A superioridade moral do governo Grego

Tem uma expressão em inglês, que não sei se tem em português, que é “the moral high ground”. Seria “a superioridade moral”. Cito Alex Tabrarrok, do Marginal Revolution, cujo lema é “small stepts toward a better world”, criticando a abordagem… marginalista.

In more recent times, civil unions have gone nowhere while equality of marriage has succeeded beyond all expectation. The problem with civil unions, and with the synthetic and marginalist approach more generally, is that even though it offers everyone something that they want, it concedes the moral high ground–perhaps there is something different about gay marriage which makes it ok to treat it differently–and for that reason it attracts few adherents. Moreover, the argument for civil unions doesn’t force the opposition to enunciate the moral arguments for their opposition and when the moral ground of the opposition is weak that is a strategic failure.

O que o Syriza está fazendo, em minha modesta opinião, é “take the moral high ground”, ou seja, adotar uma superioridade moral. Nenhuma grande mudança vem sem a surperioridade moral. O que a Troika tem feito com a grécia é atacar o governo Grego, forçar o povo a humilhantmente defenestrar o governo Grego.

O Yanis, ministro das finanças Grego, defendeu no blog dele a escolha de fazer o referendo para o povo grego decidir sobre se aceitam ou não a proposta da Troika. Como dizem os gringos, “make no mistake”. É uma disputa de narrativas. A narrativa neoliberal, no seu melhor, foi bem colocada pelo Daniel Davies no Crooked Timber ainda em Janeiro de 2015.

Don’t think of the Greek debt burden, either in cash € terms or as a ratio to GDP, as an economic quantity. It basically isn’t an economically meaningful number any more. The purpose of its existence is as a political quantity; it’s part of the means by which control is exercised over the Greek budget by the Eurosystem. The regular rituals of renegotiation of the bailout package, financing of debt maturity peaks and so on, are the way in which the solvent Euroland nations exercise the kind of political control that they feel they need to have if they are going to be fiscally responsible for the bills. There’s more than a couple of Germans I’ve spoken to over the last few years who have pointed out that although Germany got massive debt relief in the twentieth century, it got it in the context of an equally massive national admission that the entire political system was rotten and needed to be totally restructured with foreign help; this was also the basis on which the integration of Eastern Germany was managed in the 1990s. Seeing the peripheral Eurozone debt in isolation from the politics of European integration is a sure way to lead yourself up blind alleys.

Com relação à narrativa acima, eu gostaria apenas de lembrar alguns fatos. 1. Ela não coloca culpa nenhuma da crise grega na Troika ou no sistema financeiro em geral, nem na ideologia neoliberal, que obviamente foi a que prevaleceu na Grécia antes da crise e, mais ainda, depois da crise. 2. Surpreendentemente, ela sugere que as políticas de austeridade funcionavam na Grécia, o que não é verdade. 3. Sorrateiramente, a direita (ainda que o Daneil seja provavelmente de esquerda, o discurso é o da direita) viola a lei de Godwin e compara a Alemanha nazista com a Grécia. Ora, a natureza do desastre nazista é incomparável com a Grécia, e portanto as demandas por controle político da Grécia não se sustentam. Além disso, a reforma política alemã veio acopanhada de uma massiva injeção de recursos e investimentos pelos EUA, no famoso plano Marshal. Não teve demandas por políticas de austeridade. Ao contrário, o objetivo era evitar recriar as condições que permitiram a emergência do nazismo. O que leva ao quarto ponto. 4. Na narrativa, o que está em jogo não é apenas o o controle político, mas o projeto de estado de bem-estar social e justiça na Europa. As políticas da Troika correm o risco de, justamente, estimular soluções xenófobas e nacionalistas do pior tipo na Grécia, o que se complica, hoje em dia, com o problema geopolítico da Rússia (que é o sexto ponto). 6. Uma saída do Euro pela Grécia a levaria para fora da esfera de influência da UE e em direção, óbvio, da Rússia.

Por fim, a premissa da análises da direita, e que fazem parte da narrativa, é que o Syriza são populistas (no pior termo da palavra, mas a qual eu voltarei abaixo), interessados em jogar para a torcida e, portanto, cínicos e/ou hipócritas. Eles não consideram a possibilidade do Syriza falar sério, quando Yanis, por exemplo, falou o seguinte, antes mesmo de ser ministro Grego:

Europe’s crisis is far less likely to give birth to a better alternative to capitalism than it is to unleash dangerously regressive forces that have the capacity to cause a humanitarian bloodbath, while extinguishing the hope for any progressive moves for generations to come.

