Gig, “sharing” e Sharing economy

Via um comentário no CT, entrei em contato com uma distinção que me pareceu útil naquilo que se chama de economia do compartilhamento (Uber, AirBnB etc.).

Segundo o comentário no CT, teríamos em primeiro lugar a gig economy, que seriam empresas feitas fundamentalmente de funcionários autônomos ou freelancers. A força fundamental aqui é a capacidade de se fazer muitos trabalhos de qualquer lugar, em tempos diferentes. Quem trabalha no setor de TI já está acostumado com isso, na medida em que é fácil fazer um site, por exemplo, com pessoas trabalhando remotamente e reuniões por skype e utilização de softwares na nuvem para gestão de projetos. Em resumo, a gig economy seria sobre micro-gerenciamento de trabalho de forma mais flexível (aka sem direito trabalhista e sem garantia alguma de renda).

Em segundo lugar, teríamos a “sharing” economy. As aspas no “sharing” (compartilhamento) se justificam porque o caso paradigmático é o Uber e, como sabemos, não há propriamente compartilhamento no Uber (apesar do Uber pool). O Uber seria diferente do gig porque teria o micro-gerenciamento do capital (os carros), para além do micro-gerenciamento do trabalho.

Por fim, teríamos a Sharing economy, que se trata de troca direta (sem dinheiro) com auxílio de reputação. Exemplos de serviços produzidos assim são o stackoverflow (novamente, programadores estarão familiarizados), que consiste basicamente em um site sofisticado de perguntas e respostas, mas que substitui a tradicional assistência técnica de softwares, por exemplo. Talvez a wikipedia seja outro exemplo dessa Sharing economy (ou então seria outra categoria? Gitf economy?). Um outro site que talvez seja um exemplo dessa situação seria o biliive.

E por que estou chamando a atenção para essas categorias? Porque elas apontam para transformações na economia mundial e do mundo do trabalho, e a esquerda precisa de alguma forma atualizar sua agenda par lidar com essas questões. Apenas tentativamente, aponto aqui algumas pautas que podem ser úteis para a esquerda pensar essas transformações.

1. Um desafio grande dessas mudanças é o fim do emprego e a existência apenas de trabalhos temporários. De um lado, isso permite mais flexibilidade, facilitando a vida do trabalhador (pensem na quantidade de horas que perdemos nos deslocando de casa para o trabalho e o ganho que isso pode representar na vida do trabalhador). De outro, essa mesma flexibilidade pode significar instabilidade tanto na identidade, quanto na renda ( durante muito tempo nossa identidade foi orientada a partir da vida na empresa, que é onde passávamos a maior parte do dia). Essa questão da identidade, por óbvio, vai dificultar ainda mais a ação coletiva, posto que estaremos mais atomizados. O que deve significar mais decadência para os sindicatos.

Uma solução possível é o fortalecimento das cooperativas, em substituição ou em paralelo aos sindicatos. Elas permitem a organização coletiva dos trabalhadores, engendram alguma solidariedade e sentimento de pertencimento e podem permitir algum sistema de ajuda mútua em tempos de crise. No Brasil os trabalhadores formais são obrigados a se filiar a um sindicato. Mas os autônomos não tem organização coletiva nenhuma. Talvez eles pudessem se organizar em cooperativas, ao invés de ficar a mercê de empresas como o Uber.

2. Boa parte das soluções de micro-gerenciamento (como Uber, AirBnB etc.) dependem de algoritmos para determinação dos preços, e portanto para distribuição dos ganhos entre capitalistas e trabalhadores. A regulação dos algorítimos, exigindo transparência e que eles incorporem mecanismos de fairness (inclusive contra racismo, machismo etc.) são um caminho possível. Com o potencial lado positivo de talvez gerar mais inovação pela publicização dos algoritmos. Obviamente, no mundo da propriedade intelectual, as empresas lutarão contra isso. Mas não vejo perdas de eficiência econômica em exigir essa transparência.

