The closed Brazilian mind

Via The Crooked Timber, eu fiquei sabendo dessa debate entre intelectuais americanos, um negro e outro branco, sobre a questão do negro nos EUA na era Obama. Coates escreveu um primeiro ensaio, ao qual Chait respondeu, Coates fez uma réplica e Chait um tréplica.

Eu recomendo bastante a leitura. Não somente pelo conteúdo, mas também pela forma como o debate é feito. E também para termos como uma referência para reproduzirmos um debate similar aqui no Brasil, mas dentro de nossa realidade. E nem estou pensando apenas na questão dos negros daqui, mas também da questão de classe ( o gêmeo mais velho da questão racial, como lembrou um comentarista do The Crooked Timber na thread que me fez saber desse debate entre Coat e Chait).

Lendo os argumentos trocados entre os autores, é difícil não lembrar dos argumentos utilizados aqui no Brasil a propósito do Bolsa Família, por exemplo. Além do ridículo “é preciso não só dar o peixe, mas também ensinar a pescar”*, as recorrentes menções aos incentivos a terem filhos, não trabalharem etc. que o Bolsa Família daria aos beneficiários (sem falar no uso do nome bolsa-esmola) são ilustrativas do tipo de diagnóstico que anima os debates sobre essas políticas aqui no Brasil. Espero que tenhamos nosso Coates a derrubar esses e outros mitos em praça pública, isto é, nos meios de comunicação mais importantes do nosso país.

*O fato de que pessoas educadas utilizam um argumento tão sofisticado quanto um provérbio popular é um demonstrativo poderoso da pobreza intelectual do nosso debate.

 

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Comentando um comentário do Tyler Cowen sobre o livro do Piketty

O Drunkeynesian estava certo quando disse que o livro do Piketty seria o novo candidato a livro mais discutido (e menos lido) da década. Eu pelo menos vou fazer minha contribuição para tanto, já que não li o livro e vou comentar um comentário, do Tyler Cowen.

Um dos argumentos do Piketty, aparentemente, é que a taxa de crescimento da economia, g, tem sido menor que a taxa de retorno sobre o capital, r. Um corolário desse fato é que a renda do capital tem aumentado como proporção da economia como um todo, em detrimento da participação dos salários.

O Cowen nota que é preciso considerar o retorno sobre o capital ajustado para o risco. Do ponto de vista individual, ele está claramente correto, pois uma coisa é o retorno de um investimento em títulos do governo americano, e outra coisa é o retorno no mercado de ações brasileiro. O segundo é muito mais arriscado que o primeiro e, em equilíbrio, deve ter um retorno mais alto para compensar o risco.

Porém, do ponto de vista agregado, não sei se faz sentido. Ele obviamente sabe muito mais de economia do que eu, mas será que ele não cometeu um erro básico aí? Voltemos ao meu exemplo acima pra ilustrar meu ponto.

Simplificando bastante, vamos imaginar que um título do governo americano renda 1% ao ano e seja livre de risco. E que no mercado acionário brasileiro, 99% dos investimentos dão retorno zero (você recupera apenas o capital investido), e 1% dá um retorno de 100%. Ou seja, se 100 pessoas investirem no Brasil R$ 1000,00 cada e cem pessoas investirem nos EUA R$ 1000,00 cada, e ignorando a variação cambial por um momento, então esperamos que dos cem investidores no Brasil, 99 ganhem zero e 1 tenha um retorno de 100%. Ou seja, dos cem mil investidos no Brasil (cem pessoas x mil reais), no final teremos um retorno de 1 mil reais + os cem mil investidos. Já nos investimentos nos títulos americanos, temos um retorno de mil reais, mais os 100 mil investidos. Ou seja, em média o retorno é equivalente, e é isso que significa ajustar para o risco.

Ainda continuando com esse exemplo, qual o retorno médio dos investimentos nessa economia com apenas dois setores? Ora, 1%. Mas faz sentido falar em ajustamento para o risco quando se olha a taxa agregada de retorno? Not at all! 1% é a média, após o ajustamento para o risco, pois o risco faz justamente com que muitos investimentos não deem certo, e a média já traz esse resultados dos riscos e dos retornos maiores para o risco.

Alguém saberia me dizer onde estou errando? Ou o Tyler Cowen é quem está errando?

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Piketty e a Desigualdade

Comentário do Drunkeynesian a uma apresentação do Piketty sobre o novo livro dele, que trata da desigualdade. É um livro que vou querer ler o mais rápido possível. Aliás, deve ter um seminário no The Crooked Timber sobre o livro. Aviso aqui quando tiver notícias.

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Tosses noturnas e catarro na mesa de jantar

A tosse não me deixa dormir durante a noite. Os pulmões estão congestionados pela gosma amarela, mas não suficientemente para evitar a tosse seca. Ao acordar, hesito entre sair para mais um dia enchendo a cara e ficar em casa, convalescendo. Escolhi a última opção.

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Diante do computador, assisti ao primeiro episódio da quarta temporada de Game of Thrones. Um belo episódio sobre recomeço. E afinal, não se trata sempre, de recomeçar?

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Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, que já no título do livro usa uma fórmula redutora típica dos integrados, caracterizaria os apocalípticos como aqueles críticos de tudo, admiradores de uma alta cultura perdida para sempre. Uma crítica que é, no fundo, conservadora, pois ao negar qualquer possibilidade de grandes mudanças, ajuda a conservar o estado de coisas. Restaria apenas aos apocalípticos a consolação de pertencerem aos poucos escolhidos a perceber a situação. A piscada de olho já não seria Kitsch. Eles saberiam se reconhecer, como num aperto de mão Maçom.  Alias, seria o Aécio Neves um apocalíptico?

