A eficiente gestão do PSDB convive com a falta de água constante em São Paulo. Se você googlar ‘fajta água são paulo" verá que constantemente temos essas notícias. Aqui em casa agora mesmo está faltando água. Nem tem nem um pingo. É ridículo. Agora, pergunta se tem juros e/ou mora pro consumidor?

Leio no Blog do Cris Blattman sobre o novo filme do Clint, Invictus. É (aparentemente) a história de como Mandela (sim, Nelson Mandela) liderou o país e usou o rugby (esporte de Branco) como símbolo da unidade nacional sul-africana. Fiquei interessado no filme, mas o que me chamou a atenção foi o fato de Mandela ter dado um texto para o Pienar (capitão do time de Rugby) do Teddy Rossevelt. Há um trecho maravilhoso e segue abaixo, no original em inglês:

It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles, or where the doer of deeds could have done them better. The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat.

ps.: Frases do filme:
1. Brenda Mazibuko: You’re risking your political capital, you’re risking your future as our leader.
Nelson Mandela: The day I am afraid to do that is the day I am no longer fit to lead.

2.
Nelson Mandela: Forgiveness liberates the soul.
Nelson Mandela: It removes fear.
Nelson Mandela: That is why it is such a powerful weapon.

E aqui, o trailer do filme:

um site que contém a obra completa do Machado de Assis.
Andei lendo ums crônicas, que são curtas. E, claro, são muito boas.
Vou publicar aqui ums crônicas deles, que me agradarem. Começo com uma que não sei o título, tão somente a data, 1883.

16 de dezembro

Valentim Magalhães perdeu uma bela ocasião de não ficar zangado. As suas "Notas à Margem", de ontem, são uma das mais odiosas injustiças deste tempo, aliás tão farto delas.

Não tenho nada com os quatro bacharéis em direito que foram ao enterro de Teixeira de Freitas, nem com os que lá não foram. Entretanto, podia lembrar ao meu amigo Valentim Magalhães, que algum motivo poderoso, embora insignificante, pode ter causado a escassez de colegas no enterro; por exemplo, a falta de calças pretas.

Por mais poeta que seja, Valentim Magalhães tem obrigação (visto que está na imprensa) de compulsar os documentos oficiais e comerciais, os livros dos economistas, as tabelas de importação e exportação. Se o fizesse, saberia que todos os anos, desde fins de novembro até princípios de março, os países quentes exportam para a Groenlândia grande número de calças pretas. Nos países frios, a exportação verifica-se entre abril e agosto. Este fenômeno tem sido objeto de profundas cogitações. Laveleye (Du Vêtement Humain, pág. 79) afirma que o consumo imoderado de calças pretas entre os groenlandeses há de produzir imensa alteração nos hábitos europeus. Eis as próprias palavras do economista belga:

Je crois même, avec de bons auteurs, que dans un siècle l’Europe ne portera plus que de pantalons gris, jaunes ou même bleus, car il est averé qu’avec nos moyens chimiques c’est impossible de teindre une telle quantité de pantalons noirs. Il faudra bien, ou changer nos habitudes, ou supprimer les groelandais.

Leia Valentim Magalhães o ornal dos Alfaiates (tomo XVII, pág. 14) e achará que, nos últimos dez anos, a exportação de calças pretas da Europa e dos Estados Unidos para a Groenlândia atingiu a dez milhões de exemplares.

Essa pode ser a causa da escassez dos amigos e colegas. Essa foi também a causa da pouca gente que acompanhou Alencar ao último jazigo. Alencar morreu em dezembro. Também ele era jurisconsulto, e era romancista, orador e político. Não era só isto: era o chefe da nossa literatura. Poderemos crer que a pouca gente no enterro dele era uma expressão de indiferença? De nenhum modo.

Mas, em suma, nada tenho com os mortos. Vivam os vivos!

Os vivos são os que meu amigo Valentim designa pelo nome de medalhões. Em primeiro lugar, há ainda um certo número de espíritos bons, fortes e esclarecidos que não merecem tal designação. Em segundo lugar, se os medalhões são numerosos, pergunto eu ao meu amigo: — Também eles não são filhos de Deus? Então, porque um homem é medíocre, não pode ter ambições e deve ser condenado a passar os seus dias na obscuridade?

