Sobre o bilhete escolar racista e a negação do racismo cotidiano no Brasil

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O bilhete acima foi enviado por uma coordenadora a uma mãe de dois filhos negros, que têm os cabelos bem crespos. Tem uma reportagem dando mais detalhes da história. A mãe postou no Facebook dela: “Meus filhos Antônio e Benício foram vítimas de preconceito por causa do cabelo deles, recebi essa mensagem na agenda escrita pela coordenadora da escola que até então tinha meu respeito, daqui em diante…”.

Uns amigos me perguntaram se eu achava que era racismo. Eu apenas pensei que, fosse com meu filho, eu ficaria p* da vida e iria tomar satisfações com a coordenadora, e exigir explicações e retratação na hora. Mas há quem ache que a professora só estava preocupada com “piolhos”.

Ocorre que o discurso da professora está dentro do padrão das atitudes racistas presentes nas nossas escolas e na sociedade em geral. Para tentar mostrar esse ponto trago alguns depoimentos coletados em estudos. Vejam primeiramente esse depoimento, disponível num artigo, de uma estudante já na universidade:

Quando eu vou no hospital ele fica falando: “menina, se cair piolho desse cabelo…”
Aí eu falo pra ele: “professor, se cair piolho do meu cabelo é a mesma coisa de cair piolho do seu cabelo, do cabelo daquela menina”. Mas ele fala isso inúmeras vezes. “Professor, eu vou colocar o movimento negro atrás de você, porque isso é racismo!”.
(ele): “não é racismo, não. É que você tem o cabelo crespo, tem que prender mais”. “Mas meu cabelo nunca teve piolho nenhum; se cair um piolho aqui, vai ser igualzinho
ao de P.” que é outra colega aqui. “Por que você não reclama com P? O cabelo dela é solto, o cabelo dela é no meio das costas”. (ele): “Não, você está entendendo erado”. “Olha que eu vou colocar o movimento negro atrás de você!”, eu falo na “resenha”, porque ele é uma pessoa muito poderosa aqui na (Universidade), que manda e desmanda. Então, tem que falar meio na “resenha”. Você fala com raiva, porque tem que falar na “resenha”, porque no fundo, no fundo, essas coisas do poder existem, vão continuar existindo, e eu preciso superar isso, porque eu quero ser médica…”

Como se nota, essa história de brancos quererem interferir no cabelo do negro usando a desculpa do “piolho” — associado a sujeira, doença etc. — não é nova. Vejam então o retratado em outro artigo (a passagem é na verdade citação de um livro), por uma pesquisadora que presenciou a seguinte cena, com a seguinte fala:

Na sala de aula, a professora diz a Marisa (negra): “Você precisa falar para a sua mãe prender o seu cabelo. Olha só que coisa armada! ” Fala isso em tom alto, que pode ser ouvido por todas as crianças. Depois disfarça, alterando o tom da voz, talvez por se lembrar da minha presença: “Se não você pode pegar piolho, na escola tem muito!” (CAVALLEIRO, 2006, p. 64).

Novamente há a premissa racista de que o cabelo natural do negro é ruim, errado, feio, que deve ser modificado para ficar o mais próximo possível ao do branco. E, claro, a utilização do “piolho” como desculpa para justificar o racismo. O livro citado documenta muitos outros exemplos similares, os quais a esmagadora maiores das pessoas negras irão reconhecer como familiar. Vejam este outro:

A professora se dirige a uma criança e lhe pergunta: “Quem mandou você soltar esse cabelo? Não pode deixar solto desse jeito. Por que soltou? Ele é muito grande e muito armado. Precisa ficar preso” [grifos meus, MG]. Em seguida, energicamente pega uma maria-chiquinha do pulso da menina, prendendo-lhe os cabelos.

É óbvio que esse padrão, que se reproduz à exaustão em várias esferas da sociedade, acaba tendo impacto nas crianças e, depois, na própria vida adulta dessas pessoas. No mesmo livro, a autora vê evidência para essa hipótese ao narrar a seguinte cena:

Quero saber o nome de uma menina e pergunto a Maiara (negra), próxima a mim, o nome da amiga. Ela indaga: “Qual? Aquela descabelada?”. Aproveitando-me dessa fala, pergunto a ela se há mais “meninas descabeladas”. Ela aponta quatro colegas negras.

Eu poderia ficar repetindo exemplos aqui ad infinitum. Finalizo os exemplos trazendo aqui um trecho de uma música recente da Beyoncé, que vive em outra sociedade extremamente racista. Diz o trecho da canção:“I like my baby hair, with baby hair and afro”. O contexto desse trecho, entre outros, é que 5 mil pessoas fizeram uma petição sobre o cabelo da filha dela!

Então, infelizmente, a norma da nossa sociedade é que o tempo inteiro as pessoas estão falando do corpo dos negros, dizendo que é feio, ruim, sujo, associado a doenças — e que quanto mais branco for esse corpo, melhor. Muitas vezes não dito abertamente, mas o sentido é sempre esse. Mas se a mãe reclamou do bilhete é porque ela sofreu isso na vida dela, já presenciou isso de outras pessoas com os filhos dela. Eu, que não tenho filhos, só consigo imaginar a dor que deve ser pra ela ver o racismo da sociedade ser dirigido o tempo todo contra os filhos dela. O tempo todo. O resultado disso está exposto no famoso experimento com crianças negras, que são expostas a bonecas brancas e negras, e elas têm de apontar quais a bonecas são legais, bonitas, feias e ruins.

Então, é contra isso que a mãe tem de lutar todos os dias dela. Contra esse ataque à autoestima dos filhos, feitos às vezes abertamente, outras vezes subrepticiamente, para se “combater os piolhos”. E quando a coordenadora fala que “ficaria mais feliz com o cabelo deles mais baixo ou preso”? Mesmo que tivesse também a preocupação do piolho, será que ela escreveu bilhetes para mães de  filhos brancos se dizendo feliz com o cabelo cortado baixo ou preso? E não é que o cabelo dos meninos seja muito grande. Perguntem-se se as meninas de cabelos lisos vão ter cabelos menores do que esse, ou se vão sempre usá-los presos, nessa escola. A gente já sabe a resposta. Mas ainda queremos fingir que não é racismo “de verdade”, como disse um amigo meu. Isso é racismo de verdade, e tem um impacto profundo na autoestima das crianças negras.

E ela ainda tem que aguentar muita gente negando que é racismo, negando que a autoestima dos filhos será afetada, negando que é racismo de verdade, argumentando que é exagero, que “prejudica” a luta contra o racismo lutar contra essas coisas. É uma violência dupla essa, de uma sociedade que é racista e que nega o racismo, que recrimina quem quebra o silêncio, demandando o silêncio das vítimas. Não sabem o mal que faz às pessoas, fazendo elas se sentirem paranoicas, nunca sabendo se é racismo ou não. É racismo sim, tem que se rebelar sim. Sei que meu filho ou filha será negro/negra, e vou fazer o barraco ao menor sinal de racismo.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em negritude, Política e Economia, racismo. Bookmark o link permanente.

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