“Rótulos”, racionalidade e heurística

Participei nesta semana de duas discussões diferentes, e no entanto em ambas criticaram nossa tendência a rotular as pessoas. O argumento é em geral mais ou menos assim: rótulos são reducionistas, categorizam as pessoas, impedem uma comunicação efeitva, dão margem a pré-conceitos etc. Por sorte ninguém da discussão citou Kahneman e cia., e os resultados dos estudos sobre nossos vieses cognitivos.

Mas eu me lembrei dessa citação, que vi no blog do Gelman uma vez:

The “half-empty” versus “half-full” explanation of the differences between Kahneman and us misses the essential point: the difference is about the nature of the glass of rationality, not the level of the water. For Kahneman, rationality is logical rationality, defined as some content-free law of logic or probability; for us, it is ecological rationality, loosely speaking, the match between a heuristic and its environment. For ecological rationality, taking into account contextual cues (the environment) is the very essence of rationality, for Kahneman it is a deviation from a logical norm and thus, a deviation from rationality. In Kahneman’s philosophy, simple heuristics could never predict better than rational models; in our research we have shown systematic less-is-more effects.

Pegando o gancho da citação, implícito nessa crítica “absolutista” aos “rótulos” está a ideia de racionalidade lógica, e a rotulagem é um desvio que levaria a resultados inferiores ao emprego de uma visão racional.

Porém, se pensarmos do ponto de vista da racionalidade ecológica, ou seja, como diz Gigerenzer, a racionalidade de match entre heurística e ambiente, o rótulo pode ser muito eficiente em permitir a comunicação das pessoas, facilitar a ação coletiva, estabelecer um commong ground etc.

Veja que, quando eu me identifico como de esquerda, isso permite estabelecer vários common grounds que facilitam a comunicação, pois vários pressupostos são (supostamente), compartilhados. Do mesmo jeito quando alguém se afirma negro, feminista, trans-gênero etc. É claro que os rótulos podem sim dar margem à confusão, quando há um mismatch entre a heurística e o ambiente. Mas solução não é almejar uma racionalidade impossível, sem heurística, mas adaptar a heurística ao ambiente. Quando Rorty dizia que é preciso redescrever o outro, para criar solidariedade, creio que funciona bem se interpretado nessa chave de racionalidade ecológica.

Aliás, a falha em entender a racionalidade ecológica é que leva muita gente a criticar as simplifações de discursos da política. Elas não entendem que a simplifação e o encaixe de rótulos é uma forma eficiente (cognitivamente, em termos computacionais) das pessoas absorverem informações complexas sobre políticos e partidos. Aliás, um dos problema de termos muitos partidos é que uma das funcões deles, qual seja, reduzir o esforço cognitivo na hora de escolher em quem votar, não é bem feita, pois é difícil diferenciar os partidos no espectro ideológico.

 

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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