Os desafios da Dilma

Pensando cá comigo sobre os desafios da Dilma, não consigo fazer a equação fechar. De um lado, creio que o PT entendeu que a militância e a aproximação com os movimentos sociais é fundamental para o partido ter conquistado a vitória. Ao mesmo tempo, não terá vida fácil no relacionamento com o congresso e com o mercado. Como agradar os três ao mesmo tempo?

Para agradar os mercados, terá que fazer algo parecido com Lula I: política econômica mais ortodoxa no Bacen e na Fazenda. Para agradar ao congresso, é aprovar as emendas deles, distribuir cargos para a base aliada e, obviamente, nada de reforma política (afinal, os partidos pequenos são os principais a perderem com uma reforma política que se preze). E para agradar a militância e movimentos sociais, terá que ou abrir o bolso (passe livre, por exemplo) ou comprar a briga das lutas das minorias (índios x Belo Monte, LGBT etc.). O problema é que cada uma dessas vertentes se choca com as outras duas. Se abrir o bolso, desagradará ao mercado. Se adotar políticas de direitos civis mais progressistas, brigará com o congresso mais reacionário. Se forçar a reforma política, brigará com o congresso.

Se alguém tiver alguma ideia de como ela pode fazer o que parece impossível, sou todo ouvidos. Por enquanto, fico pensando se o PT irá, forçado pela realpolitk, cometer o suicídio político de se afastar ainda mais da militância e movimentos sociais, e perder o poder em 2018.

ps.: Uma possibilidade é agradar o congresso sempre, o mercado nos dois primeiros anos, e a militância nos dois anos finais.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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4 respostas para Os desafios da Dilma

  1. Rafael disse:

    “a militância e a aproximação com os movimentos sociais é fundamental para o partido ter conquistado a vitória”

    Será que é isso mesmo? Esses votos são garantidos para o PT, eles não têm uma ameaça crível de que vão votar no PSDB se suas demandas não forem atingidas,. A Dilma não tratou esses grupos especialmente bem no primeiro mandato e todos eles a apoiaram no segundo turno.

    Fundamental é o nordeste. Fala-se muito que o PT ocupou o espaço do PSDB, e pode ser que isso seja verdade no plano do discurso. Do ponto de vista eleitoral, parece que o PT tomou mesmo foi o lugar do PFL, que foi destruído pelo Lula.

  2. Rafael disse:

    Ia ser legal ter um jeito de testar empiricamente a hipótese no seu PS. Desconfio que ela seja verdadeira para vários governos, mas nunca vi (também não procurei) evidência boa nesse sentido.

  3. jccmeirelles disse:

    O problema de Dilma, e o do PT, é que sempre atacam as outras forças políticas indistintamente, como se fossem os puros e inteligentes e nada mais prestasse.

    Mas quando se verifica a posição destes em relação a questões como reforma política, democracia participativa e institucionalidade do poder público, o que se verifica é um bando de metafísicos da embromação a propor bobagens.

    Nada nos projetos de reforma política aponta para uma aproximação dos políticos e dos partidos com a população em geral, criando um vínculo de representação e responsabilidade perante os eleitores.

    Voto em lista fechado, sendo a lista prerrogativa do partido, sem qualquer menção à formas de democratizar os partidos, financiamento público das campanhas, atribuição da prerrogativa de convocar plebiscitos ao chefe do poder executivo e não só ao parlamento e outras idéias desgarradas da realidade brasileira demonstram que a única coisa certa que o PT e seus governos sabem fazer é a distribuição de renda, nas suas várias formas [aumento de salário mínimo, bolsa família, PROUNI e outros].

    O problema é que os anos do PT no poder foi um “neovarguismo” de segunda categoria, pois houve avanços sociais com as políticas acima nominadas, mas também ocorreram favorecimentos aos empresários em desfavor do conjunto da população que neutralizam estes avanços.

    Explica-se: com o governo Lula ocorreu o atrelamento dos movimentos sociais ao aparelho de estado [vide como sindicatos e a UNE receberam receitas ou como os companheiros ocuparam cargos na Administração ou nos entes paraestatais como os Fundos de Pensões atrelados a órgãos públicos] mas de fato os grandes beneficiários foram os empresários, pois receberam toda a forma de impulso possível, especialmente as empreiteiras, que passaram a fazer as obras públicas e administrar os serviços atrelados a ela.

    Nos governos do PT as concessionárias são a mola mestra da atividade pública, sem que no fim, ocorram ganhos pelos seus usuários.

    E para impulsionar tudo isso, a China comprando tudo para fomentar a fornalha do seu crescimento, o que puxou o nosso. Realmente decepcionante.

    Com o fim do ciclo de crescimento chinês, tudo começou a se perder, ainda mais que aturamos quatro anos de incompetência da Dilma. Não vejo nada de bom para o futuro com sua reeleição, pois conseguiu levar o Brasil a uma situação de crescimento zero. A possibilidade de recessão no ano que vem é palpável, combinado com inflação.

    A verdade é que o PT e seus governos foram os responsáveis pelo distanciamento dos movimentos sociais, pois, no poder, anestesiou estas forças políticas. Pior, não aproximaram a população em geral, vide as Jornadas de Junho, que sacudiram o Brasil ano passado.

    Mas tudo isso é explicável, pois o PT sempre teve um problema com o termo Povo e o seu significado na Democracia. Povo para o PT significa de forma restritiva menos do que a totalidade dos brasileiros, uma vez que deixa de associar ao termos as classes sociais que não orientam a sua “missão histórica” de transformação social. A resposta conservadora e até retrógrada que assistimos é um demonstrativo disso.

    Daí porque a todo momento tenta estabelecer meios de contornar o Congresso. Ou para que efetivamente servem os conselhos participativos propostos? Quem irá compô-los? Quem vai escolher sua composição? Por que sua instituição feita por decreto, sem passar o tema pelo Congresso?

    Tudo isso foi questionado e o PT e a PRESIDENTE Dilma tossiram, mugiram mas não responderam e daí veio a crise com o Congresso, que deve ser somada com a Crise do Congresso, instaurada com o Mensalão e que só tende a piorar com o avanço das investigações conduzidas pela PF a mando da Justiça Federal sobre o “Pretolão”, que, pelo indicado até agora, serviu para continua a domesticação dos parlamentares da base com o doce sabor do financiamento de campanha pelo Caixa 2.

    De fato, a equação não fechará mesmo.

    [OBS.: recuso-me a aceitar o termo presidenta, pois não falamos ou escrevemos motoristo, pianisto ou estudanta – a língua portuguesa merece maior consideração com a sua beleza gramatical e meios de geração de palavras, o que a Dilma de fato não entende, como demonstra o discurso pseudo-tecnocrata que usa].

  4. Pingback: O Trilema Político da Dilma | Blog Pra falar de coisas

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