Tortura

Depois de ler um tuíte falando que a Dilma foi terrorista, lembrei desse texto do NPTO, que destaco aqui umas partes. E vi também que o Videla, ditador argentino, morreu hoje. E aí, também via twitter, o@arielpalacios trouxe vários tuítes de como eram as torturas na argentina. Copio-os aqui. Mas alerto, é muito forte. Não leia se não quiser ficar deprimido. Mas não podemos jamais esquecer.

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones.

Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura

Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos

Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Uma das mais temidas era o “saca-rolhas”, que consistia na introdução de um aparelho pela via anal…que ao ser puxado para fora, arrastava junto as vísceras.

Teresa, uma das prisioneiras que morreu na Esma era violada cada vez que ia ao banheiro.

“Se ela ia uma vez, a estupravam nessa ocasião. Mas, se, horas depois, ia de novo, era novamente violada. Todas as vezes que ia ao banheiro, era impreterivelmente estuprada. Todas”, relata Enrique Fuckman, ex-detido das masmorras da Esma

As mulheres, ocasionalmente recebiam a opção de serem estupradas ou de serem eletrocutadas na parte interna da vagina e ânus.

Agora, trecho do texto do NPTO.

quantas democracias ocidentais estavam dispostas a dar armas para quem quisesse combater a ditadura no Brasil? Foda-se o regime que você defende aí pra sua casa, ou na sua tese de doutorado, se você defender o pior regime para o meu país. Quem dava armas para a luta brasileira era Cuba, Argélia, enfim, regimes de esquerda. Era difícil não ter simpatia por essas coisas, em especial porque o MDB só começou a ficar interessante nos anos 70.

Um bom reflexo disso hoje em dia é o pessoal de esquerda que fica chamando todos os dissidentes de Cuba de agentes da CIA. Digamos que sejam (o que, obviamente, não são, ao menos todos): vocês queriam que eles fizesse o que? Se impressionassem com o imenso apoio que todo dia damos aos caras nas publicações e blogs de esquerda, e reconhecessem (lá da cadeia) que as políticas sociais do regime até que são boas? Não é mais natural que simpatizem com os EUA, que denunciam a ditadura que os governa? E não adianta dizer que os EUA fazem isso por interesse, porque a URSS também não dava ponto sem nó.

Além do mais, quem havia produzido o argumento definitivo contra a esquerda democrática brasileira foram os golpistas de 64. Jango era um péssimo presidente, mas levantou algumas bandeiras caras à esquerda, e as mesmas forças que haviam tentado derrubar todos os presidentes do período democrático, não importa o quão moderadas fossem, meteram os tanques no palácio. A mensagem principal do movimento de 64 era que o Brasil até poderia ter democracia, mas não era para a esquerda se entusiasmar com ela: se algo progressista pintasse na área, ia para o porão com o Fleury.

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It seems that Chicago isn’t better than San Francisco after all

Attention Notice: O que segue é uma looonga crônica dos meus dias em São Francisco, pontuadas por interrupções da narrativa com meus pensamentos. De interesse para ninguém, provavelmente.

I arrived in San Francisco early in the morning. Às vezes eu acho que algumas frases têm de ser ditas em outro idioma. Pode ter um pouco de pedantismo nisso, confesso. Mas é mais uma questão de expressar com exatidão um pensamento. Ou mesmo como a palavra soa em português ou no outro idioma. Às vezes o inglês é melhor pra isso, às vezes não.

Mas como eu dizia, cheguei cedo pela manhã em São Francisco. Durante toda a viagem volte e meia me acometia um sentimento de solidão. Mas não foi uma viagem triste. Não sei descrever exatamente como me senti. Suponho que essa escrita seja também uma forma de me ajudar a entender meus próprios sentimentos, to make sense of the world. Deve haver uma maneira de dizer isso em português, to make sense of the world. Mas agora não me vem nada à cabeça. Suponho que essa inserção de palavras ou frases em inglês no meio do texto dizem mais da minha incapacidade de expressar em bom portugês o que quero transmitir do que qualquer novo estilo literário refreshing. Outra alternativa seria escrever tudo em inglês. Mas não apenas alienaria uma parte dos meus leitores do blog, como também impediria de empregar palavras e frases que ficam melhor em português do que em inglês. Mas creio que desviamos demais do caminho original desse texto e é hora de voltarmos a ele.

