Esteira

“Você é cheinho!” Aquela frase ressoava em sua cabeça. Não é que fosse uma grande coisa, um drama mexicano. Não, nada disso. Era outra coisa.

Sempre se imaginou como uma pessoa magra. Desde sua infância sempre foi magrinho, e aquela frase foi como uma revelação, um desvelamento de uma nova realidade para ele. Quando criança, seu irmão arengava com ele dizendo que se um vento forte batesse o levaria. Uma vez, andando na rua, quis chutar um papelão no chão. Mas sem perceber com a perna esquerda pisou no papelão, enquanto a perna direita tinha sido levantada para trás com todo gosto para o impulso de um chute que faria o papelão voar longe. Seria um triunfo da força do seu chute. Já até vislumbrava o papelão voando pelo ar, quase como uma pipa bem empinada. Mas como o pé esquerdo pisara no papelão, o efeito foi que ele tropeçou no papelão estático e caiu no chão. Ralou-se, cortou-se e chorou como o menino chorão que era. Seu irmão, mais velho, não perdoou e mangou dele: “o vento derrubou ele, o vento derrubou ele” repetia, e quanto mais o seu irmão repetia, mais ele chorava.

Quando era adolescente, tinha vergonha de ficar sem camisa por ser muito magrinho. Sempre foi magrinho e meio fraquinho. As feições atléticas e coordenação motora não eram o seu forte, sabia disso. Era um magrinho meio desajeitado e seria um magrinho desajeitado pelo resto da vida. Quando por acaso foi chamado para o time de pólo aquático da escola, é verdade que se surpreendeu com isso. Fazer parte do time? Ele? Mas logo foi designado para goleiro, pois não nadava rápido nem tinha muito fôlego. Como era magrinho e tinha os braços longos, o técnico viu ali uma boa chance dele ser goleiro. Aceitou de bom grado, pois assim participaria do time. Um dia fez um treinamento na piscina usando peso de um quilo amarrado na cintura. Era muito mais difícil nadar e dar pernada. Porém, quando tirou o peso, sentia-se muito mais leve e conseguia jogar muito melhor. Até vislumbrou treinar todos os dias com o peso, para que na hora do jogo, sem o peso, seu desempenho fosse melhor. Poderia até virar goleiro titular do time desse modo. Mas rapidamente desistiu da ideia. Refletindo a respeito, concluiu que faltou uma orientação de alguém para lhe dizer a importância do esforço, dedicação e disciplina para conseguir atingir aquele objetivo.

Sim, sempre fora magro e se via como magro. Não tinha nada contra pessoas mais gordas. Só tinha uma auto-identidade de magro. Mas depois daquela frase, questionou-se sobre isso. A verdade é que  havia conhecido há poucos anos a maior parte das pessoas com quem convivia. Elas nunca o conheceram magro. Para elas, o natural é que ele fosse cheinho. Não era apenas uma fase passageira. Já eram quase 10 anos dessa fase passageira!

Por isso tinha começado a correr na esteira todos os dias. Trinta minutos todos os dias pela manhã. Trinta dolorosos minutos em que ele só pensava em desistir. Mas lembrava da frase, e xingava mentalmente quem a havia dito. E aquilo lhe dava forças, e assim conseguia completar os trinta minutos correndo na esteira. Estava feliz com aquele esforço e disciplina. Se perguntava como ainda não tinham  inventado uma pílula do emagrecimento melhor que o xenical. Aquilo era penoso e demorado. Mas a dor disciplina, pensou. É pela dor e pelo trabalho que adquirimos fibra e disciplina para alcançarmos nosso objetivos. Sermos melhor. Estava aprendendo isso, sem sombra de dúvida. Dava até para fazer um ensaio sobre isso. Sim, um ensaio. Podia até, quem sabe, publicar na Piauí. Bastava colocar umas referências filosóficas no meio, talvez alguma coisa do Daniel Khaneman, florear aqui e ali, e pronto. Teria um artigo publicável na Piauí. Não seria um artigo de auto-ajuda do nível da Men’s Health ou VIP. Não, seria um artigo do nível da Piauí.

Secretamente ele se perguntava porque a Piauí ainda não tinha convidado ele para escrever lá de vez em quando. Será que ele tinha que se convidar? Como será que o Alejandro tinha conseguido escrever na Paiuí? Alejandro, brasileiro radicado em Buenos Aires. tinha que usar umas palavras como “radicado” no artigo dele para publicar na Piauí. É óbvio que nenhum artigo na VIP tem a palavra “radicado”. Até já via seu mini-currículo: recifense, radicado em São Paulo.

Diante de tantos pensamentos prazerosos deitado na cama, o sono veio. Ainda teve tempo de um último pensamento grandioso: “a corrida na esteira faz a pessoa dormir melhor. Mais um benefício. Vou incluir isso no meu ensaio. Será um puta ensaio”.

Acordou no dia seguinte animado para correr na esteira. Decidiu ouvir apenas uma música no seu computador antes de correr. Ficou ouvindo Adriana Calcanhoto cantar “assim sem você”, de Claudinho e Bochecha. Depois ouviu de novo, e de novo e de novo. A preguiça só aumentava. Lembrou-se da necessidade de disciplina e dedicação… E resolveu ouvir a música só mais uma vez. Não correu na esteira aquele dia. Nunca mais correu na esteira em sua vida. Tempos depois publicou um artigo na VIP. Sem a palavra “radicado” nele.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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