Socialismo ou O que posso esperar?

Eu participei, no começo da semana, de uma série de inquisições no twitter sobre porque ainda falar em socialismo. A premissa dos meus inquisidores era algo como: “Socialismo a essa hora, zero dois?”.

E ontem, em conversa com amigos, retomávamos a questão do que podemos esperar em termos de transformação do capitalismo.

Eu pensei em fazer uma espécie de FAQ para explicar o que penso sobre esses assuntos. Mas lembrei de um texto do Cosma Shalizi e que, creio, pode explicar como vejo essas questões, se colocado no contexto apropriado. Vamos então ao contexto.

O Francis Spufford publicou um dos melhores livros de ficção que li nos últimos anos, chamado Red Plenty. Eu já falei sobre o livo aqui no blog, E o The Crooked Timber fez um seminário sobre o livro lá no blog deles. O Cosma Shalizi participou do seminário com um texto. E a certa altura, o Cosma diz:

There is a passage in Red Plenty which is central to describing both the nightmare from which we are trying to awake, and vision we are trying to awake into. Henry has quoted it already, but it bears repeating.

Marx had drawn a nightmare picture of what happened to human life under capitalism, when everything was produced only in order to be exchanged; when true qualities and uses dropped away, and the human power of making and doing itself became only an object to be traded. Then the makers and the things made turned alike into commodities, and the motion of society turned into a kind of zombie dance, a grim cavorting whirl in which objects and people blurred together till the objects were half alive and the people were half dead. Stock-market prices acted back upon the world as if they were independent powers, requiring factories to be opened or closed, real human beings to work or rest, hurry or dawdle; and they, having given the transfusion that made the stock prices come alive, felt their flesh go cold and impersonal on them, mere mechanisms for chunking out the man-hours. Living money and dying humans, metal as tender as skin and skin as hard as metal, taking hands, and dancing round, and round, and round, with no way ever of stopping; the quickened and the deadened, whirling on. … And what would be the alternative? The consciously arranged alternative? A dance of another nature, Emil presumed. A dance to the music of use, where every step fulfilled some real need, did some tangible good, and no matter how fast the dancers spun, they moved easily, because they moved to a human measure, intelligible to all, chosen by all.

There is a fundamental level at which Marx’s nightmare vision is right: capitalism, the market system, whatever you want to call it, is a product of humanity, but each and every one of us confronts it as an autonomous and deeply alien force. Its ends, to the limited and debatable extent that it can even be understood as having them, are simply inhuman. The ideology of the market tell us that we face not something inhuman but superhuman, tells us to embrace our inner zombie cyborg and loose ourselves in the dance. One doesn’t know whether to laugh or cry or running screaming.

But, and this is I think something Marx did not sufficiently appreciate, human beings confront all the structures which emerge from our massed interactions in this way. A bureaucracy, or even a thoroughly democratic polity of which one is a citizen, can feel, can be, just as much of a cold monster as the market. We have no choice but to live among these alien powers which we create, and to try to direct them to human ends. It is beyond us, it is even beyond all of us, to find “a human measure, intelligible to all, chosen by all”, which says how everyone should go. What we can do is try to find the specific ways in which these powers we have conjured up are hurting us, and use them to check each other, or deflect them into better paths. Sometimes this will mean more use of market mechanisms, sometimes it will mean removing some goods and services from market allocation, either through public provision or through other institutional arrangements. Sometimes it will mean expanding the scope of democratic decision-making (for instance, into the insides of firms), and sometimes it will mean narrowing its scope (for instance, not allowing the demos to censor speech it finds objectionable). Sometimes it will mean leaving some tasks to experts, deferring to the internal norms of their professions, and sometimes it will mean recognizing claims of expertise to be mere assertions of authority, to be resisted or countered.

These are all going to be complex problems, full of messy compromises. Attaining even second best solutions is going to demand “bold, persistent experimentation”, coupled with a frank recognition that many experiments will just fail, and that even long-settled compromises can, with the passage of time, become confining obstacles. We will not be able to turn everything over to the wise academicians, or even to their computers, but we may, if we are lucky and smart, be able, bit by bit, make a world fit for human beings to live in.

