“Só muita torcida contra pode impedir uma pessoa racional de perceber como Dilma é favorita”

A Thaís Zara, uma colega dos tempos de faculdade (graduação), aparentemente escreveu um relatório, pela consultoria em que trabalha, em que faz algumas previsões sobre as eleições vindouras. Eu não li o relatório, então é difícil falar sobre o que não li, mas algumas passagens foram destacadas que me surpreendem um pouco. Eles dizem que

o cenário mais provável é a continuidade da mediocridade, do descompromisso com a lógica, do mau humor prepotente do poste que se transformou em porrete contra o senso comum.

Não me parece exatamente uma análise isenta. Falar de política ruim, equivocada, errada ou mesmo inconsistente acho ok. Mas que análise objetiva fala de “mau humor prepotente do poste que se transformou em porrete contra o senso comum”. Sério? Isso tem algum significado, além de mostrar uma raiva com a presidenta?

Mas o que me incomodou mesmo foi outro trecho destacado na reportagem. “Só muita torcida contra pode impedir uma pessoa racional de perceber como Dilma é favorita”. Será que eu não sou racional então? Ou talvez seja um problema de vocabulário apenas.

Novamente, não sei o que o relatório contém, mas acho que algumas perguntas são de ordem para falar dessas coisas. Em primeiro lugar, o que significa ser favorito? 60% de chance faz a Dilma Favorita? 70% de chance de vitória? 80% de chance? Talvez o relatório contenha esses números e o destaque foi dado apenas para o uso informal do termo favorito. Mas seria bom que a gente fosse um pouco mais rigoroso no uso de vocábulos, para definir melhor o que significa favorito. E seria bom também parar de acusar quem discorda dessas análises de irracional ou fazer torcida contra. Ora, nem torço contra a Dilma (minha inclinação atual é o nulo, mas acho que dificilmente posso ser qualificado como alguém que torce contra), nem pretendo aceitar que eles são racionais, e eu não.

Nas últimas eleições presidenciais americanas, houve um momento em que Nate Silver previu que Obama tinha 70% de chance de ganhar a eleição. E, no entanto, Andrew Gelman argumentou que, mesmo com esse nível de chance de vitória, a eleição era “too close to call“. Tanto quanto eu sei, nossos melhores modelos preditivos de eleições brasileiras estão, ainda, a anos luz da assertividade dos modelos americanos. Logo, nossas previsões devem conter muito mais incerteza que as previsões sobre eleições americanas, tudo o mais constante. E se com 70% de chance de ser eleito o Andrew Gelman ainda acha que ela seria too close to call, eu realmente quero saber o que significa ser favorito ou porque uma pessoal racional não acharia a Dilma favorita.

Eles dizem ainda sobre a eleição estadual em São Paulo que “[é] muito profunda a admiração do povo pelo seu governador discreto, muito enraizada a rejeição ao petismo para este quadro se alterar”. Eu confesso que gostaria de ler o relatório para saber quais são os dados e evidências empíricas que permitem um analista dizer que “é muito profunda a admiração do povo pelo seu governador discreto”. Fico imaginando uma pesquisa de opinião sendo feita: A sua admiração pelo governador de São Paulo é: Muito profunda, pouco profunda ou nada profunda? Deve ser uma revolução nos modos de fazer survey eleitoral. Eu nunca vi nenhum pergunta parecida que permitisse esse tipo de afirmação em análise de intenção de voto.

Novamente, se nós entendemos pouco sobre os determinantes do voto em nível presidencial, entendemos menos do nível estadual. Isso não quer dizer que não possamos fazer nossas análise, ter nossas opiniões nem fazer nossas apostas. Acho até natural achar que vai dar Alckmin. Mas contrastem esse tipo de afirmação com a análise do site Plano Político sobre as eleições estaduais. Nem digo que estão certos. Mas gostaria que quem faz análise política reconhecesse o caráter especulativo das análises e a incerteza que nós temos atualmente em nossas previsões. Algumas coisas parecem mais óbvias e são mais fáceis de se preverem, mas acho que podíamos prestar um pouquinho de atenção no que a ciência política tem a nos ensinar para termos um pouco mais de humildade em nossas previsões.