3. A desigualdade de renda tenderá a se acentuar, com as crises afetando mais fortemente os trabalhadores menos demandados. Na medida em que é mais fácil encerrar contratos, crises serão mais problemáticas. Nesse sentido, políticas como a renda mínima universal e de demanda efetiva serão mais importantes do que nunca. Estabilizadores automáticos serão fundamentais e precisaremos achar alguma alternativa para o seguro-desemprego, talvez na forma da renda básica, ou na forma de algum outro seguro contra as instabilidades do mundo.

4. Jornada de trabalho e balanceamento vida-trabalho (sic). Se é verdade que a flexibilidade vai permitir melhorar a qualidade de vida para algumas pessoas (menos horas trabalhadas e menor tempo de deslocamento), de outro vai permitir aumentar o tempo de trabalho (a famosa mais-valia absoluta). No fim das contas, uma hora no metrô pelo menos é uma hora a menos de exploração direta. Talvez venha a ser necessário regras mandatórias para todas as pessoas, limitando a quantidade de tempo que elas podem vender por semana, bem como ser mandatório alguma espécie de licença-maternidade e licença-paternidade. Tudo o que a gente não quer é que os trabalhadores, competindo entre si, abram mão desses direitos, gerando ao final um prejuízo para toda a sociedade (é um clássico exemplo de dilema do prisioneiro).

Enfim, eu confesso que não tenho nenhum pensamento elaborado sobre o tema, nem pensei muito sobre o assunto. É provável que já tenha gente boa escrevendo com mais propriedade sobre o assunto. Se alguém tiver referência a esse respeito, agradeço menções nos comentários. Meu objetivo aqui é mais tentar iniciar alguma discussão sobre os temas, porque a gente precisa gastar tempo discutindo os temas e propondo soluções.

ps.: Outra possível solução talvez venha da utilização criativa pelas pessoas do governo aberto. Eu só não sei se nosso aparato regulatório e forma de funcionamento do governo está minimamente preparado para tal.

 

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Leituras sobre o Brexit

Pré voto pelo Brexit, li este excelente artigo escrito pelo Dani Rodrik, colocando alguns dos dilemas da UE, e o artigo do Pritchard referenciado pelo próprio Rodrik e que advogava o Brexit.

Pós Brexit, creio que vale a pena ler este texto do Tyler Cowen (que acho que vai longe demais ao defender o Brexit, mas útil por criticar a moralização do voto leave), este outro de um eleitor do Leave arrependido, e esta sociologia do voto leave, que recomendo particularmente. E também este texto no Crooked Timber, ainda que eu ache ele excessivamente esquemático e pouco baseado em dados empíricos.

Mas tudo isso me lembrou os resultados experimentais do jogo do ultimato. O jogo é bem simples, e funciona assim: duas pessoas jogam o jogo, A e B. A recebe (digamos) R$ 100,00, e deve decidir quanto desse dinheiro dar para B, e o restante fica para A. B, por sua vez, deve decidir aceitar a oferta de A, e nesse caso o jogo acaba com a divisão proposta por A, ou recusar, e nesse caso o jogo acaba com A e B saindo de mãos abanando. A ideia do jogo é testar quanto noções de justo influenciam em decisões que, fossem apenas calculistas, renderiam sempre o mesmo resultado (A ofereceria R$ 1,00 para B, que aceitaria, posto que R$ 1,00 é melhor do que nada). Estudos mostram que se A for muito “greedy”, isto é, oferece pouco para B, B prefere jogar dinheiro forma e punir A, por ter sido excessivamente injusto.

Então, o Brexit me lembra o jogo do ultimato, como se fosse algo assim: os beneficiados com a integração econômica ganham R$ 100,00, e dão um pouquinho para os “perdedores”. Estes, sabendo que o Brexit vai significar perder mesmo o pouquinho, preferiram implodir os ganhos de todo mundo, para punir a injustiça do resultado. Com uma diferença talvez: não se trata apenas de receber mais subsídios ou benefícios, mas de não conseguirem se sustentar mais por conta própria.