Antes de chegar em São Francisco eu passei pelo aeroporto de Houston. É difícil que um aeroporto seja um lugar marcante. Afinal, foi feito para que as pessoas passem e que nada fique. Mas me surpreendi ao ver uma loja da Fox News. Eu fiquei imaginando a aberração que seria, no Brasil, uma loja da Globo, SBT, Record… Já imaginaram isso? Caneca da globo, camisa da globo, caneta da globo! Fiquei imaginando uma camiseta com aquela frase comemorativa dos 25 anos da Globo, “25 primaveras juntos, junto com você“… no, thanks. It made me wonder though about what that meant about Americans… Mas como dizia, um aerorporto é hardly remarkable e isso foi tudo que levei de Houston.

Em São Fransico fiquei com as palavras de um amigo na cabeça, dizendo que Chicago era uma cidade melhor que São Francisco. E por mais que meu espírito contrarianista me fizesse discordar a priori, aquelas palavras ressoavam em minha cabeça e, não fosse pelo sábado, creio que teria sido essa a minha opinião. Mas não adiantemos as coisas.

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Cheguei na cidade, peguei o Bart – um trem que leva do aeroporto para downtown e outras cidades próximas. Dependendo do seu destino, você paga um valor maior ou menor num máquina que emite seu ticket. Ou seja, você escolhe quanto quer pagar, podendo mentir pra máquina – faz sentido isso, mentir pra uma máquina? – e pegar um bilhete que custe menos do que seu destino efeitvo supostamente deveria custar. Eu paguei o valor certo, esperei o trem chegar e embarquei para o Hostel. Na saída da estação Powell, onde desci, vi que tinha de inserir o bilhete na catraca de saída para poder sair. Ou seja, não se confia tanto assim na honestidade humana. E eu não sei o que aconteceria comigo se eu tivesse escolhido um valor errado. Mas paguei o valor devido e sai normalmente. Fui para o Hostel, me perdendo um pouco no caminho, mas logo cheguei. Meu check in era apenas às 2 pm e havia chegado por volta das 10 am, então deixei minhas malas no Hostel e fui passear.

Primeiro procurei o hotel da conferência que vim participar. Depois andei nas ruas próximas para conseguir andar por lá sem me perder. Quando chego numa cidade nova, eu gosto de o mais rapidamente possível ter uma sensação – ilusória – de que sei andar nela, de que consigo me localizar. Assim, eu andei até a Market street, uma das principais ruas de San Francisco – leva você ao centro financeiro da cidade, bem como à baía e ao ferry boat, fui até à baía, tirei umas fotos com meu tablet – meu celular, que era onde eu planejava tirar minhas fotos estava com a bateria descarregada e ficaria assim toda a viagem – e voltei pro Hostel, após um almoço rápido e ruim no Burger King. Eu realmente gostei da Market street. Talvez porque foi a primeira rua que encontrei quando saí da Powell station assim que cheguei à cidade, talvez porque andamos nela de bicicleta -sobre isso mais daqui a pouco -, mas eu gosto de acreditar que foi por causa do sotaque British com que uma atendente numa livraria que fui falou “Market street”. Eu não gostava muito de sotaque British, mas passei a gostar depos que a Paula morou na Inglaterra. Hoje, tudo que é British sempre me lembra os momentos adoráveis que passamos lá. Então, longe de casa, Market street com sotaque British soava como algo familar, ainda que inusitado de ouvir aquele sotaque em San Francisco, que parece tão longe da Inglaterra. Eis, talvez, porque eu vim a adorar andar pela Market street. Em minha cabeça, Market street se pronuncia com sotaque British.

