Energia escura

Eu queria entender um pouquinho (ou muitinho) mais de física para avaliar esse comentário. Meu entendimento é que, fosse apenas pela força gravitacional, o Universo não se expandiria (ou pararia de se expandir, e começaria a se contrair). Mas outra força (energia escura) superou a gravidade. Talvez a gente esteja só, mas outras civilizações (extintas?) que permitiram que a gente estivesse aqui, ao detonar a energia escura. Fiquei pensando que talvez esse seja o destino da humanidade. Se destruir no planeta terra, mas liberar alguma energia para que outra espécie possa fazer o que não conseguimos fazer…

Mudando de assunto, faz tempo que quero escrever, mas me encontro meio bloqueado. Basicamente eu tenho uma ideia, começo a escrever, mas aí paro porque ela não é boa suficiente. Ou melhor, não consigo fundamentá-la o suficiente. Hoje em dia não acho que sei de nada o suficiente. O pior é que mesmo quando chego a ultrapassar essa barreira, o texto me parece boring, chato, seco, sem vida. Como esse aqui. Minha vontade agora é de simplesmente apagar tudo (como tenho feito nas últimas milhares de vezes) e deixar pra lá. Só não apago numa tentativa inútil de que algo meta fique bom. Mas a sensação é crescente de que não está bom. E quanto mais aperto as teclas do computador mais agoniado eu fico. Ok, parei e apertando rapidamente o botão de publicar antes que me arrependa…

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A propósito da Lava-Jato e a corrupção no Brasil

Muitos me perguntam o que acho da condução coercitiva do Lula, do discurso dele, da lava-jato… E, no entanto, creio que essas são as perguntas erradas. Um pouco na linha do último texto do Fernando Henrique, a pergunta mais importante, para quem quer melhorar o Brasil, é: quais mudanças institucionais podemos fazer para evitar que a corrupção continue no nível atual?

Para além do enriquecimento ilícito de muitos, parece que há uma conexão grande com os gastos de campanha no Brasil, que mesmo no caixa 1 são gigantescos. Na última eleição, foram gastos pelo caixa 1 pouco mais de um bilhão de reais pelo PT (todos os cargos) e pouco mais de 1 bilhão pelo PSDB. Nas eleições presidenciais, o PT gastou pouco mais de 300 milhões de reais, e o PSDB pouco mais de 200 milhões.

Se compararmos com os EUA, veremos que o Obama gastou quase 1 bilhão de dólares nos EUA em 2012. Dependendo de como se calcula o PIB do Brasil em dólar (câmbio real de hoje, da época, ou PPP), o PIB dos EUA vai ser em torno de 4 a 9 vezes o PIB do Brasil, que seria mais ou menos quanto Obama gastou a mais que Dilma.

Contudo, essa comparação “esquece” um detalhe fundamental: aqui os gastos com rádio e TV são financiados exclusivamente com dinheiro público, enquanto que nos EUA os candidatos devem pagar por cada propaganda na rádio e TV. Além disso, aqui é proibida a compra de mídia em Outdoor e na internet (facebook, google etc.). Nos EUA, os candidatos gastaram aproximadamente 50% com mídia. E mais 15% com administração (incluindo salários das equipes de campanha), 10% com a própria atividade de arrecadar fundos, 10% com correio, depois viagem (3%), pesquisas de opinião (mais 3%) e assim por diante. Os números são aproximados.

Olhando por essa perspectiva, vemos que as campanhas no Brasil são absurdamente caras. Com que nossos candidatos gastam tanto dinheiro, e ainda precisam de muito caixa 2?

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Quando eu morava em Alagoas, vi em primeira mão como se faziam eleições por lá. Um candidato a deputado federal que gostaria de ter votos na cidade X precisava do apoio de líderes políticos locais da cidade para fazer campanha para ele e levar seus votos para o candidato. E o apoio vinha mediante dinheiro. Naquela época (isto é, nos anos 90), o apoio de um vereador dos mais votados que teve por volta de mil votos na eleição dele custava pouco menos de 100 mil reais. Com esses 100 mil reais, o vereador deveria comprar o apoio dos cabos eleitorais, financiar alguma estrutura local (combustível para os cabos eleitorais etc.), mas duvido que incluísse o material de campanha propriamente dito (santinhos, panfletos etc.).

Eu não sei quanto a coisa mudou de lá pra cá, mas chutaria que muito pouco. Então, minha hipótese é que campanhas eleitorais no Brasil são muito caras por que é preciso comprar o apoio político de toda a cadeia de políticos, até o cabo eleitoral. Ou melhor, até o eleitor, que irá receber uns trocados pelo seu voto. Antigamente recebia camisas, bonés e afins, mas hoje isso está proibido.

Outra consequência desse sistema é que, a menos que se registre os apoios como contratação de funcionários via CLT, terá de ser feito muita coisa via caixa 2. E se o dinheiro é ilegal, e a empresa que doa está fazendo uma ilegalidade, para se acordar o desvio de verba capaz de pagar isso tudo e ainda gerar um lucro para os envolvidos é um pulo.