Do ponto de vista do pano de fundo ideolófico, trata-se, creio, da importância de colocar as pessoas no controle do processo social, ainda que limitadamente, ou colocar o mercado não só como meio, mas como um fim em si mesmo. Ao convocar o referendo, o que mais irrita a Troika e a direita é que o povo está sendo chamado a decidir. E, sendo partes da elite e com uma concepção elitista do mundo, isso é um risco terrível para eles. Afinal ,se o povo puder decidir, porque precisaremos das elites para decidirem por nós? Como disse, Yanis, novamente:

the historian of economic thought, Philip Mirowski, has highlighted the neoliberals’ success in convincing a large array of people that markets are not just a useful means to an end but also an end in themselves. According to this view, while collective action and public institutions are never able to “get it right”, the unfettered operations of decentralised private interest are guaranteed to produce not only the right outcomes but also the right desires, character, ethos even.

É assim que o Ministro de Finanças Alemão se desmentiu menos de dois meses depois de defender um referendo grego, e atacaou o governo Grego. A premissa de praticamente todas as narrativas de direita, implícia e explícitamente, é que o Syriza é populista. E o que querem dizer por populismo? Que querem utilizar o povo para avançar a própria agenda. E, embora seja verdade que esse risco existe, como diferenciar avanços democráticos de participação popular (um populismo legítimo) da manipulação pura e simples (populismo ilegítimo)? Ser cético quanto à possibilidade de aprofundar a democracia é uma coisa. Atacar quaisquer lutas por alternativas desligitimando-a com adjetivos negativos é desonestidade intelectual ou miopia seríssima. O sucesso do Syriza é um risco para o projeto tecnocático-elitista-neoliberal da União Européia. É isso que está em jogo. E é por isso que as esperanças de uma sociedade mais justa me levam a me solidarizar com o povo grego.

Termino com duas coisas. Umas palavras do Yanis, que eu acho que resume o que tem de mais importante nessa história toda para nós, da esquerda:

A Greek or a Portuguese or an Italian exit from the eurozone would soon lead to a fragmentation of European capitalism, yielding a seriously recessionary surplus region east of the Rhine and north of the Alps, while the rest of Europe (…) would be in the grip of vicious stagflation. Who do you think would benefit from this development? A progressive left, that will rise Phoenix-like from the ashes of Europe’s public institutions? Or the Golden Dawn Nazis, the assorted neofascists, the xenophobes and the spivs? I have absolutely no doubt as to which of the two will do best from a disintegration of the eurozone.

I, for one, am not prepared to blow fresh wind into the sails of this postmodern version of the 1930s. If this means that it is we, the suitably erratic Marxists, who must try to save European capitalism from itself, so be it. Not out of love for European capitalism, for the eurozone, for Brussels, or for the European Central Bank, but just because we want to minimise the unnecessary human toll from this crisis.

E um link para um blog de uma amiga da Natália, que é grega e vive na Grécia. Vejam o que ela está falando e vivenciando por lá (é em inglês). É o povo grego, e a democracia, no país que a criou, que tem a moral superior. Deveriam ter pelo menos.

Publicado em Manoel Galdino, Política e Economia | Marcado com , , , , , , , | 1 comentário

Hadley Wickham’s Master R Developer Workshop – Washington DC registration is open

Manoel Galdino:

R course in Washington, with Hadley Wickham.

Publicado originalmente em RStudio Blog:

“Master” R in Washington DC this September!

Join RStudio Chief Data Scientist Hadley Wickham at the AMA – Executive Conference Center in Arlington, VA on September 14 and 15, 2015 for this rare opportunity to learn from one of the R community’s most popular and innovative authors and package developers.

It will be at least another year before Hadley returns to teach his class on the East Coast, so don’t miss this opportunity to learn from him in person. The venue is conveniently located next to Ronald Reagan Washington National Airport and a short distance from the Metro. Attendance is limited. Past events have sold out.

Register today!

Ver original

Publicado em Política e Economia | Deixe um comentário

Democracia, eficiência e elitismo – links

Eu quero escrever um post sobre as três palavras do post, mas não tenho tempo agora. A questão é o tanto que a democracia (pensando aqui na ideia de responsividade ao demos) produz política coerente e eficiente, e o quanto de elitismo é necessário para salvar a democracia de si mesma (isto é, de produzir políticas ineficientes).

Deixo então três links, que pelo que li rapidamente discutem o tema de uma forma ou outra. Os textos dão o que pensar e ajudam a organizar algumas questões, mas aparentemente eu discordo deles. Mas fica como ponto de partida para quem quer pensar.