Quer me parecer que a idéia do meu amigo é da mesma família da de Platão, Renan e Schopenhauer, uma forma aristocrática de governo, composto de homens superiores, espíritos cultos e elevados, e nós que fôssemos cavar a terra. Não! mil vezes não! A democracia não gastou o seu sangue na destruição de outras aristocracias, para acabar nas mãos de uma oligarquia ferrenha, mais insuportável que todas, porque os fidalgos de nascimento não sabiam fazer epigramas, e nós os medíocres e medalhões padeceríamos nas mãos dos Freitas e Alencares, para não falar dos vivos.

E, depois, onde é que o meu Valentim compra as suas balanças? Ignora ele que a felicidade humana e social depende da repartição eqüitativa dos ônus e das vantagens? Perante qual princípio é aceitável essa teoria, de dar tudo a uns e nada aos outros? Lástima que Teixeira de Freitas não tivesse uma cadeira de legislador. Mas, com todos os diabos! não se pode ao mesmo tempo votar as leis e consolidá-las. Que um as consolide, e tanto melhor, se a obra sair perfeita; mas que outros as façam; que o Sr. José Zózimo, que não consolidou nada, levante a voz no areópago da nação. Ele não paga imposto? Não está no gozo dos direitos civis e políticos? Que lhe falta, pois? Não inventa, é verdade; mas o meu amigo esquece que tudo ou quase tudo está inventado: — a pólvora, a imprensa, o telescópio.

Portanto, emende a sua filosofia social, e venha tomar chá comigo.

Depois de uma longa jornada sem postar nada nesse blog, gostaria antes de mais nada me desculpar “in loco” com o meu companheiro Manoel, principalmente por ter abandonado as postagens. Mas creio também que surgiram fatos novos nesse intervalo que de certa forma servem como desculpa.

O primeiro fato é que no começo de dezembro comecei a escrever em um blog de futebol. Ele trata basicamente de futebol e São Paulo F.C. E isso tomou todo o tempo livre que dispunha para essa empreitada, agora que já formatei minhas participações por lá, creio que as coisas se assentam. Quem tiver interesse em ver minhas postagens nesse outro blog, segue o link.

O segundo fato é que prestei Fuvest para o curso de Filosofia. Embora tenha estudado muito pouco para o exame, uma parte do tempo teve que ser dirigida para estudos pré-vestibulares. O resultado ainda não saiu mas creio que caso seja de aprovação, esse blog ganhará muito em conteúdo com novos temas e mais embasamento para análises.

O terceiro fato, esse sim de importância absurda, é que serei PAI!!! Sim, minha mulher está grávida. Fato que causou uma enorme revolução em minha vida. Interessante lembrar que compartilhei nesse blog, vários momentos de alegria com todo o processo do meu casamento e agora compartilho com vocês novamente essa nova surpresa.

Confesso a vocês que sempre fui uma pessoa contra filhos. Sempre tive aquela idéia de Bráz Cubas de “não passar a ninguém o legado de minha (nossa) pobreza”, da falta de confiança quanto ao andamento do Mundo, das condições atuais para a criação de um filho. Ao mesmo tempo, amigos me convenceram de aspectos positivos (e mesmo racionais) dos filhos: como educá-lo e formar um bom cidadão é parte integrante para a formação de um mundo melhor, transferência de sua carga genética para as próxima gerações.

Mas depois do turbilhão de emoções pós notícia, consigo agora parar e refletir melhor sobre tudo isso. Tudo o que pensei “racionalmente” sobre a paternidade é válido, mas sua validade é frágil e consegue absorver apenas a superfície de tudo que o tema abrange. Quero dizer, deve-se pensar nesses aspectos mas essas são as menores das razões.

Consigo entender com mais clareza que os filhos são no fundo, o fruto e solidificação do amor. Sentimento este que já tentei por inúmeras vezes descrever e arranhar seus conceitos nesse blog, com muito pouco sucesso, evidentemente. O amor é o sentido da vida, é essa troca de amor que ocorre entre os amantes que será repassada a um novo ser. O nascimento de um ser humano é a reprodução desse amor, amor entre o homem e a mulher, e entre pais e filho, uma micro relação representativa do que deveria ser a constituição do mundo todo. Repassar esse sentimento acho que é o que de melhor podemos doar ao mundo.

