Opinião, racionalidade e simplificação, o que a ciência tem a nos ensinar sobre esses temas

Está na moda falar em fla-flu político, em criticar a falta de racionalidade e objetividade alheia, o simplismo dos nossos debates, enfim, a pobreza intelectual dos outros. Infelizmente o que a ciência da formação de opinião tem produzido não chegou por essas plagas, aparentemente. Como não serei eu quem irei explicar tudo aqui, quero apenas deixar recomendando alguns trabalhos, para quem tiver interesse em entender o que a ciência descobriu sobre como funciona o cérebro humano e como formamos opiniões sobre temas caros para nós.

  1. Apesar da crise de replicação em muitas pesquisas sobre “priming” e outros temas relacionados na psicologia, ainda vale ler o livro do Daniel Kahneman falando como funciona o sistema 1 e 2 em todos os seres humanos, inclusive no próprio Daniel Kahneman.
  2. Esse artigo do Brendan Nyhan, que eu comentei aqui mesmo no blog, foi creio o primeiro que li sobre o assunto e que começou a transformar como via a questão.
  3. Esse outro artigo (versão ungated), sobre misinformation (desinformação) e como corrigi-la é bastante citado. Eu só dei uma lida bem por cima, e é uma grande revisão da literatura. Vale a pena lê-lo para ter uma visão mais ampla dos argumentos e hipóteses sobre como os vieses ocorrem e podem ser minorados.
  4. Estou na metade desse livro do Tetlock sobre como fazer previsões. Aparentemente, se alguém leu o livro anterior dele, esse novo não traz tanta novidade. No entanto, a tese central dele, de que para fazer previsões e, no geral, avaliações objetivas de situações incertas, devemos partir do geral em comparações com outras situações similares, e aos poucos ir para o particular (mas sempre estabelecendo bases de comparações mesmo no particular) parece-me um bom remédio para evitar conclusões apressadas e errôneas, e preservar o espírito crítico. A vantagem desse método é que ele evita os vieses introduzidos pela tendência a avaliar informações a partir do quanto elas são consistentes com o que acreditamos previamente.
  5. Esse aqui eu não li, também do Brendan Nyhan, mas destaco a conclusão do abstract, pois parece ser um resultado mais geral da literatura, qual seja: que indivíduos mais ideologicamente motivados e sofisticados vão ter mais dificuldade de aceitar informações corretivas que contrariem sua visão de mundo. Ou seja, contrariamente ao popularmente suposto, mais educação pode implicar em menor capacidade de corrigir a própria percepção.

    Findings: The correction reduced belief in death panels and strong opposition to the reform bill among those who view Palin unfavorably and those who view her favorably but have low political knowledge. However, it backfired among politically knowledgeable Palin supporters, who were more likely to believe in death panels and to strongly oppose reform if they received the correction.

    Conclusions: These results underscore the difficulty of reducing misperceptions about health care reform among individuals with the motivation and sophistication to reject corrective information.

    6. Esse livro não li, e fica aqui mais como referência para mim. Portanto não recomendo nem nada.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para Opinião, racionalidade e simplificação, o que a ciência tem a nos ensinar sobre esses temas

  1. Giselle Reis disse:

    Oi Manoel,

    Obrigada pela lista com ótimas referências! Não conhecia 2 nem 5, e eles me lebraram uma reportagem que vi recentemente: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,e-a-politica-estupido-a-ciencia-prova-o-que-suspeitavamos-a-politica-pode-emburrecer-as-pessoas,10000072357. Não encontrei o estudo original, então não sei se a conclusão é realmente o “emburrecimento” das pessoas. Na minha opinião essa é uma maneira muito simplista de ver as coisas, e o que acontece mesmo é mais relacionado com os nossos próprios biases (veja o “Problem 1” dessa lista: https://betterhumans.coach.me/cognitive-bias-cheat-sheet-55a472476b18#.cdcplp1tk) do que com uma suposta “falta de inteligência”. Recentemente esse efeito parece ter funcionado a nosso desfavor (não somente no Brasil, mas veja Trump como candidato à presidência nos EUA, a crescente popularidade de partidos de direita em vários países europeus, ISIS, a tentativa de golpe na Turquia, e por aí vai). Seria legal se a gente conseguisse parar de ter opinião e tentar ver os fatos com mais frieza… Até agora o único jeito que penso que isso pode acontecer é estando ciente desses biases a todo o tempo (e convencendo as pessoas de que mudar de opinião não significa falta de integridade… e sim maturidade e humildade).

    A propósito, parece existir muito pouca pesquisa sobre como superar biases… Se vc tiver alguma referência, não hesite em postar por favor🙂

    []s

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