O futuro sombrio que nos espreita

Li as reflexões do Diego Viana a propósito do atentado ao Charlie Hebdo, e o que mais me chamou a atenção são as pistas do que nos espera o futuro. Uma política do medo, da administração e controle, num contexto de pauperização e discriminação crescentes em todo o mundo ocidental. Eu acrescentaria o ressentimento, juntamente com o medo. Estar do lado dos perdedores e perceber que não foi lhe dada (e não será lhe dada) nenhuma oportunidade justa de estar do lado dos vencedores não cria medo, mas ressentimento. Quem tem medo é quem ainda tem muito a perder, nem que seja o passado.

E não consigo deixar de pensar naquilo que Bill Barnes escreveu, num outro contexto, mas a propósito dos problemas que a humanidade enfrenta e enfrentará com as mudançcas climáticas (que já estamos vivendo aqui em São Paulo com a crise da água):

To realize the scale and seriousness of our problem, you have to appreciate
how bad the present reality already is for the world’s most vulnerable populations,
how locked-in the worsening trends are, and how great are the obstacles to
effective counteraction. Realism means acknowledging that we now face, in much
of the world, a future of increasingly catastrophic environmental and public health
disasters, increasing criminal, predatory, and socially destructive behavior, amidst
unrelenting poverty. Much of the world is dramatically short in coping capacity,
and there is no prospect of the weak and nearly-failing states of the poor world
remedying that shortfall on their own. Some stronger but predatory states will not
only be of no help, but react in ways that make things worse for their neighbors. If
the rich societies and their powerful, quasi-democratic states do not devote
themselves to heading off the full realization of the approaching catastrophes, by
helping to grow coping capacity all over the less developed world, things are
going to get very nasty. The immediate problem is that, by these standards, the
recent policies of the richest of these societies and the strongest of these states
have been, on balance, highly dysfunctional. This deserves to be counted as a form
of state failure – perhaps the most important form.

(…)

Being on the winning side makes a difference. With reassurance from all sides, it is easy to set aside nascent doubts and to join one of the reigning narratives on how
these problems are intractable or disappearing, and on how our noble and
advanced countries are doing all they can (or, at worst, a tiny bit less).

Parece-me óbvio que esses desdobramentos todos vão abrir a porta para uma solução mais ou menos fascista, como sempre tem sido em momentos de crises agudas. Que a esquerda não esteja vendo esses sinais e o futuro sombrio que ele aponta, me assusta muito. Obviamente eu posso estar enganado na minha leitura da realidade, ainda mais que “prediction is hard, especially about the future”. Aqui eu tampouco me dei ao trabalho de argumentar mais detidamente sobre esses riscos futuros, mas apenas fazer mais alguns apontamentos e levantar mais algumas perguntas. Mas os sinais estão aí, juntamente com os ruídos. É preciso apenas extrair os sinais para ter um quadro completo e essa a tarefa que nos espera, embora decididamente não podemos esperar esse quadro para começar a agir. Basta ver o que está acontecendo em São Paulo (e a falta de mobilização real na questão da água) para mostrar como a esquerda está desarticulada nas questões ambientais.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, meio ambiente, Política e Economia e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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