Já amo meu filho ou filha como nunca amei nada nessa vida, e certamente amo a todos que já amava com muito mais intensidade do que antes :)

PS: Esse é só um bebê representativo, não é o meu bebê ainda não :P

Vejam essa intrevista (em inglês) com o presidente da Universidade da Califórnia. Hilária!
Uma pequena amostra:

How did you get into education?
I don’t know. It’s all an accident. I thought I’d go work for a law firm.

Como você chegou à educação?
Eu não sei. É tudo um acidente. Eu achava que ia trabalhar para um firma de direito.

No último falatório que participei, discutíamos, entre outras coisas, um certo fetiche pela técnica na medicina, especialmente a técnica da máquina. Muitos reclamaram do que seria um desumanizaçã oda medicina, e chiaram mais ainda quando eu defendir a idéia de que algoritmos, se bem alimentados, poderiam substituir os médicos nos diagnósticos (em parte, pois ainda precisariam deles para alimentar o algoritmo com sintomas).

Com a explosão de informações na internet, o uso de algoritmos para sugerir ao usuário o que lhe é de seu interesse ficou mais importante. Notem que mecanismos de busca como o google ainda são baseados nas médias de buscas de todos os usuários. Assim, se você digitar Lula, ele recomendará as páginas mais populares, levando em consideração os links entre as páginas da Web e os clicks de todos os usuários. Porém, atualmente pelo menos, ele despreza todas as informações particulares do usuário existentes, por exemplo, em buscas passadas, que sites ele clicou, seus sites, textos que lê e recebe no seu e-mail etc.

A idéia dos filtros colaborativos é justamente sair da recomendação a partir da média para usar uma recomendação mais personalizada. Em geral, tais filtros comparam os dados de um usuário coms os dos demais usuários e e constrói índices de similaridade entre os usuários. Assim, é capaz de predizer, com base nos gostos/ações de outros usuários similares o que você pode querer ou estar interessado. Provavelmente, num futuro próximo o google irá permitir que os usuários do seu mecanismo de busca usem suas informações personalizadas (buscas passadas, sites acessados, e-mails lidos, textos publicados em blogs etc.) para melhorar a sugestão de seu mecanismo de busca.

Esse mecanismo mais eficiente, porém, não resolve o problema da latência, a saber: itens novos, incomuns ou esotéricos só serão recomendados pelo sistema até que eles sejam incluídos no perfil de um número muito grande de usuários. O google atualmente já sofre com esse problema, na medida em que alguns sites tinham tanta reocmendação no passado que mesmo coisas mais novas e mais interessantes para o público não são sugeridas, pois têm baixo pagerank. Isso, porém, dificulta que esses sites sejam linkados e acessados, criando uma certa inércia que é ineficiente.

Assim, a grande questão filosófica dos filtos colaborativos é saber o que aconteceria num mundo em que ele fosse usado extensivamente e subistituísse modos analógicos de recomendações e descoberta de coisas novas como o boca-a-boca, tentativa e erro, experimentação aleatória etc. Pra mim, o principal problema é o referido problema da latência. O sistema pode acabar chegando num equilíbrio estático em que coisas novas não conseguem ultrapassar o limiar para serem recomendados e permanecerão, para sempre, na obscuridade.

Se pensarmos em termos de eficiência, me parece que o sistema atual do ser humano (que chamei de analógico) é estremamente ineficiente ao nível local/individual. Porém, a ineficiência, que gera erros demasiados, leva o ser humano a descobrir coisas novas, transformando assim o erro em acerto (a posteriori). No longo prazo, os erros posteriomente percebidos como acertos aumentam a eficiência global na medida em que são transferidos para outras pessoas. Um exemplo disso é a cantora Susan Boyle, que (quase) todos descartariam a priori baseado em prejuizos, mas que se revelou uma grande cantora.