Tabarrok, do Marginal Revolution, resenha o livro Enlightment 2.0.

A resposta do autor.

A tréplica do Tabarrok.

Publicado em ciência, english, Política e Economia | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Pra você que nunca foi chamado de “querido” ou “meu amor” em discussões profissionais.

Xkcd

Esses dias, a Natália, minha namorada, escreveu no facebook dela:

Eis que, pela primeira vez em dois anos, numa discussão profissional fui chamada de “meu amor” por um homem >65 anos

Motivado pelo post dela, escrevi no meu facebook:

Se você acha que chamar uma mulher, numa discussão profissional, de “meu amor”, “minha querida”, “meu anjo” ou afins é ok, apenas pare. É ridículo e desrespeitoso com a profissional do outro lado, além de desrespeitoso com a mulher. E, se ela criticar você, apenas peça desculpas. E, se você acha que não tem nada demais, por favor, o mundo não gira em torno de nós, homens.

Eis que o post da Natália resultou em meras 17 curtidas, com 4 delas de homens. Já o meu post foi o mais curtido dos últimos 12 meses, com 71 curtidas, 18 delas de homens (12,5% das curtidas). No blog dela, ela comentou:

Das quase 60 mulheres que curtiram seu [meu] post, apenas uma, além de mim, entrou no debate. Mas toda vez que meu namorado rebatia um comentário em seu próprio post recebia muitos mais likes do que eu ou do que a outra mulher que se engajou.

Para ver quão rara é essa proporção de curtidas em se tratando do meu facebook, 60% dos meus amigos são homens, e nos posts mais curtidos dos últimos dias, a predominância é de curtidas de homens. Mesmo num post em que a proporção de mulheres poderia ser maior, como a atualização da minha foto de perfil, que teve 39 curtidas, 41% do total foram de homens. Ou seja, mais mulheres curtiram, mas nada numa desproporção tão grande quanto meu post acima. Fiz uma pesquisa entre os meus posts mais curtidos, nenhum chegou próximo dessa desproporção.

A Natália escreveu um belo texto sobre essa repercussão distinta entre os gêneros no blog dela. E várias amigas dela compartilharam o texto dela, comentando situações similares ou piores.

Juntando tudo isso, imediatamente eu me lembrei desse post do Matthew Yglesias, sobre políticas de identidade e como os grupos dominantes (homens brancos heterossexuais) agem como se a nossa identidade não influenciasse nossa opinião. Eis o que diz Yglesias:

Something that I thought I noticed soon after I graduated college and moved to DC was that a lot of my female friends were very interested in the subject of street harassment. Later, thanks to the magic of social media and web traffic (check out the Facebook shares on this item!) I learned that I’d misconstrued this entirely. It’s not that women I was friends with were very interested in this subject. Women in general were interested. (…) It seemed like an idiosyncratic obsession rather than what it is: an alarmingly widespread social malady that a male-dominated media culture had kind of swept under the rug.

De fato, a minha impressão sobre a reação dos meus amigos homens ao meu post foi justamente a que Yglesias tinha até pouco tempo sobre “street harassment” e, confesso, a que eu também tinha em alguma medida até antes de começar a conversar sobre esse tema com a minha namorada: uma obsessão idiossincrática de algumas poucas mulheres. Não é que nós homens discordemos da importância desses temas. A gente simplesmente não entende o que elas passam e, francamente, esforçamo-nos muito pouco para entender. E temos muita dificuldade em admitir isso e fazer algo a respeito. E olhe que estou falando de um público extremamente minoritário no Brasil, que são de homens que supostamente se preocupam com igualdade entre as pessoas.

Rejection XKCD

Em geral, nossa primeira reação é como a dos meus amigos de Face:  achar exceções, situações-limite ou ambíguas, casos em que não se aplicam ou situações aparentemente similares pelas quais nós homens passamos.

Mas a simetria é falsa, e a incapacidade de nós homens percebermos isso apenas reflete nossa incapacidade de entendermos o quanto o que nos parece como neutro e universal nada mais é do que o reflexo da nossa identidade ser parte da identidade dominante. Citando novamente o Yglesias,

somehow an identity is something only women or African-Americans or perhaps LGBT people have. White men just have ideas about politics that spring from a realm of pure reason, with concerns that are by definition universal.

E por ser parte da identidade dominante, nós homens temos uma incrível incapacidade de perceber o quanto nossa posição nos beneficia, quanto prejudica as mulheres e, principalmente, como as diferenças são estruturais e devem ser vistas como tais.

