Como escrever um texto (no futuro) na internet (de um possível futuro)

Tentando deixar em segundo plano o meu erro de avaliação futebolístico Deixando de lado as questões de futebol, quero falar mesmo é de outros assuntos que no momento me interessam mais. No blog do RealClimate, que é feito por cientistas do clima para o público leigo, há uma discussão interessante sobre o nível de complexidade das informações de um texto. Basicamente, a questão é: dado que os leitores têm uma capacidade de entendimento diferente sobre um assunto, qual o nível de complexidade e detalhamento ideal de um texto?

Essa é uma questão que me inquietea já há algum tempo, especialmente em meus textos acadêmicos. Por exemplo, quanto espaço devo dedicar a explicações de técnicas estatísticas quando a maior parte do público leitor brasileiro não entende lhufas de estatística? A solução ideal, de mais médio prazo, parece que está em desenvolver a web 3.0, de forma que os textos virtuais aproveitassem a plasticidade e fluidez possível (a princípio) da nova mídia que é a internet.

O que eu vislumbro é que um mesmo texto fosse expansível ou contraível em seu nível de complexidade e detalhamento, de acordo com a interação com o usuário, a partir de ferramentas que tornassem isso possível e prático. Atualmente temos basicamente apenas os hyperlinks e o google. Se você lê sobre um assunto e quer se aprofundar mais sobre um tópico em particular, ou mesmo entender o uso e/ou significado de uma plavra, frase etc. ou vamos ao google ou a wikipedia. E, se for o caso, clicamos num link fornecido pelo autor do texto.

Mas isso ainda é uma forma rudimentar e ineficiente. No caso do google e wikipedia como fontes auxiliares de informação, são textos (ou resultados de consulta) produzidos a partir de uma média das multidões. Embora isso seja melhor do que os mecanismos pré-internet, são largamente ineficientes na medida em que não são individualizados, mas feitos num estilo quase fordista, ou seja, para a grande massa. De fato, se alguém lê num artigo científico algo sobre modelos hierárquicos Bayseianos, ou lê aqui no blog ou ainda  ouve algo em uma aula, ao digitar no google ou procurar na wikipedia essa informação de background é desprezada e não é levada em consideração. Porém, é óbvio que, dada essa informação, é mais fácil determinar com mais exatidão qual dos milhares de conteúdo na internet é mais apropriado para a pessoa.

Não só isso, mas para cada pessoa há (em tese) uma combinação ótima de ordem de acesso aos múltiplos conteúdos existentes na internet que maximizaria o aprendizado ou uso da pessoa daquele dado conteúdo. Porém, hoje o que se faz é produzir muito conteúdo e então se organiza esse conteúdo em ordem de acesso de acordo com a média dos acessos das pessoas, independentemente do background de cada um. Na verdade, o que determina essa ordem de acesso é pura e simplesmente os acessos anteriores (no caso do google) e as intervenções dos usuários (no caso da wikipedia). Então, há um viés pró-existente ou ao mais usado na internet hoje em dia.

O hyperlink, que faz parte da web 2.0, é uma primeira tentativa de mofidicar isso. Na medida em que um autor de um conteúdo escolhe como vai contruir e sugerir os acessos mais relevantes para o seu leitor, os acessos podem seguir a ordem dos links e isso tende a facilitar a leitura e aprendizado. E como os hyperlinks hoje em dia estão em quase todos os textos, qualquer informação contextual necessária para entender um texto linkado é provida por mais links nesse novo texto e assim por diante.

Mas o hyperlink como conhecemos hoje em dia padece ainda de alguma limitações tanto da tecnologia atual, como da própria concepção e uso dele.

No caso das limitações, especialmente de tecnologia, elas residem principalmente na pouca eficiência de se clicar em vários links no meio de uma leitura. O mecanismo de pré-visuzaliação do wordpress, por exemplo, é claramente ineficiente, na medida em que é muito lento. É preciso um efeito tipo o aero, do windows vista/7, mais rápido e meio translúcido que permita ao usuário ler ou não o conteúdo de um hyperlink sem precisar abrir uma nova guia/aba ou janela do navegador. Outro problema é que é difícil linkar para partes específicas de textos, e na maior parte dos casos se linka para um site ou entrada num site, mas não entrada em prágrafos, seções, trechos etc. Em suma, a tecnologia ainda tem muito a se desenvolver.

