Tá chegando a hora… #vaiterCopa

Caetano Veloso disse uma vez que nossos pais fundadores talvez pudessem ser encontrados na música popular. Pode ser. Mas não duvidaria que nossos pais fundadores se encontrem mesmo é no futebol. Futebol que, diga-se de passagem, foi motivo de muita boa música produzida em solo nacional.

Eu, de minha parte, cresci lendo e ouvindo histórias de futebol. Muitas delas, da nossa seleção, como gostamos de chamar nosso time nacional. Todos os demais são times, só nós somos A Seleção.

Eu sempre gostei da história do Didi, nosso príncipe etíope. Sim, porque nosso futebol é uma dinastia, governada sempre por um rei, Pelé. Antes dos 5 minutos de jogo o Brasil tomou um gol da Suécia, na copa do mundo na Suécia. De imediato veio o fantasma do Maracanazzo – sim, porque nosso futebol também tem o sobrenatural, e temos muitos fantasmas a serem exorcizados. E foi então que Didi, nosso maior jogador (Pelé tinha então apenas 16 anos), pegou a bola no fundo do gol, colocou-a debaixo do braço, e calmamente andou em direção ao meio de campo, sem pressa alguma. Os demais jogadores desesperavam-se. “Estamos perdendo”, teria dito Zagallo a Didi. MAs Didi tinha nervos de aço, e fez o que precisava fazer: acalmar o time, porque a gente era muito melhor e na bola ganharíamos aquele jogo. Fizemos 5×2, na maior goleada de todos os tempos em uma final de Copa do Mundo, e o resto é história.

E foi nessa copa também que a Camisa 10 virou o símbolo do craque. Em nenhum outro esporte de massa, que eu saiba, existe um número que representa o melhor jogador do time. No futebol é a 10, e foi por causa do Brasil. Por acaso Pelé foi jogar com a dez, e depois do que ele fez, a dez ficou eternamente reservada para nosso craques. O Brasil sempre tem que ter um craque. Já foi Pelé, Rivelino, Zico, Garrincha, Romário, Ronaldo e agora Neymar. Falem o que quiser do Brasil, mas aqui a gente reverencia o craque. e Não se trata de individualismo, pois o futebol é essencialmente um esporte coletivo. Mas é um coletivo que não anula o individual.

Em 1962, o Brasil foi mais Brasil. Pelé, nosso craque, machucou-se. Amarildo entrou no lugar de Pelé e Garrincha jogou por ele mesmo e por Pelé. Garrincha, o Anjo das Pernas tortas, driblava sempre para o mesmo lado. E mesmo assim sempre enganava os adversários. Para Garrincha, todos os seus marcadores eram Joões, como era João o seu primeiro e maior marcador lá no campinho de areia em Pau Grande. E contamos ainda com a malandragem brasileira, que no futebol sempre foi arma nossa. Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, num jogo decisivo, fez uma falta dentro da área e, para enganar o juiz, deu dois passos para fora da área e ergueu os braços. O Juiz marcou apenas falta, o Brasil evitou o gol e conseguimos nos classificar.

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~Em 1982, contudo, o Brasil sofreria mais uma tragédia, agora a tragédia do Sarriá. Era o fim do jogo bonito e do futebol arte, que eram a marca da seleção desde tempos imemoriais. Os Índios já jogavam futebol arte com os cocos antes dos Portugueses chegarem aqui. E quando os negros aportaram ao Brasil, já driblavam os feitores com toda a ginga que caracterizaria o futebol brasileiro.

Depois da tragédia do Sarriá, vários fantasmas passaram a assolar o futebol brasileiro. Da ideia de que o futebol feito é que daria resultado, consagrado no time de 90 – sim porque aquele time não merece ser chamado de Seleção; até o Fantasma das eliminações nos pênaltis – na copa de 1986 e na Copa América de 1993. Foi a copa de 1994 que trouxe novamente o alívio de sermos a melhor seleção do mundo, com um jogo inesquecível contra a Holanda no caminho e o pênalti perdido pelo Bággio na final.

Talvez precisássemos daquela Copa para aprendermos a ser mais realistas, entender nossos limites, reconhecer nossos defeitos. Hegel talvez visse, ali, o reflexo da nossa nova realidade. Não é a toa que a era FHC seria marcada pelo pragmatismo da adesão à globalização, ao mercado e a rejeição dos 50 anos antes.

E chegamos a mais uma Copa do Mundo, agora no Brasil. Uma Copa do Mundo organizada pela corrupta FIFA, com atrasos, desorganizações, mudanças de última hora, e corrupção e dinheiro mal gasto. Sim, uma Copa do Mundo com todos esses problemas, e que sem sombra de dúvidas, problemas que merecem todo nosso repúdio. Mas não é apenas a Copa do Mundo da FIFA. É também a Copa do Mundo da FIFA. Pois é, principalmente, a Copa do Mundo do Futebol.

E no Futebol nós nos sentimos em casa. Dentro das quatro linhas, não há Seleção mais respeitada do que a nossa. Aqui não se torce como na Europa, por mais que queiram fazer isso.  Como cantam todas as torcidas

Não quero cadeira numerada,
Vou ficar na arquibancada
Prá sentir mais emoção

Por isso que, nessa Copa do Mundo de Futebol, eu não vou fazer a Copa do Mundo da FIFA. Mas tampouco vou me recusar a ver jogo, a torcer ou a vestir a camisa do Brasil. Pelo contrário, vou fazer a copa do meu jeito. Do jeito Brasileiro de ser. Respeitar nossa história e nossa tradição, nessa Copa do Mundo, é lembrar de nossa história, torcer pelo Brasil e vivenciar a Copa do jeito Brasileiro de ser. Com nossos fantasmas, nosso príncipes, nossas tragédias, nossa malandragem, nosso sangue frio (assim espero), e na arquibancada – isto é, nas ruas -, pra sentir mais emoção.

 

 

 

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, futebol, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Tá chegando a hora… #vaiterCopa

  1. Tomás Bueno disse:

    Bastava dizer: “o ser humano é contraditório”. Mas eu também aceito essa desculpa pra torcer ao invés de protestar. Rs.

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