A propósito de um filme já antigo do Kar Wai

Tem um filme do Kar Wai, chamado Hands (mãos), que faz parte de três históricas curtas de um filme chamado Eros. As outras duas histórias são do Sorderbergh e do Antonioni.

Nesse filme, a história se concentra em torno de dois personagens Zhang, um alfaiate iniciante, e Miss Hua, uma prostituta de luxo no auge de sua beleza.

A coisa que sempre me atraiu nesse filme é como o erotismo pode ser apresentado no seu mais alto grau, e no entanto é totalmente diferente do que estamos acostumados. Num filme padrão de hollywood, por exemplo, tudo se passa em torno do tesão sexual crescente, que pede um desenlace sexual meio que mecânico dos corpos.

No filme do Kar Wai, é o não dito, o toque de uma mão, o tecido de uma roupa que traz todo o erotismo à tela e cativa o telespectador.

Há uma cena maravilhosa, em que Zhang, o alfaiate, está com as roupas que ele fez para Miss Hua. O vestido está em cima da mesa, mas nele não há o corpo de Miss Hua, apenas o vazio. Ele então toca o vestido com as mãos, e vagarosamente enfia a mão por dentro do vestido, como se passeasse pelo corpo de Miss Hua. Ele se excita e todo clima erótico vem à cena. É a alusão, o que não está ali, mas aquilo a que o vestido remete que traz a carga de sensualidade. É o tato que será o poderoso afrodisíaco da imaginação, e não a visão, esse lugar comum do poder imaginativo da mente.

É claro que poderíamos ver aí apenas um amor platônico, mas creio que essa é uma chave errada. Se as interdições têm um papel importante, não é por negar o caráter carnal do amor deles. Mas para desviar o erótico do óbvio e levar para um outro lugar. Sendo ela uma prostituta, parece-me que não haveria outro modo de ter um lugar para o amor deles com erotismo senão fugindo da carnalidade mais óbvia e, de certo modo, nos ensinando que lá onde aparentemente não poderia haver amor e erotismo, podemos encontrá-los ambos, mas transfigurados. Talvez seja hora de achar esses outros espaços.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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2 respostas para A propósito de um filme já antigo do Kar Wai

  1. Miguel disse:

    Legal. Gosto muito do Wong Kar-wai, mas uns bons anos atrás parei esse filme no meio, profundamente entediado com a parte do Antonioni (que treco decepcionante…). Vou rever!

  2. A parte do Antonioni é horrível. Reveja só a parte do Kar Wai.

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