Uma das discussões sobre o campeonato brasileiro por pontos corridos diz respeito ao efeito das decisões nas audiências (televisivas e de público). O argumento dos críticos do atual sistema é mata-mata é mais emocionante, elevando a arrecadação e audiência.

Bom, não sei quanto à audiência na TV, mas eu resolvi olhar os dados para público nos estádios. O gráfico abaixo mostra os dados para o brasileirão de 2009. Os dados eu retirei do site da CBF.

Como se pode perceber pelo gráfico, até a 35a rodada, há uma tendência clara (linear) de crescimento do público nos estádios com a reta final do brasileirão. Isso indica, entre outras coisas, que o torcedor encara a fase final do Brasileirão como decisão, o que enfraquece o argumento dos críticos do atual sistema de pontos corridos.

Confesso a vocês que ando um pouco viciado demais em Twitter, algo que me deixa um pouco preguiçoso para escrever no blog, mas eis que chegou o momento de desenferrujar os meus posts.

Em alguns pequenos debates que tive com meus amigos e seguidores por lá, conversavamos sobre o bom humor e o mal humor das pessoas, e foi ai que comecei a pensar muito sobre o tema… Como todos que me conhecem pessoalmente sabe, sempre fui uma pessoa cética, com choques extremos de realidade e considerado por muitos como pessimista. Sempre achei esse rótulo um pouco excessivo, mas com o tempo pude perceber que ele é mesmo verdadeiro.

Não entendendo como pessoas podem acordar todo dia de bom humor tendo em vista o mundo que vivemos. Não falo que as pessoas não deveriam agradecer pelas graças individuais que cada um de nós possuimos (boa saúde, sustento, familia, o amor dos amados, etc.), mas acho que o humor e o modo de encarar a vida tem que refletir não apenas o seu interior e as suas conquistas mas também o mundo em que vivemos. A análise tem que ser sempre conjunta, você mais o mundo, as dores do mundo são suas também ( e claro os eventuais beneficios também)…

Estruturalmente olho pro mundo e não o vejo com bons olhos. Às vezes acho que ter a percepção de que a vida é ótimalevando em consideração apenas os nossos gozos individuais seria uma reflexão um pouco egoísta. Tenho total gratidão por tudo o que tenho, sinto-me extremamente privilegiado, mas ao mesmo tempo sinto-me responsável pelo mundo a minha volta. E do mundo vem grande parte do mal-humor e do pessimismo…

Acabo por achar que a pessoa bem humorada e otimista, tende apenas a enchergar os beneficios particulares que a vida lhe proporcionou, desconsiderando o mundo… Ou mesmo, acabo por considerar o bem humorado como alguém incapaz de ter um arcabouço lógico suficientemente forte para provar de onde vem a sua esperança e mesmo assim a tem (esperança em relação ao mundo e não em relação a um beneficio particular). Talvez, o Manoel definiria como otimismo injustificado, mas é isso, um otimismo que não se pode provar.

É só o começo, retornarei a esse assunto…

Por fim, com a genialidade de Drummond, deixo um poema que aborda muito do que apenas consegui arranhar.

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite

Acabei de assistir ao episódio mais recente da sexta temporada de House. Considerei um episódio ruim, por árias razões que não vou explicar em detalhes para não dar muito spoilers (mas atenção, há spoilers). O mais importante é que, aparentemente, os roteiristas tentaram fazer uma mudança (que eu gostei) no personagem, não deu certo, e agora voltaram atrás pra reconquistar a audiência. Era uma mudança importante do ponto de vista da construção psicológica do personagem, mas que com o retrocesso será jogada no lixo, destruindo no processo a coerência do personagem e estragando a estrutura narrativa. Tudo por causa da audiência.

Tudo isso apenas lembra os problemas da cultura de massa e indústria cultural e blablabla. Na hora eu pensei que é uma pena que nos tempos modernos (penso no séc. XX) as narrativas sejam influenciadas pela Massa, prejudicando a coerência dessas obras.