O risco de um novo sistema baseado em filtros colaborativos é que se aumenta a eficiência individual de curto prazo, mas leve a uma redução no número de inovações em nível global no longo prazo.

ps.: Eu estou pensando em desenvolver um filtro colaborativo que busque, justamente, indicar itens raros e incomuns entre usuários. Uma idéia é simplesmente que os usuários classifiquem itens que inicialmente lher pareciam estranhos e/ou que não apreciavam e que posteriormente gostaram. Assim, eventualmente pode-se descobrir um padrão sobre como, quando e porque isso acontece

Estamos em 2010 e é ano de eleições presidenciais (além de Copa do Mundo). Muitos estão se perguntando se Dilma Rouseff será capaz de bater Serra, que é líder nas pesquisas eleitorais. Pra refrescar a memória, eu fiz um mapa eleitoral das últimas eleições presidenciais com base nos votos do primeiro turno.

O mapa reflete o percentual de votos de Lula em cada estado. Conforme podemos ver, a exceção de Alagoas e Sergipe, lula foi muito bem no nordeste. Espera-se que Dilma consiga algo parecido em 2010 pela simples transferência de votos de Lula para ela. Em Minas Lula também teve mais de 50% dos votos ( e no Rio foi 49%). Porém, o desempenho de Lula na maior parte do Sul, Sudeste e Centro-oeste não foi tão bom.

Se compararmos o mapa para os votos de Alckmin, o resultado é praticamente o oposto. Assim, tudo vai depender de qual a taxa de votos de Lula que migrará para Dilma, e quais outros fatores que influenciaram o voto em Alckmin e Lula no sul, sudeste e centro-oeste e como esses fatores estão em 2010, comparativamente a 2006. Se a renda e emprego for um fator relevante, então o cenário é favorável a Dilma. Se o conservadorismo/progressimos for a variável chave, então (acredito) não há uma mudança muito grande de 2006 para 2010.

Há uns dois ou três meses recebi um livro novo, recém lançado, do professor de economia da USP Eleutério Prado. Queria fazer uma resenha do livro, mas ando sem tempo. De todo modo, vou apresentar minhas impresões dos capítulos iniciais. Quando terminar o livro comento os demais capítulos. Como o livro é formado por artigos publicados originalmente em outros lugares, cada capítulo é mais ou menos auto-contido.

Como sou favorável à transparência, apresento meu full-disclosure: Eleutério Prado foi meu professor na graduação e pós, e gosto muito dele. Todavia, creio que meu julgamento sobre o livro é acurado, ainda que não desinteressado.

O Livro é composto a partir da junção de 5 artigos publicados originalmente separados. O objeto do livro é investigar até que ponto a ciência da complexidade se aproxima da dialética. Ao fazer essa investigação, o autor deve estabelecer entendimentos sobre o que é fazer ciência, como se pode teorizar sobre o mundo e, porque não, o que constitui o mundo. Tudo isso do ponto de vista de alguém que praticou a ciência social mais famosa – economia – em muitas de suas variantes e forma (econometria, modelos formais, modelos computacionais, marxismo, filosofia da ciência econômica etc.). A Resenha que irei fazer, inicialmente, é de cada capítulo em separado. Ao final, devo fazer uma resenha com uma avaliação do todo. Agora, apresento a resenha do capítulo 1.

Eu devo reconhecer que, ainda que o tema não esteja no meu horizonte de preocupações imediato enquanto cientista, está no cerne das minhas preocupações e justificativas mais fundamentais da prática científica. Afinal, o cientista, consciente ou inconscientemente, quando publica um trabalho, deve assumir uma enormidade de pressuposições sobre o ato de comunicar uma tese (linguagem) e o ato de teorizar o mundo (relação teoria-empiria). Ademais, durante a pesquisa que precede a publicação, o cientista deve pressupor como a realidade deve ser encarada para a produção de sua interpretação. Tudo isso, portanto, mostra que é um assunto complicado e, por isso mesmo, tenho postergado o tema para um futuro incerto. De todo modo, esse livro é uma boa oportunidade para interromper momentaneamente esse auto-exílio intelectual.

No capítulo 1 Eleutério discutirá como poderíamos caracterizar a ciência da complexidade, especialmente com respeito ao conceito de emergência. Isso é importante, pois busca-se já delinear no nível epistemológico (e quiçá lógico-ontológico) os limites e possibilidades de determinas práticas e concepções científicas.