Anyway, fiz meu check in, e pedi uma informação na recepção onde teria uma livraria com livros de matemática e ciência.  Eu estava atrás na verdade do novo livro do Nathan Yau sobre visualização gráfica, mas achei específico demais falar isso em meu pedido de orientação para achar uma livraria. A recepcionista me mandou para uma rua chamada Broadway com a Columbus avenue, e tive que subir umas ladeiras para chegar lá, passando por Chinatown antes. A livraria era really lovely, daquelas do tipo small business de quem gosta de livros. Infelizmente, porém, não havia a mais remota chance daquela livraria ter o livro que procurava. Foi quando perguntei à atendente onde poderia encontrar o livrto que estava procurando e ela me recomendou ir à Alexander Bookstore, na Market street. Com sotaque British. Talvea por isso tenha comprado um livro do George Orwell, um dos autores mais British que conheço, para dar pra Paula. Afinal, como mostram os psicólogos, nosso inconsciente é quem toma a maior parte das decisões em nossa vida.

Fui para a Market, mas não achei logo a livraria. Cheguei a perguntar a algumas pessoas que andavam por lá, mas obviamente ninguém sabia onde ficava essa livraria. But it’s a no wonder, afinal, eu estava no centro financeiro, e as pessoas do centro financeiro não saberiam onde ficava um livraria indicada por uma atendente de outra loja que tinha sotaque British. Finalmente achei a livraria após consultar o google maps. Ficava na second st. com a Market. Cheguei momentos antes da loja fechar e infelizmente não tinha o livro que procurava. Mas tinham outro do Nathan Yau e comprei memo assim, pois deve ser útil também.

Nos dias seguintes, quinta e sexta, passei a maior parte do tempo na conferência. No fim da tarde e à noite, comemos, bebemos, conversamos e fizemos algumas compras. O Alexandre era uma excelente companhia.

Mas foi no sábado que realmente mudei minha opinião sobre San Francisco. Eu estava achando a cidade cara e menos charmosa do que eu esperava em minha imaginação. As palavras do meu amigo pareciam se confirmar. Chicago era melhor que São Francisco. Mas nós tínhamos combinado de alugar uma bicicleta cada um para fazer um passeio até a famosa Golden Gate Bridge, aquela ponte vermelha com aqueles cabos de aço que vemos nos filmes e que é um dos cartões postais da cidade, e que São Paulo copiou porcamente com o estilingão em frente à Rede Globo.

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O Alê havia tentado fazer o passeio anos antes, mas não tinha dado certo. É um percurso longo e cansativo. As pernas doem e, principalemente, sua bunda e coxas ficam doendo de ficar pedalando por horas. Mas a vista maravilhosa, combinada com a sensação de superação do desafio, fazem com que o passeio ser indescritível. Como a ponte fica no topo de um hill, é um pequeno desafio subir até la de bicicleta sem desmontar dela no meio do caminho e ir empurrando-a. No meio do caminho há algumas paradas estratégicas, como o forte no pé da ponte e o Presidio, que não é um presídio no sentido de prisão não. Depois é chegar na ponte, pegando mais umas subidas íngrimes, e curtir a travessia. Minha sensação é que de carro não teria tido a mesma graça. Além de poder olhar com calma a vista, o tempo para cruzar a ponte é uma combinação ótima entre vagarosidade para apreciar a vista e velocidade para não ter impaciência pela demorar em cruzar a ponte. E você ainda pode controlar esse tempo com mais facilidade que à pé ou de carro, pois o ajuste na velocidade de locomoção é adequadíssimo à bicicleta. De um lado não tem carros atrás de você pushing you to be faster. De outro não é preciso correr como louco para aumentar o ritmo quando necessário.

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Depois de cruzar a ponte ainda há uma descida em que você deixa a bicicleta levar você à alta velocidade, só controlando com os freios. E então chegamos a Sausalito, uma bela cidade, aparentemente um balneário para ricos, mas também cheia de turistas que fizeram o mesmo passeio que você.  Extenuados, atracamos nossas bicicletas num bicicletário e sentamos num restaurante de frente para o pacífico, onde comemos um swordfish. Foi o Alê quem me alertou que havíamos acabado de comer um peixe-espada, algo que não tinha atinado, apesar do nome deixar evidente, swordfish.