O Cosma está, em primeiro lugar, retomando a crítica de Marx segundo a qual a lógica do sistema capitalista é subsumir tudo à valorização do lucro. Que muitos tenham entendido essa lógica como algo determinista diz mais sobre quem leu Marx do que sobre o próprio Marx. Afinal, a lógica aí não passa de uma tendência, de uma das principais forças do sistema, mas obviamente não é a única. Mas divago. O ponto é que a tendência é real. Os melhores apologistas do sistema, como Hayek, reconheceram que o sistema é alienante. O que ele e outros argumentam é que não é possível fugir da alienação e o capitalismo é o melhor que podemos esperar.

O que as pessoas de esquerda, especialmente da tradição socialista, defendem é que não precisamos aceitar o argumento conservador do Hayek. Mas, e aqui concordo com o Cosma, é preciso reconhecer que

human beings confront all the structures which emerge from our massed interactions in this way. A bureaucracy, or even a thoroughly democratic polity of which one is a citizen, can feel, can be, just as much of a cold monster as the market. We have no choice but to live among these alien powers which we create, and to try to direct them to human ends. It is beyond us, it is even beyond all of us, to find “a human measure, intelligible to all, chosen by all”, which says how everyone should go. What we can do is try to find the specific ways in which these powers we have conjured up are hurting us, and use them to check each other, or deflect them into better paths

Em outras palavras, buscar o socialismo, hoje, não pode e não deve significar construir (ou achar?) uma sociedade gloriosa em que viveremos num mundo transparente e não-alienado. Mas significa tentar, com cuidado, experimentações para reduzir a alienação e também conduzir as estruturas emergentes como algo que satisfaçam fins humanos. Significa jamais aceitar o capitalismo como uma fatalidade.

É preciso portanto ao mesmo tempo ter mais humildade e ousadia nas tentativas de luta contra o capitalismo. Humildade para aceitar que o mercado e mesmo a lógica do lucro são a forma menos pior de funcionamento em certos arranjos sociais. A ousadia para rejeitar em outros arranjos esse mesmo mercado e a lógica do lucro.

Para finalizar. Quando eu digo que o socialismo é sobre liberdade, o sentido preciso é justamente aquele de libertar nós humanos, o máximo possível, dos arranjos sociais que nos aprisionam. Que a nossa liberdade será sempre limitada é a conclusão lógica de quem aceita o diagnóstico acima sobre as estruturas emergentes.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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3 respostas para Socialismo ou O que posso esperar?