A Natália refletiu sobre as diferenças de comportamento no blog dela, mas para mim uma se sobressai: o “desconforto que homens têm ao pensar em sua masculinidade (poder indisputado) afetada”. Reconhecer que nós, homens progressistas, contribuímos para a opressão das mulheres, minimizamos essa opressão e falamos não de um ponto de vista objetivo, mas de quem é cego às opressões, é too much para nossa identidade. Nós até admitimos que há machismo no mundo, mas não de nossa parte. E, principalmente, é difícil aceitarmos que nossas discordâncias decorrem da nossa identidade, e não de discordâncias intelectuais desinteressadas.

A luta das mulheres é inglória, portanto, não somente por terem de lutar contra o machismo, mas porque essa luta é recebida como exagero e encheção de saco por parte dos homens potencialmente aliados delas nessas lutas. Para nós, nossas opiniões decorrem de razões objetivas, não da nossa identidade.  Aliás, nós homens nem temos identidade, né?

Sem querer, meu post fez muito mais “sucesso”. Mas é óbvio que o protagonismo deve ser delas, não nosso. Até porque, até pela minha própria identidade, é óbvio que quem sabe o que é ou não mais relevante e onde o calo aperta são as mulheres, e não homens, progressistas ou não. Como disse a Natália no blog dela,

Só tenho uma certeza: estamos em um caminho sem volta, e a estratégia não passa por ceder aos estereótipos e abrir concessões — como falar menos, terceirizar post feminista ou falar hesitantemente, seja em uma reunião profissional ou no Facebook para os amigos. A estratégia passa por falar mais, cada vez mais, e falar assertivamente sim, senhor.

Eu, de minha parte, espero que isso aconteça cada vez mais. Se isso vai implicar que vou ter menos espaço, que vão me ouvir menos, que não serei mais o centro do universo e que vou ter de muitas vezes ficar calado, que seja. É melhor perguntar para elas o que acham e escutar o que têm a dizer. Será um mundo mais diverso e em que nós aprenderemos muito mais, se estivermos dispostos a ouvir. Vai afetar a minha identidade? Sim, vai. Mas quanto mais cedo refletirmos sobre nossa identidade masculina e qual o lugar dela nesse mundo, melhor para todos nós.

Porn xkcd

Publicado em Manoel Galdino, Política e Economia | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

A desvalorização do Real

Li o texto do Bráulio, colega meu da época da faculdade e excelente economista, na Folha, em que ele fala sobre como parte da desvalorização do Real frente ao Dólar é um movimento mundial das principais moedas do mundo. Para ilustrar o ponto, eu fiz um gráfico, que coloco abaixo.

RplotCada observação é a média semanal da taxa de câmbio. Para poder comparar as várias taxas de câmbio das diferentes moedas, eu considerei que a taxa de câmbio de cada país em abril de 2014 era 100 (valor base de referência).

Como podemos ver, o dólar se valorizou em  relação a todas essas moedas nos últimos 12 meses. Contudo, o dólar se valorizou mais frente ao Real, indicando que as causas internas contribuíram um pouco para a subida excessiva do dólar.

 

 

 

Publicado em Manoel Galdino, Política e Economia | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

O Trilema Político da Dilma

Tendo visto o tamanho dos protestos, procurei imaginar o que a Dilma poderia fazer e não consigo imaginar alguma saída para ela. E tentando sistematizar o porquê dessa minha conclusão, cheguei na formulação – tomada emprestada do economista Dani Rodrik – de um “teorema da impossibilidade” para o governo Dilma, expresso na forma de um trilema: é incompatível a participação popular de demanda por mais e melhores serviços e fim da corrupção, o presidencialismo de coalizão e governo fiscalmente responsável.

Para ver porque essas três coisas são incompatíveis, o presidencialismo de coalizão no Brasil requer um governo grande, com vários partidos nos ministérios e toda a corrupção que isso implica; o governo fiscalmente responsável requer uma combinação de elevação de impostos com corte de gastos, e a participação popular implica em uma demanda por melhores serviços e menores impostos. E as três coisas são impossíveis de serem obtidas ao mesmo tempo.

Nós podemos ter quaisquer duas das três coisas ao mesmo tempo, mas não as três. Podemos ter um presidencialismo de coalizão com déficit fiscal e atendimento (de curto prazo) das demandas populares, um governo que enfrenta o congresso e atende às demandas populares e é fiscalmente responsável (Collor? Lula I até 2005? Jango?) ou um governo fiscalmente responsável com presidencialismo de coalizão, mas que rifa as demandas da população (Dilma II até agora).

