A desvalorização do Real

Li o texto do Bráulio, colega meu da época da faculdade e excelente economista, na Folha, em que ele fala sobre como parte da desvalorização do Real frente ao Dólar é um movimento mundial das principais moedas do mundo. Para ilustrar o ponto, eu fiz um gráfico, que coloco abaixo.

RplotCada observação é a média semanal da taxa de câmbio. Para poder comparar as várias taxas de câmbio das diferentes moedas, eu considerei que a taxa de câmbio de cada país em abril de 2014 era 100 (valor base de referência).

Como podemos ver, o dólar se valorizou em  relação a todas essas moedas nos últimos 12 meses. Contudo, o dólar se valorizou mais frente ao Real, indicando que as causas internas contribuíram um pouco para a subida excessiva do dólar.

 

 

 

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O Trilema Político da Dilma

Tendo visto o tamanho dos protestos, procurei imaginar o que a Dilma poderia fazer e não consigo imaginar alguma saída para ela. E tentando sistematizar o porquê dessa minha conclusão, cheguei na formulação – tomada emprestada do economista Dani Rodrik – de um “teorema da impossibilidade” para o governo Dilma, expresso na forma de um trilema: é incompatível a participação popular de demanda por mais e melhores serviços e fim da corrupção, o presidencialismo de coalizão e governo fiscalmente responsável.

Para ver porque essas três coisas são incompatíveis, o presidencialismo de coalizão no Brasil requer um governo grande, com vários partidos nos ministérios e toda a corrupção que isso implica; o governo fiscalmente responsável requer uma combinação de elevação de impostos com corte de gastos, e a participação popular implica em uma demanda por melhores serviços e menores impostos. E as três coisas são impossíveis de serem obtidas ao mesmo tempo.

Nós podemos ter quaisquer duas das três coisas ao mesmo tempo, mas não as três. Podemos ter um presidencialismo de coalizão com déficit fiscal e atendimento (de curto prazo) das demandas populares, um governo que enfrenta o congresso e atende às demandas populares e é fiscalmente responsável (Collor? Lula I até 2005? Jango?) ou um governo fiscalmente responsável com presidencialismo de coalizão, mas que rifa as demandas da população (Dilma II até agora).

Imaginem, por exemplo, que a Dilma resolvesse investigar com o máximo rigor os escândalos da Lava jato. Isso implicaria em punir não apenas membros do PT, mas em lideranças do congresso, como Cunha e Renan. E eles interpretariam esse movimento não como uma súbita iluminação da Dilma, mas como uma perseguição a eles, e eles retaliariam (como foi aliás o caso de Jefferson e o Mensalão: ele julgou que Dirceu queria pegá-lo, e ele retaliou falando do Mensalão), gerando uma crise institucional: no mínimo paralisia decisória, no máximo o impeachment da Dilma. Ao final, um vitória de Pirro para um dos lados.

Creio que é o trilema que explica, em parte pelo menos,  as escolhas da Dilma em meio que ignorar as demandas da população. Ela simplesmente não pode atendê-las sem correr o risco de provocar uma crise institucional (enfrentar o congresso e os partidos da base aliada) ou de provocar uma crise econômica de verdade (uma recessão não é uma depressão). E no entanto, à medida que os protestos crescem, ela será cada vez mais empurrada para uma escolha de sofia.

A tentativa do governo, até agora, tinha sido em caracterizar as demandas como golpismo ou insatisfação de quem não votou em Dilma, de forma legitimar a escolha do governo em ignorar as opções. Se essa estratégia desse certo, a Dilma conseguiria se safar mantendo as escolhas anteriores e gerando estabilidade para o seu governo. Como ela não está funcionando, ela está num beco sem saída. Eu aliás tinha apontado, de alguma forma, para essa estratégia num “ps.” a um post que escrevi comentando os desafios da Dilma logo após a reeleição dela.

Obviamente, do ponto de vista normativo, pensando no bem do país, o que nós queremos é que as demandas populares sejam atendidas, afinal queremos que a democracia seja efetiva. Mas não consigo ver como a Dilma pode encontrar uma saída para a crise. Aos que criticam o governo por reagir mal aos acontecimentos, eu apenas aponto para o fato de que não há saída boa, e tudo que ele fizer provocará muitas críticas, de um dos lados do trilema.