Pois bem, aí lembrei que no séc. XIX os folhetins eram modificados em virtude da reação das massas, exatamente como agora, só que sem o rigor estatístico. Então pensei que o conhecimento da história de fato é importante. Não é nada, não é nada, mas ter perspectiva histórica na hora de avaliar as coisas ajuda a trabalhar melhos seus sentimentos e atitudes diante de fatos pequenos.

A história pode não ser uma ciência como a estatística, capaz de ser útil na política pública ou ação empresarial, mas ela é importante na formação cultural do indivíduo enquanto indivíduo. Sua utilidade não está em permitir controle do mundo, mas justamente em ajudar a viver na parte do mundo em que não temos controle.

 

Há algum tempo tenho falado pra pessoas mais fora do meu círculo social imediato que o socialismo que eu vislumbro não é o cubano, nem da URSS. Falo também que no meu socialismo terá coca-cola (o refrigerante, não a empresa como ela é hoje), e que o Estado não será o controlador dos meios de produção.

Embora esse aspecto negativo (o que não será) da coisa seja importante, parece-me que além de deixar as pessoas surpresas, é preciso colocar um pouco de conteúdo positivo nessa idéia. Não que eu pretenda resolver aqui o problema do que seria um novo socialismo, como se isso pudesse ser resolvido pela cabeça de uma pessoa. Mas se não houver algum conteúdo positivo claro, então é um conceito vazio e perde seu sentido. Assim, esse post é uma tentativa de explorar algumas idéias que tenho em minha cabeça.

O primeiro princípio fundamental do socialismo é a liberdade dos indivíduos. Não se trata de construir uma sociedade igualitária, mas sim de ampliar as liberdades. Mas em que sentido eu falo de liberdades?

Pra entender o que penso sobre liberdade tenho que falar o que penso sobre poder. Isso porém será uma longa digressão. Então, nesse primeiro post irei discutir a questão do poder. Depois, irei voltar à liberdade e, então, finalmente darei conteúdo positivo ao socialismo.

textos clássicos sobre o poder que falam das três faces do poder, a saber: a capacidade de A forçar B (coerção), capacidade de A limitar as escolhas de B (controle de agenda) e a capacidade de A alterar as preferências de B (ideologia).

A primeira face é muito óbvia e não quero discuti-la aqui. A terceira é muito complicada e também não vou discuti-la. Resta a segunda, que me é muita cara.

O controle de agenda por parte de um ou mais atores implica que esse ator detém a capacidade de alterar as opções à disposição de outro ator. Assim, ao determinar o leque de opções disponíveis, efetivamente um ator exerce poder sobre outro. Esse controle de agenda pode variar em graus, de forma que o tamanho do poder também irá variar. Um conceito fundamental para determinar o grau de controle de agenda é o de status quo

O status quo nada mais é do que a situação corrente, ou, mais precisamente, o que acontecerá se nada mudar, se nenhuma opção ou escolha nova for implementada. Isso é importante porque, se o controlador da agenda não for capaz de mudar o status quo, seu poder estará severamente limitado pelo status quo. Afinal, o status quo sempre será uma opção disponível de escolha por todos os atores, de forma que o controlador da agenda não conseguirá impor nada pior do que o status quo para os demais atores.

Há casos, porém, em que o status quo não é bem definido, ou ele não é uma opção de escolha possível, de forma que o controlador da agenda efetivamente dita qual será o status quo.

Tomemos um exemplo. Um assaltante interrompe um transeunte e, com uma arma, pede para o indivíduo escolher entre a vida (um tiro) e a carteira. Note que o assaltante alterou o status quo (o transeunte continuar seu caminho) e deu apenas duas opções (tiro ou a carteira), sem um status quo bem definido (se o indivíduo não fizer nada, o assaltante interpreta isso como uma escolha – não dar a carteira – e o mata).

Num certo sentido, o indivíduo é livre para escolher. Porém, suas escolhas são tão severamente limitadas que sua melhor escolha (racional) é muito ruim para ele. Não há dúvida que esse indivíduo irá escolher aqui que lhe deixa melhor. Mas falar em liberdade aqui, pura e simplesmente, é um pouco enganoso. A liberdade sempre deve ser entendida dentro de uma agenda previamente definida.