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Pegamos depois um ferry boat de volta pra San Francisco, até o Fishermans Warfs, evitando assim muitas subidas no caminho de volta. Mas ainda tínhamos de pedalar uns 4 km para devolver as bikes. A loja a qual alugamos as bikes fechava às seis, e embora não tivesse problema deixar as bikes depois desse horário, queria entregá-las antes da loja fechar. Assim pedalamos um pouco mais rápido do que na ida, passando pela baía de San Francisco, depois pela Market até Mason street, onde ficavam o Hostel e a loja. Chegamos às 6 pm, just in time.

No final da noite estava novamente sozinho. Tomei um banho, arrumei minha mala para viajar de volta na manhã seguinte sai para jantar. Acabei num restaurante que tinha Jazz ao vivo e que eu estava namorando de entrar nele desde o primeiro dia. Creio que é redundante dizer Jazz ao vivo. Seria estranho um bar com Jazz gravado. Mas era assim que estava escrito, live jazz.

Há muito tempo que eu queria ouvir Jazz nos EUA. Sounds like the real America to me. Sounds like me, I guess. Meio intelectual, meio de esquerda. Enquanto eu estava lá, sentado, tomando uma coca-cola e ouvindo Jazz, fiquei a observar as pessoas. Um casal de meia-idade tiveram a ousadia de dançar. Foi bonitinho vê-los dançando. Parecia amor de verdade. Havia ainda outra mulher, de meia-idade, que chegou um pouco depois, sozinha. Sentou numa mesa perto de mim, virou a cadeira em direção aos músicos, não se sentiu bem acomodada, se levantou e foi pro outro lado, onde havia um sofá azul. Estava empolgada e arriscava ums remelexos com os ombros e até uns passos de dança. Mas ela estava sozinha. E, por alguma razão misteriosa desse mundo, se não é balada, se é um restaurante com música ao vivo, mulheres de meia-idade não dançam sozinhas. Eu pensei em chamá-la pra dançar. Às vezes é preciso coragem para nos libertarmos de algumas amarras invisíveis que nos impdem de sermos felizes. Pensei, pensei… e nada fiz. Me faltou a coragem. São essas coisas que eu acho que me acompanharam duranter a viagem e que falei no começo desse relato. Às vezes é preciso ter a coragem pra dançar num live jazz. Não é nada, não é nada, mas já é alguma coisa. E vivemos cheios desse “não é nada”. Mas eu fiquei apenas ali, sentado, curtindo a música no meu canto. Até que decidi ir embora. Precisava arrumar minhas coisas pra voltar pra casa no dia seguinte.

Agora estou no aeroporto de Washington, DC, esperando meu vôo de volta para São Paulo. Aqui também, como em Houston, há uma loja de rede de tv. Da CBS. E também uma loja com souvenirs com temas políticos. Uma das canecas mais engraçadas tinha os dizeres: “don’t blame me, I voted for Romney”. Nada mais justo. It’s Washington after all.

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Sobre a redução da maioridade penal

Mais uma vez volta à baila a discussão sobre redução da maioridade penal. Esse post é uma tentativa de organizar meus pensamentos sobre o assunto, mais do que qualquer coisa.

Nessa discussão toda, eu vejo vários argumento se misturando e inicialmente talvez fosse bom separá-los em dimensões independentes. Vejo assim pelo menos 4 dimensões: 1. Efeito da redução da maioridade sobre a violência; 2. Justeza da diferenciação de responsabilidade de menores de 18 anos com atos de violência; 3. Qual a idade adequada para diferenciar maiores ou menores de idade perante a lei; 4. Qual a importância dessa medida em comparação com outras para reduzir a violência.

Organizando o debate desse modo, fica claro que alguém pode achar que 1. o efeito da redução da maioridade é positivo (isto é, reduziria a violência), achar porém que é justo diferenciar menores de não menores e achar ainda que o critério de diferenciação é, digamos 17 anos. Porém, eu chutaria que alguém com uma opinião dessas é bastante raro, porque apesar de tudo há alguma coerência ideológica entre as pessoas. Assim, quem tende a achar que a redução da maioridade tem um efeito causal sobre a violência, acha justo individualizar completamente a responsabilidade pelos atos das pessoas e não vê nada em especial nos adolescentes. Ou seja, é alguém de direita. Diria ainda que essa pessoa, se não for da elite, teve ela mesma de assumir responsabilidade por muita coisa desde cedo e não vê essa necessidade de considerar os adolescentes diferenciadamente.