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Se minha teoria para o gasto exorbitante no Brasil está correta, a primeira pergunta que me vem à cabeça é: nos outros países também se compra apoio assim? De verdade eu não sei, mas desconfio que não. E se não ocorrer assim, porque no Brasil é diferente?

E é aqui que entramos nos nossos problemas institucionais. Eleições são um troço difícil para o eleitor. Não somente ele tem que saber de macroeconomia, ele deve ponderar as propostas dos candidatos em várias áreas diferentes, as probabilidades de darem certo e quanto elas vão beneficiá-lo ou o país. Ou seja, é impossível mesmo para um gênio. Simplesmente não dá para fazer uma escolha consciente.

Nós poderíamos fazer como nos outros países, e utilizar os partidos como atalhos informacionais para orientar nossas escolhas. É um pouco como fazemos na hora de escolher entre trabalhar no setor público ou na empresa privada. A gente tem uns estereótipos de cada trabalho, um pouco de informação sobre o que acontece com cada escolha, nossas preferências, e daí escolhemos um caminho ou outro. Mas poucas pessoas vão fazer planilhas, calcular custos, benefícios e probabilidades para tomar decisões.

Mas isso só funciona com partidos se eles forem poucos, tiverem uma identidade mais ou menos definida (ainda que baseada em estereótipos) e as pessoas organizarem suas preferências nesses estereótipos. O que dificilmente é o caso no Brasil, especialmente para eleições proporcionais, e mesmo nas majoritárias em que o conflito PT-PSDB não seja dominante. No nosso sistema político, eleitores têm muita dificuldade de escolher seu voto.

Veja o meu caso. Sou doutor em ciência política, acompanho a política brasileira desde a adolescência, e ainda assim, toda eleição, tenho dificuldade de escolher o vereador, deputado estadual e e o segundo senador. Acabo indo por indicação de amigos. Que no fundo são cabos eleitorais.

Então, o que estou sugerindo aqui é que o nosso sistema partidário fragmentado, com partidos fracos e incapazes de se distinguirem claramente um do outro, induzem a campanhas eleitorais extremamente caras e que requerem caixa 2.

Mas como a gente aprende na economia, não se trata apenas de demanda por corrupção induzida pelo sistema, é preciso olhar para a oferta. No caso, a oferta de políticos corruptos. Imaginemos dois políticos, um honesto e outro corrupto que busca a política apenas para enriquecimento pessoal. Se para ser eleito é preciso acesso a recursos não contabilizados, o corrupto é mais eficiente em captar esse dinheiro do que o inocente. Contatos com empresários corruptos, contatos com burocratas corruptos e know-how em como roubar são habilidades úteis no nosso sistema político. Em outras palavras, nosso sistema político tenderá a recrutar corruptos e promovê-los no interior da esfera partidária. Não é apenas pelos conhecimentos jurídicos e manobras regimentais que Cunha chegou aonde chegou. As denúncias contra ele apontam para uma rede de corrupção gigantesca, e são várias as histórias de deputados eleitos com dinheiro do Cunha.

Em resumo, nosso sistema induz os políticos a serem corruptos, e promove os corruptos, justamente porque o sucesso na carreira política depende, entre outras coisas, da habilidade de manejar a corrupção de forma eficiente (isto é, eficiente no roubo e em esconder a fonte de roubo).

Se isso for verdade, então, mais do que gastar nosso tempo discutindo se o PT é do mal ou não, se eles se desvirtuaram do caminho do bem, mas o próximo que chegar será melhor, é reformar o sistema político brasileiro para que esse equilíbrio mude.

É claro que minha narrativa tem muitos “ses” e a história pode se outra bem diferente, ou apenas um pouco diferente. Mas a lição importante mesmo é que, uma vez que tivermos um bom diagnóstico do nosso sistema político, veremos que ele gera um equilíbrio em que a corrupção faz parte do sistema. E para mudar isso precisamos mudar o sistema político.

Eu tenho algumas ideias que, acho, ajudariam a melhorar o sistema sem precisar fazer reformar radicais, mas deixo isso para outro dia. Por enquanto, queria enfatizar o que disse no começo. A pergunta certa não é sobre o Lula, mas sobre quais reformas institucionais vão gerar um equilíbrio em que há uma tendência a ter menos corrupção. Ela não irá acabar. Mas poderá se bem menor.

 

 

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O bem-calibrado economista

Um amigo me perguntou como avaliar as recomendações conflitantes dos economistas sobre o que fazer com o Brasil. Que se conecta com um post antigo meu sobre quando confiar nos especialistas. Também já fiz um post com links sobre o tema. Aparentemente, porém, eu não trouxe reflexões da literatura acadêmica, dentro da estatística, sobre um tema chamado calibração de previsões.

A idea de calibração é simples, e surgiu com um artigo de 1982 do Dawid no JASA (Journal of American Statistical Association). Suponha que alguém faz previsões sequenciais sobre se vai chover ou não. Então, um especialista será bem calibrado se, dos dias em que ele disser que há 30% de chance de chover, 30% das vezes choverem, e assim sucessivamente para as demais previsões.