Outra limitação diz respeito mais a formatos na internet. Para os links para subpartes de textos seria necessário modificar os padrões de formatação de textos, de forma que as partes que compõem um texto (seção, parágrafo, período, oração, frase, palavra) pudessem ser codificadas de forma a linkar para cada uma dessas possíveis partes de forma fácil e rápida, e que fossem inteligíveis em si mesma dada a informação contextual fornecida pelo texto do hyperlink.

No entanto, os navegadores, os computadores, a infra-estrutura, linguagem e formatação de internet ainda são pouco adaptados para tornar mais eficiente essa linkagem. A junção do hyperlink com o google seria efetivamente a construção coletiva do conhecimento. Textos seriam linkados não somente a outros textos, mas o próprio hyperlink seria objeto de direcionamento a lugares mais acessados por usuários em situações semelhantes.

Uma tal ferramente modificaria também nossa própria relação com a escrita. A norma seriam textos mais bem escritos e que demandariam mais esforço do autor. Afinal, se textos confusos, com parágrafos sem uma idéia central, e sem um desenvolvimento claro são naturalmente difíceis de ler, imaginem a leitura desses textos sem a informação contextual de um leitura com começo, meio e fim. Por outro lado, a necessidade de clareza e objetividade de uma sistema assim diminuiria a possibilidade de experimentação e alguns usos da linguagem que só adquirem significado com as informações contextuais. Isso é típico de figuras de linguagem como o humor, a ironia, sátira e mesmo neologismos ou uso de vocabulário mais rico. De todo modo, não creio que precisamos exagerar esses riscos, na medida em que se a tecnologia for eficiente, o background do hyperlink deverá ser suficiente, na maioria dos casos, para tornar inteligível ao usuário o novo conteúdo acessado.

Do ponto de vista tecnológico, creio que as dificuldades estão tanto na infra-estrutura (qual velocidade de internet e processamento é necessária para tal ferramenta?) quanto na criação dos programas. Falando sobre os programas, que acho que tenho uma noção melhor, a questão é fundamentalmente de data-mining ou machine-learning. Com data-mining é possível coletar informações dos usuários para predizer padrões de comportamento esperados para um dado usuário. Assim, voltando ao meu exemplo do link de “modelos hierárquicos bayesianos” um usuário que acessa muita coisa de estatísticas será levado a um hyperlink mais técnico quando clicar no link, enquanto um usuário que acessa material introdutório de um curso de graduação em, digamos, economia, poderia ir para um artigo da wikipedia ou similar.

Outra possibilidade é que os vários contéudos da internet sejam classificados pelos usuários de acordo com tags, pré-definidas ou defnidas pelso usuários e assim esses conteúdos seriam agrupados de acordo tanto com essas tags como pelo seu número de acessos (uma mistura do google com o last.fm, por exemplo). Então, seria possível, usando data-mining, prever a melhor recomendação de um site para um dado hyperlink para uma dada tag. Ou seja, os hyperlinks seriam criados em torno não mais de palavras aleatórias, mas tags. Quando eu falasse, aqui no blog, em modelos hierárquicos Bayesianos, e colocasse um link, eu colocaria não somente o endereço do site que estaria linkando, mas tags para o link, indicando quis os tipos de conteúdo mais adequados, na minha visão, ao meu texto. Ao juntar todas esses informações, o mecanismo de busca poderia indicar não somente o site linkado por mim, mas organizar um hypertexto mais adequado para o usuário. E se usasse ainda as informações individualizadas, essa recomendação de hypertexto seria mais eficiente ainda.