Obviamente essa última parte prejudica um certo tipo de debate, porque entra em jogo um quinto elemento, que é uma questão simbólica sobre um reforço ou não de uma ideologia de direita. Ou seja, há um quinto elemento, que é o que a aprovação da redução da maioridade penal faz para simbologia das lutas políticas identidades sociais em formação. De fato, na famosa PEC das domésticas, a direita viu a mesma coisa em jogo e por isso a grita toda, mesmo quando eles não tinham qualquer argumento. Trata-se de disputar a identidade política da nova classe média, e também claro das elites tradicionais. Mas isso não torna o quinto elemento desimportante. Ele é importante, só não deve ser ignorado.

Nessa discussão toda, portanto, devemos nos informar tecnicamente sobre os itens 1 e 3, pensar os valores nossos sobre o item 2 e 4, e por fim considerar dentro do contexto político o item 5. Qualquer discussão que não tenha bastante claro todos esses itens e não deixe claro sobre qual ponto se está discutindo não irá fazer avançar o debate nem a formação de posição entre os menos informados.

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Capitu

Clipe com cenas da série Capitu, personagem do meu livro favorito de todos os tempos, do meu autor favorito também. Dom Casmurro, de Machado de Assis. Eis um livro que não me canso de reler.

 

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Chipre!

Meio desavidamente descobri que o Chipre está em crise! Estou tentando entender exatamente qual é o problema e quais são os dilemas de lá. Pelo que pude entender, é uma crise bancária, à lá Islândia, ou seja, bancos com dívidas maiores que o PIB do pequeno país. E o pior, nesse caso, é que salvar os bancos (fazer o proer deles lá) significa salvar o dinheiro do correntista… russo! Isso mesmo, dos milionários russos que enriqueceram de forma suspeita (pra dfizer o mínimo) após as privatizações das empressas estatais russas.

Aparentemente também as medidas iniciais são um resgate aos bancos, mas impondo perdas aos correntistas (depósitos de mais de 100 mil euros perderão quase 10%). Mas os depósitos supostamente segurados (abaixo de 100 mil euros) também terão perdas, de algo em torno de 6%. A especulação natural é se os correntistas de Espanha, Grécia, Portugal e Itália correm o mesmo risco e se, portanto, não é aconselhável retirar o dinheiro das suas contas. Eu tiraria meu dinheiro, ainda mais se tivesse medo de perder o emprego. Mas como argumenta o drunkeynesian no link acima, é muito difícil antecipar o que irá acontecer. Ou, como dizem duas frases que gosto muito: “prediction is hard, especially about the future” e “everything is obvious, in retrospect”.

A The Economist acha que o acordo final foi ruim. Eu sinceramente tenho pouco a acrescentar, exceto compartilhar com vocês que, a despeito do meu usual otimismo, estou ficando um pouco pessimista. Eu já tive meus surtos de pessimismo aqui no Blog antes, e, pelo menos por enquanto, nada do que eu previ aconteceu. Espero que continue assim. Termino o texto com mais uma frase gringa que eu gosto: “Things continue, till they don’t”.

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Frequentistas vs Bayesianos

E estatísticos do mais alto gabarito falham em concordar sobre uma definição (definição de p-valor). Bayesianos argumentam (corretamente, em minha opinião, mas ela aqui certamente pouco vale) que o p-valor é uma probabilidade condicional, enquanto que os frequentistas negam que é uma probabilidade condicional.

Até o momento desse post são 134 comentários no blog do Gelman! Vale a pena ler também o texto do (frequentista) Larry Wasserman e os comentários.

 

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O que define uma democracia?

No post anterior, eu falei rapidamente sobre o que faz um país ser democrático ou não. Com um pouco mais de tempo, gostaria de escrever algumas linhas sobre o assunto.