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Sobre o uso de Jargão

É frequente ouvir críticas ao uso desnecessário de jargão por especialistas, especialmente como uma forma de argumento de autoridade e para confundir, ao invés de explicar. Quem não já sentiu esse incômodo com o jargão alheio? Com médicos, advogados, economistas… A lista é grande.

Mas como as coisas não são tão simples, o jargão tem sua importância. Cito um trecho de um texto li sobre outro assunto, mas que expõe como a questão é mais complexa do que parece à primeira vista.

Wittgenstein, I recall, wrote to Russell that the Tractatus was so clear no one would understand it. How to understand such a paradox? What he meant was something like: there are no hints for beginners in this book. Consider the difference between a blueprint of a machine that is supposed to be read only by a highly-trained expert, and a blueprint that is supposed to be read by a novice just getting the hang of reading blueprints: oversimplified, cluttered with explanatory this-and-that. Which blueprint is clearer? The first is clearer to the expert, and that is what Wittgenstein meant. He had written a book for experts only; and – besides himself – there weren’t any. Arrogant joke, but you get it. The second blueprint is better for the beginner, but it causes the expert to tear his hair because it is oversimplified and misleading and he can’t tell which lines correspond to machine-parts and which lines are there to help the beginner figure out how to read the other lines. Clarity is in the eye of the beholder (grifos meus).

Assim, por exemplo, quando um economista fala em inflação do IPCA, ele se refere à inflação medida em certas regiões do país, numa dada cesta básica, com certos pesos, num dado período de tempo. Que o leigo ache que a inflação é a mesma para todos e com base nessa premissa errada faça críticas, apenas ilustra a importância de se definir precisamente os conceitos para que qualquer discussão possa avançar. É claro que o nível de precisão pode variar dependendo dos objetivos e do objeto, mas me parece claro que o jargão (e a teoria, mas deixo isso para outro post), tem um papel.

Como diferenciar o bom uso do jargão do mal uso, deixo para outro post. Mas sem um critério claro para diferenciar o bom uso do mal do mau uso, corre-se o risco de jogar o bebê com a água junto, como diz o ditado.

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O fim do p-valor?

A revista de psicologia “Basic and Applied Social Psychology” publicou um editorial em que eles anunciam que o Teste de  Significância da Hipótese Nula (NHST na sigla em inglês) foi banido do journal. De agora em diante, eles dizem:

prior to publication, authors will have to remove all vestiges of the NHSTP (p-values, t-values, F-values, statements about ‘‘significant’’ differences or lack thereof, and so on).

O primeiro problema que eu tenho é que às vezes os testes de significância são feitos não sobre parâmetros (ou hipóteses), mas sob o modelo (ou aspectos do modelo). Ou seja, eu faço um teste de normalidade dos dados, ou um teste de raiz unitária, ou um teste de correlação serial etc. Eles vão banir testes de hipótese sobre a adequação do modelo? Gelman, por exemplo, defendeu por um tempo o uso do p-valor para checar a adequação do modelo (posterior predictive checks).

Sobre Intervalos de Confiança, têm o seguinte a dizer:

Analogous to how the NHSTP fails to provide the probability of the null hypothesis, which is needed to provide a strong case for rejecting it, confidence intervals do not provide a strong case for concluding that the population parameter of interest is likely to be within the stated interval. Therefore, confidence intervals also are banned from BASP.

E o que eu acho de tudo isso? Apesar de Bayesiano e um crítico do NHST, creio que eles estão muito errados. Em primeiro lugar, não acho que “the probability of the null hypothesis (…) is needed to provide a strong case for rejecting it”. De fato, o p-valor é uma medida de evidência contra a hipótese nula. O que provavelmente eles estão falando aqui é de um resultado já antigo, dos anos 80, em que Bayesianos (Berger & Selke, 1987; Casella & Berger, 1987) mostraram que o p-valor exagera a evidência contra a hipótese nula. Mas tudo depende da priori, e a coisa toda é controversa. Eu, pessoalmente, acho a controvérsia meio inútil, pois penso que o problema do p-valor é outro. De todo modo, não acho que o BASP está justificado no argumento deles. Quanto menor o p-valor, para um dado n e um dado modelo (suposto correto), maior a evidência contra H0. Como eles podem achar o contrário disso, eu realmente não entendo.

