Comparando editoriais do Estadão sobre Trânsito/multas em SP antes e depois da eleição

Guest Post por Caio Carbone (texto originalmente publicado no facebook do Caio, e que ele gentilmente aceitou republicar aqui no blog). Para quem quiser ler mais textos do Caio, recomendo o blog dele.

Hoje [04/11] o Estadão traz o seguinte editorial: “Maior Rigor no Trânsito”. Apesar de tratar de uma medida aprovada pela gestão Haddad, vale comparar com editoriais pré-eleição para identificar algo meio estranho.

Começa o texto de hoje, que trata da elevação de multas para o uso do celular, dirigir embriagado e outras coisas mais: “O aumento das multas de trânsito (…) é uma medida importante para tentar reduzir o altíssimo número de acidentes com vítimas”. Ao longo do texto há diversas afirmações no mesmo sentido, como “o rigor no combate às infrações justifica-se plenamente, em vista do elevado número de acidentes de trânsito nas ruas e estradas do País”, citando inclusive dados de mortes no trânsito e estudos relacionando o ilícito a riscos concretos de acidente. Diz também que “o fenômeno é universal e (…) vem sendo combatida com muito rigor em todo o mundo. A nova lei apenas adapta o Brasil a essa nova realidade”. Há só um alerta no final do texto (duas frases no último parágrafo) sobre o cuidado para que a ação não seja culminada numa “indústria”, por meio de ações educacionais. Quem ótimo texto!

Mas como o assunto foi tratado há alguns poucos meses? Para começar, vale notar que até muito recentemente não havia muita reverberação de informações como a redução dos limites de velocidade em diversos países (sob recomendação da ONU) e estudos sobre a letalidade de acidentes acima de 40km/h (o Estadão publicou recentemente um vídeo muito informativo sobre o assunto, mas infelizmente só depois das eleições). Mas sejamos mais específicos. Em 17/08/2016, por exemplo, o título de outro editorial do jornal já era claro (“muita multa, pouca educação”), e a única menção ao mérito da política de redução de velocidade era a seguinte frase: “o limite estabelecido para praticamente todas as demais vias [fora as marginais] é razoável e segue padrões internacionais”. O restante consistia em críticas às multas. Vamos a mais algumas diferenças entre esse editorial e o publicado hoje, ponto a ponto:

Antes: “Se a Prefeitura tivesse (…) preparando os motoristas para se adaptarem às novas regras, certamente não seria tão elevado o número dos multados”

Agora: “os motoristas tiveram tempo suficiente para se preparar para essa nova realidade, porque o projeto nesse sentido aprovado pelo Congresso, e amplamente divulgado, foi sancionado há seis meses”
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Antes: “O Departamento de Operações do Sistema Viário (DSV) vem atrasando o envio ao Detran de solicitações de quem conduzia o veículo, quando multado – se o proprietário ou alguém mais. (…) O problema é grave porque, em decorrência da multiplicação das multas, aumentou muito também o número de CNHs suspensas – 14 mil, em média, por mês”

Agora: “O aumento do tempo de suspensão do direito de dirigir, quando o motorista atinge 20 pontos na Carteira Nacional de Habilitação por causa de infrações cometidas, é mais uma medida que pode levar os motoristas a serem cuidadosos. O prazo de suspensão passa de um para seis meses”
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Antes (esse de um editorial de 10/mar/2016, “mais radares e multas”): “A multa, por si só, não educa. E a melhor prova disso é o seu próprio aumento constante e acelerado. Se elas sozinhas educassem, teriam de estar diminuindo.”

Agora: “Para o especialista em trânsito Paulo Bacaltchuck, a multa certamente vai ajudar, ‘porque o bolso é o que mais pesa na tomada de decisão do motorista’”.
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Aí o editorial de hoje diz “mas para melhorar esse quadro desolador é preciso mais do que apenas elevar o valor das multas (…) A isso é indispensável acrescentar a melhoria da fiscalização”. E eu pergunto: vai fiscalizar com educação ou agora o radar e os agentes da CET de repente viraram bons instrumentos auxiliares?

Note que não estou dizendo que os textos são necessariamente contraditórios – apesar de serem algumas vezes. Apenas chamo atenção que a escolha da pauta e de como abordar o assunto define a ideia que se quer passar (escrevi um post sobre isso no meu blog, chamado “pauta já é discussão”). E para mim o objetivo, há alguns meses, não era informar o cidadão.

 

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia. Bookmark o link permanente.

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