em que quanto mais as pessoas roubam, maior o incentivo a acumular. Basta que, quanto mais dinheiro você tenha, mais fácil seja roubar os outros sem ser punido. Eu não tenho dúvida que é possível construir algum modelo desse tipo, em que o equilíbrio é uma alocação eficiente no sentido de Pareto, como os economistas adoram. Mas a verdade é que eu não preciso apelar pra isso, pois o Ariel Rubinstein já fez algo parecido, criando um modelo formal mais ou menos sobre o assunto.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para De ladrões e Capitalismo

  1. Tomás Bueno disse:

    Engraçado ver você escrever sobre seu ex-carro. Esperei que você fosse confessar algo que não confessou. rs. Mas gosto do texto mesmo assim.

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