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Hoje em dia, Reinaldo Azevedo é um integrado – afinal está a serviço da manutenção da ordem reinante -, mas que usa da fórmula apocalíptica. É meu grande amigo Rodrigo Ará quem, via Facebook, traz um adjetivo que poderia ser usado por Eco numa atualização do seu já antigo livro: é um débil petulante.

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Rodrigo Constantan, outro que escreve em Veja, aparentemente cunhou o termo “esquerda caviar”. Ele é tão patético em sua auto-promoção[1], que diferentemente do tio Rei, seria antes um patético petulante, ao invés de um débil petulante.

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Por outro lado, olha a potência do Funk e da Valeska Popozuda. Comparem uma coisa e outra. Quem, nos tempos de rede social, ousa dizer não sei? Aparece mais quem é mais opinoso e opina com mais ousadia e certezas.

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Mas vivemos um recomeço. Diz o Bob Black que, pré-golpe de 64, o Brasil vivia uma era de recomeços. E que a marcha pela família com Deus pela Liberdade não foi furto apenas de gente estúpida. Pelo contrário, a ameaça era real. Naquele tempo, as moças vindas do interior preferiam trabalhar na indústria a se sujeitarem a serem empregadas domésticas. E quem ousaria suportar a altivez das domésticas? Quem o filhinho delas iria estuprar na iniciação sexual deles? Tome marcha da família. O recomeço foi abortado.

Mas o governo Lula trouxe o recomeço. Novamente as domésticas não querem mais ser empregadas domésticas. E vem o péssimo gosto musical do Funk, a falta de educação à mesa requintada do avião, os rolezinhos nos shoppings. A Classe C vai ao shopping, poderia ser um filme. Tudo isso enquanto os 1% ganham mais dinheiro do que nunca. É o recomeço.

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O melhor do Brasil são os brasileiros. E o pior também, pelo visto. Eu não sou protagonista do recomeço, mas estou adorando participar dele, de longe, como membro da classe média que aprendeu nos bancos escolares a alta cultura (diferentemente dos verdadeiros pertencentes da alta cultura, que aprendem de berço). Ainda hoje eu luto para não cruzar os talheres no prato depois de comer nos restaurantes.

[1] Eu ia oferecer um link da carta aberta (sic) dele à Letícia Spiller, mas não quero dar pageviews para ele. Então colo aqui um trecho da carta.

Prezada Letícia,

Antes de mais nada, gostaria de dizer que admiro seu talento como atriz e também te considero muito bonita. (…)

Ontem, sua casa no Itanhangá foi assaltada por bandidos armados, que lhe fizeram de refém enquanto sua filha dormia logo ao lado. Lamento o que você passou, pois deve ser, sem dúvida, uma experiência traumática. Nossa casa é nosso castelo (…)

Como você talvez saiba, sou o autor do livro Esquerda Caviar, que fala exatamente de pessoas com seu perfil (aproveito para lhe oferecer um exemplar autografado, se assim desejar).

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Sobre o ensino

Hoje em dia todo mundo fala que educação é importante. E no entanto, há quem questione o significado de fazer um curso superior. Será que realmente aprenderemos algo que poderá ser aplicado na prática? Iremos realmente sair mais sábios da Universidade? E há diferença entre curso técnico e, digamos, curso científico? Ou ainda, curso científico e curso humanista?

Eu não pretendo responder a todas essa perguntas, mas gostaria de dizer pelo menos um ponto onde acho que a Universidade ou, mais especificamente ,um curso superior muda a vida da gente. Para mim, o ponto central se resume ao aprendizado de modelos mentais.

Como a realidade é muito complexa e multidimensional, nós precisamos criar enquadramentos ou modelos mentais de como o mundo funciona. E então passamos a pensar e interpretar o mundo a partir desses modelos mentais. É por isso que economistas vão achar que é tudo uma questão de incentivos (e frequentemente incentivos monetários). Se você – como eu – tem aprendido bastante sobre psicologia (mas a psicologia irmã da economia, daquela feito por Kahneman e cia.), então o enquadramento é o de vieses, heurísticos, racionalidade limitada. Ou se você tem uma pegada mais matemática, você pode pensar as coisas em termos de otimização, máximo local, máximo global.

Então, o que o ensino superior – se bem feito – lhe proporciona é uma série de repertório com que interpretar o mundo. Cada curso vai fornecer um repertório diferente e uma ênfase diferente sobre os múltiplos aspectos que formam a realidade. Essa é a razão, aliás, porque eu acho que na Universidade, não se trata de aprender uma profissão no sentido de adquirir conhecimentos práticos. Se trata de aprender a pensar de uma certo jeito, de forma abstrata. Aplicações do conhecimento são coisas legais, claro, mas o fundamental é aprender um certo modo de pensar. E saber que, a depender do curso – a própria abstração da realidade faz parte do modo de pensar que se deve aprender. Em outras palavras, o modo de se pensar é de forma bastante abstrata.

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Primeiro Beijo

Via kottke, uma diretora pediu a 20 estranhos que se beijassem e filmou os beijos. Muito legal. Bem bacana mesmo.

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Recaptcha: o poder da internet

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