Assim, pra mim, a liberdade envolve não somente a capacidade de escolher suas próprias alternativas (tomas decisões), mas também a capacidade de elencar as alternativas disponíveis. Dada a primeira dimensão de liberdade, quanto mais um indivíduo controlar sua própria agenda, mais ele tem liberdade.

Tomemos outro exemplo. Um empresário que controla todos os estabelecimentos privados de uma comunidade decide que quem for trabalhar nesses estabelecimentos receberá um salário X. Uma pessoa dessa cidade pode escolher entre várias alternativas, sendo alguma delas: sair da cidade, não trabalhar, tentar fazer uma greve juntamente com outras pessoas, trabalhar etc. Obviamente essa pessoa tem mais alternativas se houver concorrência na cidade entre empresas para contratação de pessoas. Nesse caso, o empresário tem menos poder sobre as pessoas. Porém, se houver cooperativas em que a pessoa pode não somente procurar outro emprego, mas também tem a opção de influenciar o salário ser pago aos trabalhadores, menos poder terá o empresário. Por fim, se a pessoa for rica ou tiver uma fonte de renda segura, melhor o status quo pra ele e, portanto, menor o poder do empresário sobre ela. Em todos os casos, quanto mais opções um indivíduo tiver, e quanto mais as opções estiverem próximas do que é melhor pra si, menos outros detém poder sobre ele.

Como procurei mostrar por meios dos exemplos e da argumentação, a liberdade está relacionada tanto com a capacidade de um indivíduo tomar suas próprias decisões e implementá-las, como também com o elenco de opções disponíveis. Quanto mais opção um indivíduo tiver, mais poder ele tem sobre si mesmo. Quanto mais poder sobre si mesmo ele tem, mais livre ele é. Além disso, espero ter mostrado que uma opção em particular é fundamental na determinação do poder de um indivíduo sobre si mesmo: como o status quo aparece para ele. Se o status quo beneficia esse indivíduo, outros têm uma capacidade restrita de exercer poder sobre o indivíduo. Se porém o status quo lhe é prejudicial, então maior a capacidade dos demais exercerem poder, especialmente se eles puderem controlar a agenda das opções disponíveis.

No próximo post sobre o assunto desenvolverei melhor o link entre poder e liberdade.

 

 

 

 

Creio que já falei do wordle aqui. É um site que faz um gráfico de texto. Você pode colocar um texto seu ou uma url, como de um blog. Coloquei a url do nosso blog, pra ver o que saia. Eis o gráfico: wordle do Blog

Ou você pode acessar o gráfico o  diretamente do site do wordle.


Nos últimos posts fiz críticas aos trabalhos dos outros. E uma das coisas que peguei no pé dos outros foi o uso de tabelas feias ou gráficos feios. Mas, como criticar é sempre mais fácil que fazer, é hora de matar a cobra e mostrar o pau!

Apresento abaixo alguns gráficos sobre a assinatura dos países para um tratado internacional de Patentes, a Convenção de Paris, de 1883. Esses gráficos mostram os resultados que foram reportados numa reportagem no site da USP sobre minha tese de doutorado (na verdade a reportagem é sobre uma pesquisa que envolve minha tese).

O primeiro gráfico mostra o comportamento de todas as autocracias (daí o ‘A’ vermelho) no mundo, no período de 1950 a 2002 que assinaram e não assinaram o tratado. O segundo gráfico é parecido, só que para democracias.

Como se pode observar, todas as democracias muito ricas assinaram o tratado. E poucas democracias de renda intermediária não assinaram o tratado, comparado com as que assinaram.