Imaginem, por exemplo, que a Dilma resolvesse investigar com o máximo rigor os escândalos da Lava jato. Isso implicaria em punir não apenas membros do PT, mas em lideranças do congresso, como Cunha e Renan. E eles interpretariam esse movimento não como uma súbita iluminação da Dilma, mas como uma perseguição a eles, e eles retaliariam (como foi aliás o caso de Jefferson e o Mensalão: ele julgou que Dirceu queria pegá-lo, e ele retaliou falando do Mensalão), gerando uma crise institucional: no mínimo paralisia decisória, no máximo o impeachment da Dilma. Ao final, um vitória de Pirro para um dos lados.

Creio que é o trilema que explica, em parte pelo menos,  as escolhas da Dilma em meio que ignorar as demandas da população. Ela simplesmente não pode atendê-las sem correr o risco de provocar uma crise institucional (enfrentar o congresso e os partidos da base aliada) ou de provocar uma crise econômica de verdade (uma recessão não é uma depressão). E no entanto, à medida que os protestos crescem, ela será cada vez mais empurrada para uma escolha de sofia.

A tentativa do governo, até agora, tinha sido em caracterizar as demandas como golpismo ou insatisfação de quem não votou em Dilma, de forma legitimar a escolha do governo em ignorar as opções. Se essa estratégia desse certo, a Dilma conseguiria se safar mantendo as escolhas anteriores e gerando estabilidade para o seu governo. Como ela não está funcionando, ela está num beco sem saída. Eu aliás tinha apontado, de alguma forma, para essa estratégia num “ps.” a um post que escrevi comentando os desafios da Dilma logo após a reeleição dela.

Obviamente, do ponto de vista normativo, pensando no bem do país, o que nós queremos é que as demandas populares sejam atendidas, afinal queremos que a democracia seja efetiva. Mas não consigo ver como a Dilma pode encontrar uma saída para a crise. Aos que criticam o governo por reagir mal aos acontecimentos, eu apenas aponto para o fato de que não há saída boa, e tudo que ele fizer provocará muitas críticas, de um dos lados do trilema.

Publicado em Política e Economia | Marcado com , , , , , , , , , | 2 Comentários

Sobre o uso de Jargão

É frequente ouvir críticas ao uso desnecessário de jargão por especialistas, especialmente como uma forma de argumento de autoridade e para confundir, ao invés de explicar. Quem não já sentiu esse incômodo com o jargão alheio? Com médicos, advogados, economistas… A lista é grande.

Mas como as coisas não são tão simples, o jargão tem sua importância. Cito um trecho de um texto li sobre outro assunto, mas que expõe como a questão é mais complexa do que parece à primeira vista.

Wittgenstein, I recall, wrote to Russell that the Tractatus was so clear no one would understand it. How to understand such a paradox? What he meant was something like: there are no hints for beginners in this book. Consider the difference between a blueprint of a machine that is supposed to be read only by a highly-trained expert, and a blueprint that is supposed to be read by a novice just getting the hang of reading blueprints: oversimplified, cluttered with explanatory this-and-that. Which blueprint is clearer? The first is clearer to the expert, and that is what Wittgenstein meant. He had written a book for experts only; and – besides himself – there weren’t any. Arrogant joke, but you get it. The second blueprint is better for the beginner, but it causes the expert to tear his hair because it is oversimplified and misleading and he can’t tell which lines correspond to machine-parts and which lines are there to help the beginner figure out how to read the other lines. Clarity is in the eye of the beholder (grifos meus).

Assim, por exemplo, quando um economista fala em inflação do IPCA, ele se refere à inflação medida em certas regiões do país, numa dada cesta básica, com certos pesos, num dado período de tempo. Que o leigo ache que a inflação é a mesma para todos e com base nessa premissa errada faça críticas, apenas ilustra a importância de se definir precisamente os conceitos para que qualquer discussão possa avançar. É claro que o nível de precisão pode variar dependendo dos objetivos e do objeto, mas me parece claro que o jargão (e a teoria, mas deixo isso para outro post), tem um papel.

Como diferenciar o bom uso do jargão do mal uso, deixo para outro post. Mas sem um critério claro para diferenciar o bom uso do mal do mau uso, corre-se o risco de jogar o bebê com a água junto, como diz o ditado.

Publicado em ciência, english, Manoel Galdino, Política e Economia | Marcado com , , | Deixe um comentário