Portanto, para avaliarmos se um especialista é calibrado, as previsões deles precisam ser probabilísticas. Que os economistas e os jornais não reportem previsões probabilísticas apenas ilustra o estado de indigência mental do debate no nosso país. Tanto economistas, quanto jornalistas e leitores parecem não se importar com o fato das previsões serem não probabilísticas, o que é de fato um horror.

Então, da próxima vez que você ouvir um economista recomendar a política x ou y, peça a ele uma previsão probabilística do que irá acontecer com algum indicador relevante se a política x ou y for implementada. E se, após uma série de previsões, você identificar que o economista não é calibrado, pode parar de ouvir as abobrinhas dele.

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Dreams, via XKCD

Sem mais…

dreams

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Adorno e o Carnaval

Dois links, o primeiro leva a um texto comentando um trabalho de Adorno sobre a astrologia, com reflexão muito interessante.

E um trabalho arqueológico já antigo do Diego, sobre marchinhas antigas de Carnaval.

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Observações rápidas sobre a política brasileira nas últimas horas

Algumas observações rápidas sobre o que está acontecendo no país:

  1. Hard-working é importante. Eduardo Cunha, que está destruindo o país e jogando a Câmara dos Deputados na lama, estudou o regimento e as leis e as utiliza habilmente para manobrar e obter algumas vitórias. Elas são no geral completamente sem ética e contrárias ao hábito da casa, mas são fruto de alguém que gastou o tempo se preparando. Cabe à esquerda fazer esse dever de casa para não ser mais surpreendida.
  2. O Cunha está enfraquecendo nossas instituições, desmoralizando-as e levando muita gente nessa espiral. É preciso evitar ser tragado pelo que Fernando Limongi chamou de método Cunha. Para isso a sociedade brasileira e as elites políticas precisam se mobilizar para retirá-lo o mais rapidamente possível do poder.
  3. A crise está meio rocambolesca e sempre tem uma novidade, mas para analisá-la é preciso respirar e saber que as coisas são provisórias e não dá para ter muitas certezas.
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“Rótulos”, racionalidade e heurística

Participei nesta semana de duas discussões diferentes, e no entanto em ambas criticaram nossa tendência a rotular as pessoas. O argumento é em geral mais ou menos assim: rótulos são reducionistas, categorizam as pessoas, impedem uma comunicação efeitva, dão margem a pré-conceitos etc. Por sorte ninguém da discussão citou Kahneman e cia., e os resultados dos estudos sobre nossos vieses cognitivos.

Mas eu me lembrei dessa citação, que vi no blog do Gelman uma vez:

The “half-empty” versus “half-full” explanation of the differences between Kahneman and us misses the essential point: the difference is about the nature of the glass of rationality, not the level of the water. For Kahneman, rationality is logical rationality, defined as some content-free law of logic or probability; for us, it is ecological rationality, loosely speaking, the match between a heuristic and its environment. For ecological rationality, taking into account contextual cues (the environment) is the very essence of rationality, for Kahneman it is a deviation from a logical norm and thus, a deviation from rationality. In Kahneman’s philosophy, simple heuristics could never predict better than rational models; in our research we have shown systematic less-is-more effects.

Pegando o gancho da citação, implícito nessa crítica “absolutista” aos “rótulos” está a ideia de racionalidade lógica, e a rotulagem é um desvio que levaria a resultados inferiores ao emprego de uma visão racional.

Porém, se pensarmos do ponto de vista da racionalidade ecológica, ou seja, como diz Gigerenzer, a racionalidade de match entre heurística e ambiente, o rótulo pode ser muito eficiente em permitir a comunicação das pessoas, facilitar a ação coletiva, estabelecer um commong ground etc.

Veja que, quando eu me identifico como de esquerda, isso permite estabelecer vários common grounds que facilitam a comunicação, pois vários pressupostos são (supostamente), compartilhados. Do mesmo jeito quando alguém se afirma negro, feminista, trans-gênero etc. É claro que os rótulos podem sim dar margem à confusão, quando há um mismatch entre a heurística e o ambiente. Mas solução não é almejar uma racionalidade impossível, sem heurística, mas adaptar a heurística ao ambiente. Quando Rorty dizia que é preciso redescrever o outro, para criar solidariedade, creio que funciona bem se interpretado nessa chave de racionalidade ecológica.

Aliás, a falha em entender a racionalidade ecológica é que leva muita gente a criticar as simplifações de discursos da política. Elas não entendem que a simplifação e o encaixe de rótulos é uma forma eficiente (cognitivamente, em termos computacionais) das pessoas absorverem informações complexas sobre políticos e partidos. Aliás, um dos problema de termos muitos partidos é que uma das funcões deles, qual seja, reduzir o esforço cognitivo na hora de escolher em quem votar, não é bem feita, pois é difícil diferenciar os partidos no espectro ideológico.

 

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