Há várias abordagens para se analisar uma democracia. Podemos pensar num contínuo de países e/ou organizações mais ou menos democráticas e definir quais dimensões caracterizariam esse contínuo e ter um referencial de qual seria o máximo e o mínimo de democracia possível. Essa é a abordagem do Robert Dahl e pode ser encontrada no seu excelente livro Poliarquia. Não por outro motivo Dahl usa o termo poliarquia para caracterizar as democracias realmente existentes e reserva o termo democracia para um ideal ou referencial não alcançado (alcançável?).

As duas dimensões tradicionais utilizadas pela ciência política para analisar uma democracia (ou poliarquia) seriam a inclusão e a competição política. Quanto maior o sufrágio, por exemplo, maior a inclusão política e, portanto, mais democrático um país. Quanto maior a competição política entre grupos diferentes, também mais democrático um país. Ditaduras como a cubana, por exemplo, podem ter alta participação, mas reduzida competição política.

Nesse quadro conceitual, uma grande questão é determinar quais dimensões devem entrar na caracterização da democracia e qual o peso de cada dimensão. Qual o papel do controle da agenda das questões políticas, por exemplo? De que adianta um país com alta competição política e participação se as questões mais importantes estão excluídas do debate político? Ou qual o papel da imprensa livre? E como medir liberdade de imprensa? Como medir accountability e responsividade do sistema político? Enfim, é um debate grande e complicado e que envolve questões normativas sobre quais valores são importantes para caracterizar um país como democracia. O debate em ciência política que começa a ampliar o quadro conceitual do Dahl, parece-me, discute a qualidade da democracia.

Uma outra abordagem, e que me agrada mais, é adotar uma concepção minimalista de democracia e procurar entender o que faz um país ser democrático (dentro dessa conecpção) e quais as consequências/implicações de uma democracia minimalista. Na concepção minimalista, normalmente considera-se como crucial a existência de competição política. A ideia, parece-me, está no fato de que se pensa a democracia como uma solução em que os atores políticos desistem de conseguir vitórias por meio da força e aceitam fazê-lo por meio da contagem de votos. E que para que os atores aceitam tal solução é fundamental que eles acreditem que é possível conquistar o poder por meio do voto.

É claro que essa abordagem já traz em si a investigação sobre a estabilidade de democracias (assim definidas) e também de investigar quais as consequências de um tal regime sobre a desiguldade, crescimento econômico etc. E de outro lado as questões normativas de qualidade da democracia ficam um pouco esquecidas.

Independentemente, porém, de qual abordagem se adote, qualquer discussão que envolva a democracia deveria partir de um acordo prévio sobre que tipo de democracia estamos falando. De democracia numa concepção minimalista ou de democracia numa perspectiva normativa de qualidade da democracia. Usar a mesma palavra para significar duas coisas diferentes só vai dar margem para confusão.

No caso de Cuba, quando digo que é uma ditadura e o Brasil não, claramente estou pensando numa concepção minimalista. Quando se pensa, contudo, em qualidade da democracia e várias dimensões, é bem possível que em uma ou outra dimensão Cuba seja melhor que o Brasil, do mesmo jeito que o Brasil seja melhor que os EUA. Nesse sentido, nunca me esqueço de um seminário com um famoso cientista político europeu no Brasil, em que ele saldava como grandes inovações que melhorariam a qualidade da democracia na Europa o que ele chamou de “opção do None na cédula” e a “loja do cidadão”. A primeira inovação permitiria ao eleitor expressar melhor seu descontentamenteo com os candidatos nas eleições. E a segunda seria uma arma contra os problemas que o cidadão enfrente quando lida com a burocracia ou o aparelho de Estado. Pois bem, temos no Brasil há bastante tempo o voto nulo e o poupa tempo, que são afinal as tais inovações de que ele falava, e ninguém leva muito a sério a ideia de que a qualidade da democracia brasileira foi muito melhorada com essas duas instituições. Moral da história, quando se pensa em qualidade da democracia, o que se passa por bom lá fora não o é aqui e vice-versa, o que dificulta comparações.

Para concluir um posto meio confuso, os pontos principais são:

1. Concepções minimalistas de democracia permitem comparações mais facilmente.

2. Porém, como é um termo carregado politicamente, normalmente se fala de democracia no sentido de qualidade da democracia. E aí a comparação é muito mais difícil.

 

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