O inverso acontece para as autocracias ricas. A maioria delas não assinou o tratado.

renda e regime 4 paris

renda e regime 5 parisps.: Esses gráficos eu fiz no R. Se alguém quiser o script, eu passo. É só me pedir por e-mail ou nos comentários. O script não é lá muito eficiente, mas funciona, hehe.

ps.2: Se alguém tiver interessado na pesquisa, eu posso enviar um artigo que escrevi e ainda não foi publicado (e tem uns gráficos feios que eu vou substituir por esses mais bonitos).

ps.3: Se alguém só quiser tirar dúvidas metodológicas (por exemplo, como classifiquei o que era um país democrático e o que era autoritário), só mandar e-mail ou escrever nos comentários.

ps.4: respondendo à pergunta do post: não sei dizer, mas pelo menos nesse caso, apenas as democracias ricas são mais cooperativas que as ditaduras ricas. Não podemos falar isso para as democracias pobres.

Ainda na revista Dados, saiu um artigo de Tostes sobre o apoio dos eleitores aos (novos) partidos de extrema direita nos países ocidentais da União Européia. Como fiz no post anterior, vou fazer comentários metodológicos ao artigo.

É uma pergunta interessante entender as razões do crescimento dos partidos de extrema  direita (PEDs) em alguns países da UE. Porém, o artigo não me convenceu e vou explicar minhas razões.

1. A autora apresentou dados indicando um crescimento dos PEDs em alguns países. Porém, senti que faltou mais discussão teórica/substantiva. Por exemplo, pouco é discutido sobre como eleitores podem usar eleições menos importantes para sinalizar mensagens para as elites políticas.

2. Como no artigo anterior, a autora fala em teste z (no outro artigo, falavam em teste t). Normalmente teste z é para teste de hipótese com a distribuição normal. Mais uma vez, seria melhor uma linguagem diferente para efetivamente comunicar o método e permitir a replicação.

3. Ainda sobre o tal teste z. Eu confesso que não entendi o teste. Testes de diferenças de média em geral usam o teste t, pois a variância é sempre desconhecida. A mim não fez sentido o teste que aparece no texto.

4. De todo modo, mesmo se tudo foi feito corretamente no programa estatístico utilizado, ainda assim esse não é um bom teste a ser feito. Não quero repetir aqui a lenga lenga sobre p-valor, mas teste se a diferença de média é zero é pedir pra concluir que a diferença não é zero. Se a diferença verdadeira ( o famoso parâmetro) for 0,5, então um bom teste rejeitaria a hipótese nula. Porém, teríamos pouca significância empírica.

5. Saindo dos problemas abstratos do teste de média e entrando nos problemas concretos do artigo, noto primeiramente que a amostra é de 15 países, sendo 3 num grupo, e 12 no outro grupo, conforme a tabela 2. Ora, é evidente que a inferência estatística fica complicada com apenas 3 observações num dos grupos sobre o qual está se testando a diferença de média.

6. Problema talvez mais grave do que o anterior é o critério para seleção dos dois grupos para realizar o teste de média. A autora colocou no grupo A os países com média zero de suporte a PEDs e no grupo B países com suporte positivo a PEDs. Ora, é sabido que a amostra de cada grupo deve idealmente ser aleatória. Porém, mesmo quando não é, espera-se que o processo de seleção não viese os resultados. Porém, aqui a autora viesou os resultados de propósito.

7. A autora foi confusa no que tange à interpretação dos resultados. Por exemplo, ela afirma:

“a variável dependente do teste é o suporte dos eleitores, ainda que eventual e minoritário, a PEDs em países europeus ocidentais. Chamamos de suporte “a atitude de votar em PEDs”, independentemente do efetivo sucesso eleitoral em termos de aquisição de assentos nos Parlamentos nacionais”

E dois parágrafos adiante, ao analisar o resultado da tabela 2,

“O segundo resultado é o que se refere às variáveis de representação dos países-membros nas instituições europeias. As diferenças de médias, nesse caso, não apresentaram relevância estatística, mas, diferentemente das expectativas, apresentaram resultados positivos. O grupo dos países cujos eleitores mais tradicionalmente suportam PEDs possuem mais cadeiras no Parlamento Europeu e mais votos no Conselho, logo, possuem mais instrumentos de interferência nas decisões sobre as políticas regionais. Como a mudança no número de cadeiras e de votos no Conselho é muito pouca, e os dados, no caso dessas variáveis, variam mais raramente do que os demais, um exercício econométrico que considerasse uma série temporal longa seria mais preciso, o que poderia tornar os efeitos dessa variável mais esclarecedores”.