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Sobre o bilhete escolar racista e a negação do racismo cotidiano no Brasil

racismo-2-ed

O bilhete acima foi enviado por uma coordenadora a uma mãe de dois filhos negros, que têm os cabelos bem crespos. Tem uma reportagem dando mais detalhes da história. A mãe postou no Facebook dela: “Meus filhos Antônio e Benício foram vítimas de preconceito por causa do cabelo deles, recebi essa mensagem na agenda escrita pela coordenadora da escola que até então tinha meu respeito, daqui em diante…”.

Uns amigos me perguntaram se eu achava que era racismo. Eu apenas pensei que, fosse com meu filho, eu ficaria p* da vida e iria tomar satisfações com a coordenadora, e exigir explicações e retratação na hora. Mas há quem ache que a professora só estava preocupada com “piolhos”.

Ocorre que o discurso da professora está dentro do padrão das atitudes racistas presentes nas nossas escolas e na sociedade em geral. Para tentar mostrar esse ponto trago alguns depoimentos coletados em estudos. Vejam primeiramente esse depoimento, disponível num artigo, de uma estudante já na universidade:

Quando eu vou no hospital ele fica falando: “menina, se cair piolho desse cabelo…”
Aí eu falo pra ele: “professor, se cair piolho do meu cabelo é a mesma coisa de cair piolho do seu cabelo, do cabelo daquela menina”. Mas ele fala isso inúmeras vezes. “Professor, eu vou colocar o movimento negro atrás de você, porque isso é racismo!”.
(ele): “não é racismo, não. É que você tem o cabelo crespo, tem que prender mais”. “Mas meu cabelo nunca teve piolho nenhum; se cair um piolho aqui, vai ser igualzinho
ao de P.” que é outra colega aqui. “Por que você não reclama com P? O cabelo dela é solto, o cabelo dela é no meio das costas”. (ele): “Não, você está entendendo erado”. “Olha que eu vou colocar o movimento negro atrás de você!”, eu falo na “resenha”, porque ele é uma pessoa muito poderosa aqui na (Universidade), que manda e desmanda. Então, tem que falar meio na “resenha”. Você fala com raiva, porque tem que falar na “resenha”, porque no fundo, no fundo, essas coisas do poder existem, vão continuar existindo, e eu preciso superar isso, porque eu quero ser médica…”

Como se nota, essa história de brancos quererem interferir no cabelo do negro usando a desculpa do “piolho” — associado a sujeira, doença etc. — não é nova. Vejam então o retratado em outro artigo (a passagem é na verdade citação de um livro), por uma pesquisadora que presenciou a seguinte cena, com a seguinte fala:

Na sala de aula, a professora diz a Marisa (negra): “Você precisa falar para a sua mãe prender o seu cabelo. Olha só que coisa armada! ” Fala isso em tom alto, que pode ser ouvido por todas as crianças. Depois disfarça, alterando o tom da voz, talvez por se lembrar da minha presença: “Se não você pode pegar piolho, na escola tem muito!” (CAVALLEIRO, 2006, p. 64).

Novamente há a premissa racista de que o cabelo natural do negro é ruim, errado, feio, que deve ser modificado para ficar o mais próximo possível ao do branco. E, claro, a utilização do “piolho” como desculpa para justificar o racismo. O livro citado documenta muitos outros exemplos similares, os quais a esmagadora maiores das pessoas negras irão reconhecer como familiar. Vejam este outro:

A professora se dirige a uma criança e lhe pergunta: “Quem mandou você soltar esse cabelo? Não pode deixar solto desse jeito. Por que soltou? Ele é muito grande e muito armado. Precisa ficar preso” [grifos meus, MG]. Em seguida, energicamente pega uma maria-chiquinha do pulso da menina, prendendo-lhe os cabelos.

É óbvio que esse padrão, que se reproduz à exaustão em várias esferas da sociedade, acaba tendo impacto nas crianças e, depois, na própria vida adulta dessas pessoas. No mesmo livro, a autora vê evidência para essa hipótese ao narrar a seguinte cena:

Quero saber o nome de uma menina e pergunto a Maiara (negra), próxima a mim, o nome da amiga. Ela indaga: “Qual? Aquela descabelada?”. Aproveitando-me dessa fala, pergunto a ela se há mais “meninas descabeladas”. Ela aponta quatro colegas negras.