Parece-me porém, que, como o assunto é intrincado e envolve conhecimento de múltiplas áreas, às vezes se fica com a sensação de que falta sempre mais discussões de alguns tópicos. Para ilustrar esse ponto, tomemos um exemplo clássico de visão da complexidade, que é aquela que trata de explicar a consciência (humana). Como se sabe, o ser humano é consciente e por muito tempo a consciência (especialmente a vontade ou lívre-arbítrio) foi entendida como resultado de algo chamado de alma, espírito ou algo parecido, mas não mecânico, não material.

Hoje em dia tal concepção pode parecer uma besteira, pois os estudos sobre o cérebro têm mostrado que esse é o órgão responsável por muito daquilo que tomamos por pensamento, sentimentos, vontade etc. Porém, a tese não é tola, pois a questão é: até que ponto é possível reduzir a consciência à atividade neural/cerebral? Em outros termos, se tudo que se passa naquilo que chamamos de mente é puramente bioquímico, então é preciso explicar como aparentemente nossa consciência/vontade é capaz de influenciar esses mesmos processos biológicos/químicos.

Uma solução teórica que alguns adeptos dos sistemas complexos advogam é (segundo entendo) que a consciência, ainda que seja resultado da organização dos neurônios, não é causada puramente por eles, mas teria um efeito causador sobre a própria constituição e organização dos neurônios. Nesse caso, a consciência é um fenômeno emergente, que depende mas também influencia suas partes constitutivas. Ainda nessa perspectiva, não seria possível transmitir uma consciência humana para computadores pura e simplesmente, pois a consciência depende não somente da forma como os elementos constitutivos são organizados, mas também sobre como ela age sobre esses elementos. Tudo isso é problemático e difícil, ainda mais por envolver auto-referência, um problema filosófico e lógico conhecido desde pelo menos o paradoxo do cretense mentiroso. Um livro famoso e interessante sobre o assunto é Gödel, Esher, Bach: an eternal golden braid, vencedor do prêmio Pulitzer. Aliás, seria interessante ver como Eleutério discutiria os temas do seu livro à luz desse outro livro, mas essa é outra história.

Voltando ao ponto original da idéia de alma, dizer que existe algo que causa a si mesmo, é, num certo sentido, dizer que existe nesse algo uma causa de si, não resultante do mundo material formado por elementos e forças constitutivas. E, embora cientificamente não se goste muito de falar em alma, falar que a consciência é um fenômeno emergente é, num certo sentido, dizer que algo (que podemos chamar de espírito ou alma) nos constitui, para além do aspecto material.

Não por outra razão, como nota Eleutério, os críticos da perspectiva emergentista que existia no século XIX apontavam para uma certa inclinação desse grupo “pelo mistério e religioso” (p. 27). O tom de Eleutério, porém, é de crítica aos críticos do emergentismo clássico (esse do séc. XIXI), pois eles teriam (injustificadamente, do ponto de vista científico) atacado as teorias emergentistas de não científicas. Ora, mas além das questões políticas próprias da academia que são reais e não é preciso tomar surpresa por sua existência, houve e continua havendo um certo receio da brecha para religião que esse tipo de teoria dá. Não por outra razão, muita gente picareta tem falado abrobinha religiosa com bases supostamente científicas, sendo pra mim um caso exemplar o tal filme Quem somos Nós (What The Blip do we know?), que eu inclusive já comentei sobre ele aqui. Então, ainda que eu até entenda que Eleutério queira resgatar uma concepção antiga e seu mérito relativo, o cuidado para com o misticismo e a dominação que aí pode aparecer não é de somenos importância (ainda que o outro misticismo, do racionalismo, que me parece é a tese do Adorno, seja outro problema).

Outro exemplo  de uma discussão que merece mais reflexão é do conceito de causa eficiente e sua apropriação na modernidade. Obviamente o propósito do autor não é fazer uma história das idéias ou do pensamento em todos os seus meandros. Importa apenas os aspectos mais gerais e que serve ao seu propósito de caracterizar a ciência moderna.  Tudo isso é válido, mas desde que a caracterização final seja fiel. Porém, nesse caso pelo menos, não estou tão seguro.

