Meu voto em Dilma no segundo turno

Não votei na Dilma no primeiro turno e tinha a intenção de votar nulo no segundo. Aqui explico porque acho que vale a pena votar na Dilma no segundo turno, contra Aécio Neves.

Meu sentimento subjetivo é que o governo Dilma foi um péssimo governo. Do mesmo modo que meu sentimento subjetivo com relação ao Lula é de não gostar nem um pouco do governo dele. E no entanto, mesmo com esse sentimento subjetivo, quando olho objetivamente para os números, para a história do Brasil e para a história do mundo, considero o governo Lula o melhor governo da história do Brasil. Não quero descartar aqui a questão subjetiva, emocional. Mas é preciso escolher se queremos votar com o fígado ou não.

Mas comecemos pelas negativas. Ou seja, argumentos que considero furados para votar na Dilma. Tem petista argumentando que a inflação do FHC foi maior que da Dilma, o que é verdade. Mas alguém duvida que com o PSDB a inflação será menor que com Dilma? Eu não duvido. E pelo simples fato de que o PSDB vai fazer um ajuste fiscal e monetário que aprofundará a recessão, aumentará o desemprego e reduzirá a inflação para o centro da meta. Quando os petistas fazem essa crítica ao PSDB, eles estão certos. Erram apenas ao não considerar a implicação da crítica: a inflação será menor. E não tenham dúvida, a inflação menor beneficia os pobres.

Mas o arrocho fiscal vai prejudicar os mais pobres. Temática que considero o problema número 1 do Brasil. Não é educação, não é saúde, não é segurança. É a pobreza e desigualdade do país. Para terem uma ideia de com o Brasil ainda é pobre, vejam o gráfico abaixo, que traz a renda familiar:

A maior parte dos brasileiros com quem convivo está nos 9% (verde claro) ou nos 4% (verde escuro).  Ou seja, eles ou fazem parte dos 15% mais ricos ou dos 5% mais ricos. É natural que eles tenham dificuldade de entender a pobreza do Brasil. Mas quase 50% das famílias ganham menos de R$ 1.500 reais por mês. É a renda familiar. Divida esse valor por quatro, e você terá a renda individual. É de chorar. Então, a gente tem que melhorar a vida das pessoas. E temos muito ainda pra fazer.

O Samuel Pessoa criticou a propaganda do PT recentemente, por comparar alhos com bugalhos. Mas comparando banana com banana, dá pra ver que a diferença entre PT e PSDB é sim assustadora. Eu achei uma série de slides que tem vários gráficos que mostram como foi a evolução dos indicadores sociais nos últimos 20 anos (FHC + Lula + Dilma). Esses números mostram o que foi o governo PT. Resumo aqui os principais gráficos.

No slide 20, vemos o percentual de famílias abaixo da linha da pobreza desde 1990 até 2009. Em 1993, 23% dos brasileiros estavam abaixo da pobreza extrema. Em 1995, com o plano real, esse número cai para 17%! Isso mostra o impacto do fim da hyperinflação. Deve ter algum ruído estatístico aí, mas o efeito é real. Porém, fica estagnada nos 7 anos seguintes do governo FHC, chegando em 2002 a 16,5%. Essa é a grande realidade. O FHC fez muitas reformas, privatizou, instituiu metas de inflação etc., e no final a pobreza ficou estagnada após os ganhos do plano real. Lula assume em 2003, após subir para 17,5%, chegou em 2009 para 8% da população. Repito, se em 7 anos de FHC passamos de 17% de brasileiros na extrema pobreza para 16,5%, no Lula saímos dos 16,5% para 8% nos mesmos 7 anos. São 8 p.p. de queda (tem uns arrendondamentos aí).

Tem um outro gráfico, nos slide 15, que acho mais impressionante ainda. Ele mostra a desigualdade de renda (medido pelo GINI) e a renda per capita, de 1960 até 2012. E o que a gente vê é uma correlação positiva entre a renda per capita e a desigualdade. A renda per capita cresce no período de 1960-1980, juntamente com a desigualdade. Ficam ambas estagnadas nos anos 80 e 90, incluindo aí o governo FHC. Há até uma queda brusca na desigualdade em 1995 (plano real), mas que é revertida já em 96. Ou seja, o governo FHC não conseguiu, de maneira consistente, reduzir a desigualdade do país. É só a partir de 2003 que vemos uma correlação negativa entre renda per capita e desigualdade. A renda per capita sobe nos últimos 12 anos, e a desigualdade diminui. Nunca antes na história do país conseguimos esse padrão de desenvolvimento. Mas, e isso é bastante relevante, o gráfico mostra que a desigualdade atual, mesmo com toda queda, é maior do que a aferida em 1960! Somos mais desigual hoje, mesmo com toda a queda, do que antes do golpe militar. Esse é o tamanho da tragédia do golpe de 64. E que temos revertido nos últimos 12 anos de governo PT.

Os tucanos argumentam que o modelo petista de redução de pobreza e desigualdade se esgotou. E esse é, em minha opinião, o maior debate que deveria ter sido feito nessa eleição. Mas a verdade é que o que o PSDB tem proposto é, basicamente, a volta ao modelo anterior de desenvolvimento do Brasil. Um modelo que significou pouca efetividade no combate à pobreza e em crescimento com aumento da desigualdade.

O PSDB não me convenceu de que o modelo de desenvolvimento deles é compatível com a redução da pobreza e desigualdade. O histórico do partido, como mostrei aqui, joga contra essa perspectiva. E, talvez mais importante, os aliados deles são justamente aqueles que mais se beneficiaram do modelo anterior de desenvolvimento. Por tudo isso, não dá para acreditar no contrário.

O PT tem como aliados a outra metade que se beneficiou do modelo de desenvolvimento anterior. Mas o PT comprovou de fato que, apesar dos aliados, conseguiu reduzir a pobreza e desigualdade. Eu creio que a explicação está no fato de que o PT tem grupos de pressão importantes no interior os partidos ligado aos movimentos sociais. Veja o gráfico abaixo, que creio ilustra como a vinculação com sindicatos reflete-se em indicadores econômicos e sociais.

E se o modelo do PT de governar se esgota, creio que tem a ver com o descolamento do PT dos movimentos sociais, como vimos em 2013. Mas o PSDB não é uma alternativa real nesse ponto, pois são mais descolados ainda do que o PT.

ps.: o meio-ambiente é o problema do futuro para o mundo e, portanto, para o Brasil. Infelizmente, nesse ponto, PT e PSDB são muito similares.

ps.2: Eu não gosto de gráficos com eixo y que não começam no zero. Isso cria uma ilusão de que a variação é maior do que de fato é. Mas não tenho tempo para fazer eu mesmo os gráficos. Deem os devidos descontos. Mas a conclusão não muda.

ps.3: Sobre corrupção, PT e PSDB são igualmente envolvidos em escândalos de corrupção e não vejo diferença entre eles nesse ponto. E ainda por cima acho que a corrupção não entra nem nos cinco maiores problemas do Brasil hoje (pobreza, violência, educação, saúde, direitos humanos e de minorias e meio-ambiente, não necessariamente nessa ordem). Talvez num sexto ou sétimo lugar.

ps.4: se você acha que o PT e o PSDB são iguaizinhos ideologicamente, veja o gráfico da pág. 7 desse artigo.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Meu voto em Dilma no segundo turno

  1. Sonia Jobim disse:

    Olá Manoel, deixo aqui meus parabéns pelo admirável texto bem fundamentado nos instrumentos teóricos e estatísticos que nossa profissão nos oferece e à todo cidadão que queira seriamente avaliar a governança de seus gestores.

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