Eu confesso que não entendi a análise. A VD é o suporte (voto) dos eleitores a PEDs. Porém, acredito que na tabela 2 ela compara não o voto, mas o apoio tal como detectado em surveys do eurobarômetro etc. De todo modo, o problema é que ela fala em relações causais dessas variáveis (votos no conselho e assento no parlamento) tendo efeito em alguma coisa. Só que as variáveis eram VDs, não VIs. Como as VDs podem ter efeitos causais?

8. Outro problema da análise é perceber que a autora confunde significância estatística (ainda que precária, como vimos anteriormente), com significância empírica. Ela nota que a média de informações sobre a UE em um grupo é de 3,9%, e de 4,4% no outro grupo. Com uma média tão baixa, e com diferenças tão pequena, tem algum significado substantivo para o argumento dela sobre apoio as PEDs a informação sobre a UE? Além disso, mesmo que a diferença de médias fosse maior, há uma distância muito grande para fazer uma afirmação causal sobre o efeito dessa variável no apoio a PEDs.

Se  correlação (ou associação) não é o mesmo que causação, este é um exemplo claro. Quem garante que os mais informados não votam a favor da UE e são outras variáveis que explicam o apoio aos PEDs?

9. Minha conclusão geral é que o artigo ganharia muito mais se se resumisse a uma boa análise descritiva dos dados. O tempo gasto com um teste estatístico inútil e mal feito apenas torna o artigo confuso e não convence o leitor da tese principal.

Minha sugestão para o artigo é que, dado que o número de observações é baixo (15), que a autora escolha uma hipótese central apenas e aprofunde as investigações para corroborar essa hipótese. Testar o efeito de mais de 5 variáveis com 15 observações é inviável.

ps.: Há ainda outros problemas, mas esses me parecem os principais. Como de praxe, é mais fácil criticar que fazer bem feito. Porém, em minha defesa, a crítica aqui tem um papel construtivo, de refletir sobre artigos publicados em ciência política.

 

Saiu um estudo na revista Dados, de Perissinoto e Miríade, sobre os determinantes do sucesso eleitoral dos candidatos a deputado. O achado do artigo é que a principal variável é a ocupação dos candidatos.

O meu propósito aqui é comentar o artigo, do ponto de vista metodológico e também algumas coisas que me incomodam e que às vezes ainda é prática comum na ciência política brasileira.

1. Eles usam tabelas, e não gráficos. Gráficos transmitem muito melhor informações que tabelas, além de serem mais bonitos. Há um artigo do Leoni sobre o assunto.

2. Os autores reportam o p-valor e concluem pela significância das variáveis. Há uma literatura imensa sobre os problemas do p-valor, e não vou repeti-los aqui. Mas é uma pena que os erros padrões não sejam reportados.  A amostra deles é de mais de 5000 observações e, portanto, é óbvio que os coeficientes vão ser significativos (ou ter p-valor menor que ,05). O mínimo que se deveria fazer é reportar o erro padrão para que as pessoas tenham uma idéia da incerteza envolvida na modelagem.

3. Os autores dizem: “No que tange à relação entre, de um lado, eleitos e não eleitos (e não candidatos) e, de outro, gastos de campanha e idade15, pudemos perceber uma correlação altamente significativa, obtendo-se sig=0,000 para ambas e gamma de 0,30 e de 0,21, respectivamente16“.

Eu confesso que não sei o que é gamma de 0,30 e 0,21. Será que não podiam se comunicar em uma linguagem melhor?

4. Os autores falam em teste t. Porém, um teste t para média igual a zero de uma variável aleatória x é diferente de um teste t numa regressão, que é diferente para um teste t para diferenças de média com variâncias diferentes. Então, é preciso especificar mais qual a análise feita para permitir a replicação e entendimento do leitor.