Galileu se defrontava com toda sorte de conceitos recebidos da tradição escolástica que efetivamente obstavam a elaboração da nova física capaz de explicar fenômenos astronômicos então recém observados (como as manchas solares). A concepção escolástica de mundo, derivada do Aristotelismo, era essencialmente não-matemática (no máximo proporções) e a tentativa de pensar em causas finais (por exemplo) causava dificuldades de pensamento. Assim, para a escola, o movimento dos planetas é circular porque o círculo é um movimento perfeito (perfeito entendido como acabado, e não como um máximo de uma série) e simples. E os Planetas, que ficam na região do céu, que é perfeita, devem ter movimentos perfeitos. Todo esse raciocínio é circular e claramente falho aos olhos de hoje, mas perfeitamente racional para o pensamento antigo.

Do mesmo modo, eles diziam, tudo que é perfeito é em três, e três são as dimensões do mundo, não cabendo adicionar mais nenhuma outra, sendo portanto perfeitas (lembrando, perfeito no sentido de não precisar mais se modificar para se completar). Isso é o que significa dizer que o sentido das partes vem do todo, e o todo das partes, ou ainda que tudo é uma constituição reflexiva. Porém, esse é um raciocínio claramente falho (ao meu ver) e felizmente abandonado paulatinamente pela ciência no alvorecer da modernidade.

Isso não significa que determinações simultâneas não possam ocorrer. Sistemas de equações simultâneas são usados há bastante tempo e isso não é um problema. A questão que fica é como exatamente resgatar a idéia de que outras causalidades (como causa final) devem ser usadas para entender a realidade. O mesmo vale para a tese de que os fenômenos emergentes não podem ser explicados totalmente pelo reducionismo. Embora em abstrato a tese seja plausível, o leitor fica com a sensação de que é necessário maior discussão de casos concretos.

Para também não ficar abstrato, vou dar um exemplo. Suponha que você quer explicar a distribuição de renda e inicialmente procura relacionar os ganhos com características dos indivíduos (escolaridade, habilidades etc.). Em seguida, vendo que isso não é suficiente, busca outros fatores individuais, mas que dependem de aspectos relacionais (classes sociais dos pais, contatos feitos na escola, cidade onde mora, capacidade produtiva das pessoas com quem trabalha). Obviamente, esses fatores relacionais afetam o indivíduo e o indivíduo afeta esses fatores. E, ainda que metodologicamente o reducionismo em geral abstraia o efeito dos indivíduos sobre o todo, isso não me parece necessário. Por que não pensar que as características individuais e as características sociais são variáveis aleatórias cuja distribuição de probabilidade conjunta determina (probabilisticamente) os ganhos dos indivíduos e, portanto, a distribuição de renda de uma sociedade? E ainda, as variáveis aleatórias não precisam ser independentes. Seria isso um pensamento não-reducionista? Se sim, então uma parte da ciência contemporânea faz isso há algum tempo e não vejo grandes ganhos em tamanha discussão. Se não, então seria necessário justamente gastar mais tempo nessa discussão para esclarecer ao leitor porque tal opinião está errada ou imprecisa.

Ao findal desse capítulo 1, o leitor aprende e reflete sobre alguns pressupostos da prática científica, mas o caráter abstrato demais atrapalha o convencimento do leitor. Mesmo os exemplos usados (molécula da água etc.) são muito simples e não (parecem) refletir a prática científica atual de explicações dos fenômenos. Isso não significa que s questões colocadas não sejam interessantes. Ademais, o leitor fica com algumas pulgas atrás da orelha querendo entender melhor tudo que está dito. Mas talvez um pouco mais pudesse, justamente, ter sido dito.

1. Música do Bob Dylan, (76).
2. O que leva as pessoa a alugarem determinados filmes. Dados do Netflix.
3. Estimando pontos ideais sequencialmente. Simon Jackman usou o ideal para estimar a ideologia dos senadores ameicanos votataçõa por votação, vendo como adicionar uma votação alterava a estimaçã oda ideologia dos senadores.

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