Eu poderia ficar repetindo exemplos aqui ad infinitum. Finalizo os exemplos trazendo aqui um trecho de uma música recente da Beyoncé, que vive em outra sociedade extremamente racista. Diz o trecho da canção:“I like my baby hair, with baby hair and afro”. O contexto desse trecho, entre outros, é que 5 mil pessoas fizeram uma petição sobre o cabelo da filha dela!

Então, infelizmente, a norma da nossa sociedade é que o tempo inteiro as pessoas estão falando do corpo dos negros, dizendo que é feio, ruim, sujo, associado a doenças — e que quanto mais branco for esse corpo, melhor. Muitas vezes não dito abertamente, mas o sentido é sempre esse. Mas se a mãe reclamou do bilhete é porque ela sofreu isso na vida dela, já presenciou isso de outras pessoas com os filhos dela. Eu, que não tenho filhos, só consigo imaginar a dor que deve ser pra ela ver o racismo da sociedade ser dirigido o tempo todo contra os filhos dela. O tempo todo. O resultado disso está exposto no famoso experimento com crianças negras, que são expostas a bonecas brancas e negras, e elas têm de apontar quais a bonecas são legais, bonitas, feias e ruins.

Então, é contra isso que a mãe tem de lutar todos os dias dela. Contra esse ataque à autoestima dos filhos, feitos às vezes abertamente, outras vezes subrepticiamente, para se “combater os piolhos”. E quando a coordenadora fala que “ficaria mais feliz com o cabelo deles mais baixo ou preso”? Mesmo que tivesse também a preocupação do piolho, será que ela escreveu bilhetes para mães de  filhos brancos se dizendo feliz com o cabelo cortado baixo ou preso? E não é que o cabelo dos meninos seja muito grande. Perguntem-se se as meninas de cabelos lisos vão ter cabelos menores do que esse, ou se vão sempre usá-los presos, nessa escola. A gente já sabe a resposta. Mas ainda queremos fingir que não é racismo “de verdade”, como disse um amigo meu. Isso é racismo de verdade, e tem um impacto profundo na autoestima das crianças negras.

E ela ainda tem que aguentar muita gente negando que é racismo, negando que a autoestima dos filhos será afetada, negando que é racismo de verdade, argumentando que é exagero, que “prejudica” a luta contra o racismo lutar contra essas coisas. É uma violência dupla essa, de uma sociedade que é racista e que nega o racismo, que recrimina quem quebra o silêncio, demandando o silêncio das vítimas. Não sabem o mal que faz às pessoas, fazendo elas se sentirem paranoicas, nunca sabendo se é racismo ou não. É racismo sim, tem que se rebelar sim. Sei que meu filho ou filha será negro/negra, e vou fazer o barraco ao menor sinal de racismo.

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BitCoin e Tecnocracia

Para quem se interessa sobre Bitcoin, ou está disposto a ler sobre bitcoin e ganhar indiretamente uma discussão sobre os limites da tecnocracia, ou que não há argumentos ou decisões neutras politicamente (no sentido de exclusivamente técnicas), recomendo este texto de Ben Thompson na Stratechery.

Trecho:

It was Twitter that exposed me to fact that I, despite my expressed support for women and diversity, had my own blind spots. Last spring in Twitter Needs New Leadership I painstakingly laid out how the service’s minuscule growth and seeming inability to evolve the product were a significant problem necessitating change; the next day I was called out on Twitter for not even mentioning Twitter’s abuse problem.

The criticism was absolutely fair: a platform that is inhospitable for 50% of the world’s population will by definition have a growth problem, and while I still don’t think it’s the primary reason Twitter’s growth has stalled, to not even acknowledge the effect of abuse was a pretty bad oversight on my part that falls uncomfortably close to my International Women’s Day observance: being a male I had to be hit over the head by it.