5. Há uma regressão em que os partidos entram como preditores. Porém, vários candidatos concorrem pelo mesmo partido. Portanto, para alguns candidatos, condicional às outras variáveis, um partido aumenta sua chance de eleição, enquanto que para outros candidatos ele diminui as chances. Por exemplo, será que profissionais liberais têm a mesma chance de ser eleito no PP e no PSOL? Será que candidatos com poucos recursos têm a mesma chance de eleição no DEM e PSOL?  Portanto, o efeito médio do partido sobre a probabilidade de eleição não me diz muito. É preciso usar interações.

6. Há (potencial) problema de endogenia na análise. Gastos de campanha podem influenciar a probabilidade de ser eleito, mas pode também ser influenciado por essa mesma probabilidade.

7.  A análise da tabela 5 mostra três regressões. Porém, não entendi porque os autores não colocaram uma variável dummy com a ideologia do partido do candidato. Não é prática estatística recomendável subdividir a amostra em subgrupos e rodar regressões separadas buscando alcançar significância estatística. A probabilidade de ocorrer significância por mera chance aumenta, já que aumenta o número de combinações de variáveis estimadas. É bom também evitar o Paradoxo de Simpson.  Minha sugestão é que os autores rodassem uma única regressão com variáveis dummies.

Por fim, minha maior crítica ao trabalho. Os autores concluem que a variável mais importante para determinar o sucesso eleitoral é ser político profissional. Porém, não fica claro na análise até que ponto eles estão medindo o efeito de ser político profissional ou simplesmente o efeito de incumbência. É sabido que a chance de reeleição é alta, mesmo no Brasil, que tem taxas de reeleição mais baixas que em outros países. Ora, se um político se declara com a profissão/ocupação de deputado, então o que se está captando é o efeito incumbência, e não a profissão.

ps.: Teria ainda mais críticas, mas creio que já escrevi demais. E, além disso, é sempre mais fácil criticar que fazer.

 

 

Tem algumas coisas que gostaria de aprender, mas tenho adiado consistentemente por uma razão ou outra. Decidi listá-las aqui. Quem sabe ao listá-las eu não me cobro mais e consigo efetivamente aprendê-las:

1. Programação: queria aprender mais sobre C e aprender outra linguagem, possivelmente Python.

2. Estatísticas: preciso aprender mais de data-mining, modelos hierárquicos/multiníveis e econometria bayesiana.

3. Matemática: otimização com restrição (de desigualdade), teoremas do ponto fixo (demonstrar e tal) e equações diferenciais ordinárias (EDP também…).

ps. Hum… listando assim parece mais fácil do que tava na minha cabeça. Acho que vai ajudar sim.

O Armínio Fraga, ex-presidente do banco central no segundo governo de FHC deu uma entrevista interessante ao Valor. Falou de várias coisas de economia e de Ciência Política.

Eu confesso que não entendi tudo que ele disse de economia (como a tese de que os juros podem subir como resultado da intervenção no câmbio devido à mudanças nas expectativas dos agentes).

Então não vou dar pitaco sobre o que não é mais minha área de expertise (nunca foi muito, imagine agora que não estudo há algum tempo). Mas me parece que ele falou umas coisa do processo político que são complicados, e ele fez parece simples, óbvio.

Pra ficar num exemplo, pegue a questão do orçamento. Atualmente o executivo controla o orçamento e isso é uma das fontes de estabilidade política do nosso presidencialismo. Não é novidade que o presidencialismo de coalizão se baseia na distribuição de cargos e benesses via sistema partidário. Mas a coalizão só é estável porque o presidente tem muito poder. Se o congresso passar a controlar o orçamento, isso pode tumultuar o sistema político. Não digo que piora necessariamente, mas o assunto é complexo. A última reforma sobre o assunto que tenho notícia foi no sentido de limitar o poder do legislativo, justamente por causa do escândalo dos anões do orçamento. Ou seja, o contrário do que o Armínio parece sugerir (mais poder por legislativo é mais patrimonialismo).

Tudo isso é difícil e complexo, mas os economistas pensam que só a ciência deles é complexa. A política também é. Não digo com isso que os cientistas políticos deveriam ter um papel similar ao dos economistas. Mas esse é assunto pra outro post.

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