O segundo argumento deles é que nós estamos interessados em P(hipóteses|dados), e não P(dados|hipóteses). Eu tenho simpatia pelo argumento (afinal sou Bayesiano), mas o pesquisador pode ter interesse nas duas coisas. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. O que se ganha e o que se perde com abordagens puras (Bayesiano puro e frequentista puro) está, creio, muito bem sintetizada numa resposta do Stats Exchange. Cito a parte mais relevante aqui.

A Bayesian partisan might criticize the frequentist confidence interval like this: “So what if 95 out of 100 experiments yield a confidence interval that includes the true value? I don’t care about 99 experiments I DIDN’T DO; I care about this experiment I DID DO. Your rule allows 5 out of the 100 to be complete nonsense [negative values, impossible values] as long as the other 95 are correct; that’s ridiculous.” [esse é o argumento da BASP, aparentemente, contra intervalo de confiança. MG]

A frequentist die-hard might criticize the Bayesian credibility interval like this: “So what if 95% of the posterior probability is included in this range? What if the true value is, say, 0.37? If it is, then your method, run start to finish, will be WRONG 75% of the time. Your response is, ‘Oh well, that’s ok because according to the prior it’s very rare that the value is 0.37,’ and that may be so, but I want a method that works for ANY possible value of the parameter. I don’t care about 99 values of the parameter that IT DOESN’T HAVE; I care about the one true value IT DOES HAVE. Oh also, by the way, your answers are only correct if the prior is correct. If you just pull it out of thin air because it feels right, you can be way off.”

Em resumo, o método frequentista nada diz sobre o experimento feito, e por outro lado o Bayesiano não tem garantia de cobertura (no longo prazo, meu estimador tem alguma garantia?).

Você talvez esteja se perguntando: “Mas Manoel, você não é um Bayesiano, crítico do p-valor e do NHST?” Sim eu sou, mas como falei, acho que os problemas são outros. Eu não tenho tempo de detalhar minhas visões agora, mas o problema está em primeiro lugar que a hipótese nula não é verdadeira, e a distribuição da estatística (t, digamos) é calculada supondo a verdade da H0. Mas isso é um problema para Bayesianos também, pois se eu for sério no que disse, minha priori dará probabilidade 0 para H0, e então a posteriori também assim o fará, não importam os dados. E o segundo problema está no p-hacking e nas múltiplas comparações, que tornam o p-valor matematicamente errado.

A melhor prática, na verdade, é a replicação, ou estudos pré-registrados. E eu tenho a intuição de que há alguma equivalência formal, sob certas condições, entre a cross-validação e replicação. Assim, a cross-validação também poderia ser uma outra forma de minorar os problemas do NHST.

Berger, J. O. and Sellke, T.  (1987). “Testing a point null hypothesis: The irreconcilability ofp values and evidence,” (with discussion). J. Amer. Statist. Assoc. 82: 112–139.

Cassella G. and Berger, R..  (1987). “Reconciling Bayesian and Frequentist Evidence in the One-sided Testing Problem,” (with discussion). J. Amer. Statist. Assoc. 82 106–111, 123–139.

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Incidental Parameters e alguns comentários incidentais sobre Bayes

Para aqueles (alguém?) leitores que adoram estatística, um link de um paper contando a história do problema dos parâmetros incidentais (conectado com nuisance parameters).

Eu achei esse paper por acaso, ao procurar exemplos de introduções à estatística Bayesiana, já que estou tentando escrever um artigo com esse objetivo, para cientistas políticos brasileiros. Aliás, do que tenho visto até agora, surpreende-me não ter visto alguém conseguir resumir em poucas linhas as vantagens da abordagem Bayesiana*.

* Isso não é de todo correto, na medida em que muitos enfatizam a capacidade de analisar dados combinando duas fontes de informação: os dados (via modelo/verossimilhança) e informação a priori. Eu estou cada vez mais convencido dessa vantagem, especialmente que agora advogo em favor do uso de informative priors. Mas em modelos hierárquicos, por exemplo, a vantagem não vem só daí. E sinto falta de argumentos sintetizadores que apresentem essas outra vantagens.