 

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Sobre a má intuição de estimadores não-viesados

Nota: este texto é uma reflexão sobre um tema nerd de estatística, de interesse para quase nenhum dos meus leitores. Coloco aqui no blog apenas porque há um ou dois leitores potencialmente interessados, e para documentar minha reflexão a respeito do tema. Ainda estou quebrando a cabeça para ver se entendi o que acho que entendi. E escrever ajuda a consolidar as ideias. Logo, logo voltaremos à programação normal.

Update: atualizei o texto para ficar mais claro.

##########

Um dos objetivos tradicionais da estatística frequentista é a obtenção de estimadores não-viesados, que basicamente significam que, em média, a estimativa é igual ao verdadeiro valor do parâmetro (estimado). A intuição por trás do viés (ou ausência dele) é dada, em geral, pela figura abaixo:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É realmente uma infelicidade que nós aprendamos a intuição de um estimador não-viesado dessa forma, pois a gente tende a pensar que nossas estimativas vão ficar homogeneamente distribuídas em torno da média. Nada mais longe da verdade, exceto para alguns casos particulares, como a distribuição normal. Dou a seguir um exemplo trivial onde isso não acontece*, e discuto qual a intuição mais adequada para o conceito de não-viesado.

O gráfico abaixo mostra uma simulação de 100 estimativas pontuais, utilizando um estimador não viesado da média de uma variável aleatória cuja distribuição é uma LogNormal ao quadrado. Como se pode ver, todas as estimativas são próximas de zero, quanto o verdadeiro valor do parâmetro é muito maior.

chart_unbiased

O que o gráfico acima mostra (código em R abaixo, para replicar o resultado), é que não há razão (necessária) para que o estimador não-viesado fique próximo do verdadeiro valor do parâmetro.

Dou um outro exemplo de estimador não-viesado. É possível construir um exemplo de uma sequência (finita) de estimativas cuja média é próxima do verdadeiro valor do parâmetro, e no entanto todas as estimativas individuais são distantes do verdadeiro valor. Suponha que o verdadeiro valor do parâmetro é 100. Meu estimador funciona da seguinte maneira: com probabilidade .99, a estimativa é zero, e com probabilidade .01 a estimativa é 10.000. Então, em média meu estimador é igual ao verdadeiro valor do parâmetro, ainda que nunca seja igual ao verdadeiro valor do parâmetro, nem mesmo um valor próximo dele.

Que a gente tenha uma intuição errada do que significa não viesado é ilustrativo de como é difícil ensinar (e aprender) estatística. Acredito que a questão está relacionada com estimadores consistentes, uma vez que, à medida que o tamanho da amostra vai para infinito, o valor converge para o verdadeiro valor do parâmetro. Os exemplos acima são de estimadores não-consistentes, salvo melhor juízo.

ps.: Meu exemplo (da simulação com o código do R) é diferente do Stats Exchange, e de propósito. Lá ele está crescendo a variância. Eu quis mostrar que, com a variância fixa, um estimador não viesado, na prática, é bastante “viesado” em relação ao verdadeiro valor do parâmetro. O que estou fazendo, matematicamente, é o seguinte: eu tenho uma v.a. X ~ N(mu, sigma^2). Sabendo que se X é Normal, então y = exp(x) ~ LN(mu, sigma^2). E estou interessado em E[y^2], que é igual a: exp(2*mu + 2*sigma^2). Usando mu = 1 e sigma = 2, segue que E[y^2] = exp(10). E vou estimar E[y^2] pela média amostral, que é um estimador não-viesado da média populacional. E em 100 amostras, minhas média amostral ficou bastante distante da média populacional.