  1. Tomás Bueno disse:

    Conversa longa que eu prefiro ter em uma mesa de bar. Mas, de todo jeito: adoro trazer o capitalismo como produto nosso e não como sistema inerente à nós. Acho a noção de responsabilidade fundamental para a liberdade (que é algo que eu também busco).
    Em relação ao mercado não ser algo humano, mas superhumano é uma conversa longa sobre se a superação deve ou não ser uma busca nossa enquanto sociedade. E, se sim, qual a superação que deve ser buscada? Sem saber como seria se fosse diferente, acho importante pesar conquistas do capitalismo como a democratização do smartphone que tornou possível, em cerca de 10 anos, que um bilhão de pessoas estivessem conectadas à internet trocando informações, cultura e, a futilidade (e por liberdade ser um dos valores vigentes na internet, esse último tema ganha bastante espaço).
    Por acreditar que a sociedade é dinâmica, não acredito que nossa felicidade possa morar em um sistema que busque a estagnação. E, assim sendo, a busca por superação me parece uma boa orietanção filosófica para conduzir os nossos próximos passos. Lembrando sempre que superação é um conceito com espaço para ser resignificado ao longo do tempo e ser entendido em diferentes épocas como coisas direntes de acordo com a necessidade da sociedade. Pode ser produzir mais quando falta produtos. Pode ser produzir melhor quando falta meio ambiente ou pessoas.
    Em relação ao estímulo do sistema à abraçarmos nosso lado zumbi e abandonar nosso lado dançante. A sociedade precisa de suas tensões. Elas funcionam como doenças, mas também como vacinas. Não sei se acredito em um sistema pleno. O nosso desenvolvimento enquanto pessoas demanda dores para produzir aprendizados. Nessa análise, a limitação de um sistema não é baseado no que ele estimula, mas no que ele dá liberdade para acontecer. Existe espasso no sistema para que nós afirmemos nosso lado dançante? O sistema permite que as pessoas paguem para ver alguém dançando? Empresas como Google e Facebook, a difícil, (mas ainda assim possível) vida de artistas, jovens empreendedores sociais, viajantes, etc. Me leva a crer que esse espaço existe e vai crescendo aos poucos.
    Lucro também pode ser resignificado. Num mercado que busca o lucro acima de tudo, às pessoas deveriam aceitar simplesmente o emprego que paga mais (e assim, lucrar mais). Mas o que não falta hoje em dia, é exemplo de gente que troca parte do dinheiro por qualidade de vida e transforma esse “lucro” em uma equação com mais variáveis. Atitude não só de indivíduos, mas de empresas. Existem empresas saudáveis que sacrificam lucro financeiro, pelo lucro emocional, social e até ambiental.
    Por fim, retomo o ponto central da liberdade. Eu acredito que o cenário principal dessa batalha não é a sociedade, mas o indivíduo. A liberdade, como um presente do sistema para os cidadãos, não é liberdade é só mais prisão. Porque o maior carcereiro que eu conheço chama dogma, e trocar o sistema, é só trocar os dogmas. A liberdade que eu acredito é a dos “espíritos livres” de Nietzche. O sistema deve apenas dar liberdade para que o indivíduo a busque. Deve permitir que ele viaje. Que ele troque de emprego. Que ele mude de país. Que ele seja livre em seu pensamento religioso. Que tenha espaço para questionar as coisas que ele julga errado na sociedade. E, na minha opinião, o capitalismo não é culpado de nenhum desses crimes.
    Do meu ponto de vista, o capitalismo é um sistema livre por dar espaço pra liberdade, não por buscar a liberdade. Quem deve buscar a liberdade somos nós. Uma sociedade sempre terá seus dogmas, o capitalismo é um sistema que, na minha opinião, é livre, por dar espaço à mudança de dogmas da sociedade. Ele, em síntese, é um sistema de troca. Quem escolhe o que vai ser trocado e o quanto essa coisa vale, somos nós.
    O capitalismo não é perfeito e gerará suas vítimas. E é aí, na minha opinião, que entra o papel do Estado. Para corrigir os erros do sistema no caminho de construir a sociedade que desejamos. Para que a sociedade possa atuar junto ao sistema na busca do futuro que desejarmos.

  2. Paula disse:

    Tinha escrito uma resposta que gostei, mas estava no metrô e perdi a conexão. Nestas horas tenho raiva do que o capitalismo inventa e como mostra sua própria fragilidade… mas enfim, penso que buscamos diminuir angústias e enfrentar problemas de diversas formas, e se possuíssemos, minimamente, informações sobre ações ou posições socialistas, talvez fosse menos difícil negar ou criticar o desconhecido.
    A questão é que podemos não entender liberdade, diminuição de conflitos e felicidade de outra maneira além do que já está dado, pois simplesmente desconhecemos outra possibilidade… e não conseguimos nos ver livres dos arranjos sociais impostos pelo capitalismo. Enfim, a informação tem um poder de liberdade e permite a escolha de muitas coisas, que às vezes só os anos de vida não são suficientes para preencher esta lacuna. Algo assim…

  3. Pedro disse:

    A alienação é a própria cultura/civilização, é o mal-estar de Freud, é ter que organizar a natureza e se objetificar no processo. Isso é humano e intransponível, ir além disso é tarefa para mãe Dinah ou alguém metido a onisciente (o capitalismo vai acabar, mas isso está além de nossa compreensão).

    Tudo tem limites e deve ser limitado: liberdade individual, propriedade privada, atos de governo. A tarefa que Hayek coloca é como estabelecer esses limites

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