Além disso, há os argumentos filosóficos de que a abordagem Bayesiana é coerente e, para alguns poucos, a única racional. Ou ainda que não viola o princípio da verossimilhança. Mas eu não acho esses argumentos bons/convincentes. Sobre coerência, aliás, veja esse paper do Dawid, no JASA, de 1982. Ele deixa claro que a coerência é uma demanda impossível de ser alcançada (como aliás a racionalidade no sentido Bayesiano subjetivista).

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Deep Learning – links sobre o tema

Ando sem tempo para postar aqui no blog, mas para quem tem interesse em machine learning ou mais especificamente em deep learning e/ou algoritmos de redes neurais, vale a pena ler esses textos discutindo alguns trabalhos recentes que apresentaram problemas ou limites dos algoritmos de deep learning.

Deep Learning can be easily fooled, que explica como os algoritmos podem ser enganados e classificar imagens incorretamente.

Deep learning’s Deep Flaws, comentário detalhado sobre dois papers que fazem as críticas ao deep learning.

Entrevista sobre o que é o deep learning e arquitetura H20.

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O futuro sombrio que nos espreita

Li as reflexões do Diego Viana a propósito do atentado ao Charlie Hebdo, e o que mais me chamou a atenção são as pistas do que nos espera o futuro. Uma política do medo, da administração e controle, num contexto de pauperização e discriminação crescentes em todo o mundo ocidental. Eu acrescentaria o ressentimento, juntamente com o medo. Estar do lado dos perdedores e perceber que não foi lhe dada (e não será lhe dada) nenhuma oportunidade justa de estar do lado dos vencedores não cria medo, mas ressentimento. Quem tem medo é quem ainda tem muito a perder, nem que seja o passado.

E não consigo deixar de pensar naquilo que Bill Barnes escreveu, num outro contexto, mas a propósito dos problemas que a humanidade enfrenta e enfrentará com as mudançcas climáticas (que já estamos vivendo aqui em São Paulo com a crise da água):

To realize the scale and seriousness of our problem, you have to appreciate
how bad the present reality already is for the world’s most vulnerable populations,
how locked-in the worsening trends are, and how great are the obstacles to
effective counteraction. Realism means acknowledging that we now face, in much
of the world, a future of increasingly catastrophic environmental and public health
disasters, increasing criminal, predatory, and socially destructive behavior, amidst
unrelenting poverty. Much of the world is dramatically short in coping capacity,
and there is no prospect of the weak and nearly-failing states of the poor world
remedying that shortfall on their own. Some stronger but predatory states will not
only be of no help, but react in ways that make things worse for their neighbors. If
the rich societies and their powerful, quasi-democratic states do not devote
themselves to heading off the full realization of the approaching catastrophes, by
helping to grow coping capacity all over the less developed world, things are
going to get very nasty. The immediate problem is that, by these standards, the
recent policies of the richest of these societies and the strongest of these states
have been, on balance, highly dysfunctional. This deserves to be counted as a form
of state failure – perhaps the most important form.

(…)

Being on the winning side makes a difference. With reassurance from all sides, it is easy to set aside nascent doubts and to join one of the reigning narratives on how
these problems are intractable or disappearing, and on how our noble and
advanced countries are doing all they can (or, at worst, a tiny bit less).

Parece-me óbvio que esses desdobramentos todos vão abrir a porta para uma solução mais ou menos fascista, como sempre tem sido em momentos de crises agudas. Que a esquerda não esteja vendo esses sinais e o futuro sombrio que ele aponta, me assusta muito. Obviamente eu posso estar enganado na minha leitura da realidade, ainda mais que “prediction is hard, especially about the future”. Aqui eu tampouco me dei ao trabalho de argumentar mais detidamente sobre esses riscos futuros, mas apenas fazer mais alguns apontamentos e levantar mais algumas perguntas. Mas os sinais estão aí, juntamente com os ruídos. É preciso apenas extrair os sinais para ter um quadro completo e essa a tarefa que nos espera, embora decididamente não podemos esperar esse quadro para começar a agir. Basta ver o que está acontecendo em São Paulo (e a falta de mobilização real na questão da água) para mostrar como a esquerda está desarticulada nas questões ambientais.

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