Eu, de minha parte, ainda acho as eleições de Dilma e Aclkmin too close to call. O que a ciência política tem nos ensinado, tanto no caso americano quanto em termos comparados é que, com tempo suficiente, o resultado eleitoral tende a convergir para os fundamentos.  Eu já falei sobre esse tema anteriormente, nas eleições presidenciais de 2010. Mas me parece que os fundamentos são ruins para a Dilma e também ruins para o Aclkmin*. Isso não quer dizer que acredito em determinismos econômicos. Mas é de se esperar que o mal desempenho em questões importantes como a economia e a água em SP tenham algum impacto no resultado eleitoral. Se serão suficientes para mudar os resultados, eu não sei. Ainda acho too close to call.

* eu tenho dúvidas, no caso do Brasil, qual o impacto do crescimento econômico medíocre mas com desemprego baixo.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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6 respostas para “Só muita torcida contra pode impedir uma pessoa racional de perceber como Dilma é favorita”

  1. Rafael disse:

    Eu fico impressionado de saber que há mercado para consumir (pagando caro) esses relatórios de consultorias que apareceram nas últimas semanas. Umas porcarias de textos, em forma e conteúdo. Eu nunca espero muito de análises de conjuntura, mas o nível dessas consultorias é muito baixo mesmo.

    Acho que no departamento tem um monte de gente capaz de vender coisas muito melhores nessa área, e pra mim é um mistério quão pouco espaço os cientistas políticos ocupam no mercado e no debate público.

  2. Quatro antos depois, venho aqui de novo me intrometer.

    Gostei das frases “o resultado eleitoral tende a convergir para os fundamentos” … “Mas é de se esperar que o mal desempenho em questões importantes como a economia e a água em SP tenham algum impacto no resultado eleitoral. Se serão suficientes para mudar os resultados, eu não sei. Ainda acho too close to call”.

    Ainda é cedo, e penso que o eleitorado é um grande lago que vive de pequenas e grandes ondas, algumas casuais outras sistemáticas. O resultado do encontro delas no dia da eleição confere o seu resultado. Estou usando aqui uma interpretação particular do pensamento de Gabriel de Tarde.

    Sem dúvida que a economia e a água faltando são ondas que vão bater insistentemente na cabeça do eleitor. Acho que podem promover um efeito arrasto em favor da Dilma e contra o Alckimin. Mas existe um cansaço, um ranço do Governo Dilma-Lula que o Aécio saberá explorá.

    Penso que se ele chegar no segundo turno, irá triturar a Dilma.

    Já o Scaff, será triturado pelo Alckimin no segundo turno.

    Aqui as variantes políticas serão mais importantes, como quando o Mario Covas liquidou o Maluf e venceu para o governo de São Paulo. Se vão ganhar, eu não sei.

  3. Rafael disse:

    PS: pq a tag “zumbi”?

  4. O Gelman criou essa tag no blog dele e copiei aqui. O ponto é um pouco o mistério que você falou no seu comentário. Como explicar esse mistério? Como essas “crap” não morrem? Pq são zumbis, ora!

  5. Você sabe que eu reli seu comentário de quatro anos atrás recentemente, e você estava mais certo do que eu na época. Volte sempre.

  6. jccmeirelles disse:

    Como vc disse, segui os fundamentos. E como naquela época, repito que o bolsa família é necessário e mais, deve ser universalizado, mas seus efeitos para a dinâmica da economia é baixa, pois as crianças que atinge deixa de fornecer escola e saúde de qualidade e os adultos que alcança a maioria já se encontra marginalizado no mercado de trabalho devido a baixa qualificação, o que não é corrigido. De resto, um governo medíocre, mas que consegue manter o emprego alto. Gostaria de ver estatísticas sobre isso. Talvez seja a grande esfinge desta eleição.

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