Código do R:

unbiased <- numeric()
for (i in 1:100) {
  x <- rnorm(1e3, 1, 2) # var = 4, sd= 2
  x <- exp(x)
  x_sq <- x^2
  unbiased[i] <- mean(x_sq)
}
 
library(ggplot2)
tru <- exp(2+2*4)
df <- data.frame(x = unbiased, true=tru, y = 1:length(unbiased))
 
 
p <- ggplot(df, aes(x=x, y=y)) + geom_point( size=.7) +
 coord_flip() + geom_vline(aes(xintercept=tru), colour="blue") +
  annotate("text", label= "Verdadeiro valor do parâmetro", x = tru - 3e5, y = 20, colour= "blue" ) +
  xlab("Estimativa pontual") + ylab("sequência de observações") +
theme_bw()
 
p
 
ggsave("chart_unbiased.png", p)

 

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Projeto da Transparência Brasil de monitoria de construção de escolas

imagem_escola

A Transparência Brasil, onde agora trabalho como Diretor-Executivo, é uma das finalistas do Desafio de Impacto Social do Google com o aplicativo Cadê a Minha Escola, uma ferramenta que permitirá o monitoramento participativo da construção de escolas e creches públicas. O projeto pressionará governos locais a entregarem as obras sem atrasos e desvios de recursos públicos.

A maior parte das construções é financiada com verbas federais que são repassadas a governos locais para contratar empresas de construção civil. No entanto, boa parte dos investimentos não é concluída. De acordo com dados de 2015, 20% das obras foram abandonadas ou paralisadas e outras 34% registravam atraso médio de um ano letivo.

Enquanto isso a demanda por escolas e creches é alta: há milhões de crianças sem vagas em creches e 83% dos estudantes dependem de escolas públicas.  Clique aqui para acessar o site do Desafio de Impacto Social Google 2016 e votar em nosso projeto. Com um clique você pode ajudar a pressionar governos a entregarem escolas e creches no prazo.

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Educação no Brasil, Feynman e a Coréia do Norte

Lendo o artigo do Rufatto no El Pais sobre a educação no Brasil, me veio à cabeça um texto do Nobel de Física Richard Feynman sobre o ensino de física no Brasil nos anos 40 ou 50 (em inglês), e um artigo sobre o ensino de redação na Coréia do Norte (também em inglês). Estou sem muito tempo para elaborar, mas deixo aqui trechos dos três textos que pelo menos sugerem a relação entre eles.

Do Rufatto,

Este momento que vivemos no Brasil, de intolerância, de sectarismo, de fanatismo, deve-se à ausência de aprendizado do debate. Somos fruto de uma sociedade hipocritamente consensual, pouco afeita à discussão, com um viés autoritário. Ao invés de impedir a circulação de ideias no ambiente escolar devemos é promovê-la, ampliá-la, incentivá-la, pois a educação válida é aquela que nos capacita para o exercício da cidadania, única garantia para uma sociedade democrática.

Do Feynman,

I discovered a very strange phenomenon: I could ask a question, which the students would answer immediately. But the next time I would ask the question – the same subject, and the same question, as far as I could tell – they couldn’t answer it at all! For instance, one time I was talking about polarized light, and I gave them all some strips of polaroid.

(…)

After a lot of investigation, I finally figured out that the students had memorized everything, but they didn’t know what anything meant. When they heard “light that is reflected from a medium with an index,” they didn’t know that it meant a material such as water. They didn’t know that the “direction of the light” is the direction in which you see something when you’re looking at it, and so on. Everything was entirely memorized, yet nothing had been translated into meaningful words. So if I asked, “What is Brewster’s Angle?” I’m going into the computer with the right keywords. But if I say, “Look at the water,” nothing happens – they don’t have anything under “Look at the water”!

Do artigo sobre a Coréia do Norte:

I emphasized the importance of essays since, as scientists, they would one day have to write papers to prove their theories. But in reality, nothing was ever proven in their world, since everything was at the whim of the Great Leader. Their writing skills were as stunted as their research skills. Writing inevitably consisted of an endless repetition of his achievements, none of which was ever verified, since they lacked the concept of backing up a claim with evidence. A quick look at the articles in the daily newspaper revealed the exact same tone from start to finish, with neither progression nor pacing. There was no beginning and no end.

Como falei, não tenho muito tempo de elaborar a relação entre os três textos, mas imagino que a ideia está meio óbvia: querem piorar nossa educação, que é bem ruim tendo essa tradição muitíssimo bem descrita pelo Feynman, adicionando a tradição da Coréia do Norte, de acabar com o pluralismo e a ideia de fundamentar opiniões divergentes com argumentos e evidências.

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