Isso pode levantar preocupações com relação à privacidade, na medida em que mais informações pessoais estariam nas mãos dos mecanismos de buscas, permitindo propaganda muito mais direcionada do que é hoje, com muito mais eficiência. Diz-se por aí que a estratégia de distribuir panfletos tem um retorno de apenas 1%, ou seja, de cada 100 panfletos, apenas 1 atinge o alvo efetivamente. Imagino que a progapaganda na internet ainda tenha eficiência parecida. Obviamente, com essa ferramenta, o hypertexto poderia ter propaganda direcionada com muito mais eficiência.

Na prática, eu não sei dizer nem se todas essas possibilidades são tecnologicamente factíveis e nem, caso sejam, se a internet irá se desenvolver por esse caminho ou algum outro não previsto. Mas me parece que esse tipo de mídia resolveria o problema de como produzir um mesmo conteúdo para um audiência tão diferente. Na medida em que o conteúdo seria efetivamente hypertextual e organizado segundo sua eficiência comunicativa aos olhos do leitor, haveria um formato mais ou menos padrão de produzir conteúdo e postar na internet. E o usuário, por meios dessas ferramentas e segundo seu gosto, organizaria o texto de acordo com suas necessidades.

Como se vê, minha solução para o problema de como organizar um texto segundo seu nível de complexidade e detalhamento adequado para uma dada audiência é simplesmente deixar que a audiência reorganize o texto como lhe aprouver, o que significa que o texto não tem uma organização rígida nem importante. Ou melhor, a única importância da organização do texto seria, como dito acima, viabilizar ao usuário essa reorganização hypertextual, seja por meio da aderência a regras de formatação úteis para a teconologia, seja adesão informal a normas estílíticas de textos claros, diretos, coesos e objetivos, além de tão simples quanto possíveis. Isso certamente facilitaria a vida de pessoas como eu, que nunca sabem como organizar seus próprios textos.

ps.: atualmente tenho lutado sobre como decidir organizar minha tese de doutorado.

ps.2: às vezes eu acho que publico uns textos muito bons, mas raramente os textos que eu acho bons são os mais acessados/comentados. Esse deve ser um desses textos que eu acho bom, mas o meu leitor hypertextualmente não concorda muito comigo =).

ps.3: reescrevi esse post um pouco, para torná-lo mais claro e bem escrito. Deu mais trabalho, mas me ajudou a ter clareza da idéia que quero passar e também a organizar o texto! Blogar ajuda a escrever!

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, internet, Manoel Galdino. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Como escrever um texto (no futuro) na internet (de um possível futuro)

  1. Mariana disse:

    li esse post recomendada pela professora da pós. Ou foram fatores pré-existentes (tédio, sono, saco cheio) ou foram as voltas e voltas e viagens, mas acho q ele podia ter sido uns 3 parágrafos menor. Não, não é preguiça, é impaciência mesmo. Ou pode ser preguiça, vá lá.

  2. Talvez o texto pudesse ter sido mais objetivo mesmo. Na hora que escrevi pareceu que não. Obrigado pelo feedback mesmo assim. Espero que tenha sido útil de mesmo assim.

  3. Pingback: Como escrever um texto (no futuro) na internet (de um possível futuro) | Galaxyz do Brasil

  4. Bom dia, Manoel Galdino,

    Li o seu texto a pedido da professora da minha pós em Jornalismo Digital.

    Achei que o seu texto é muito cansativo. Se a sua intenção era ser objetivo, sinto em informar que você não conseguiu. Além do mais, faltou correção ortográfica que dá sensação de desleixo. Nada pessoal!

    Pelo que eu entendi, você sugere, como outros autores que já li, que o conteúdo da internet ou até mesmo de impressos aproxime-se mais dos leitores. Para isso, sugere-se, então, disponibilizar textos mais fáceis e mais objetivos. Enfim, texto “bem mastigado”. Assim, o leitor nem precisa exercitar o intelecto. Como se fosse um filtro, ele simplesmente absorveria as “tags” que mais o agradassem, e pronto! O leitor já seria detentor do conhecimento.

    Como novato no mundo jornalístico, muito lamento que as palavras estejam perdendo a função estética para serem reduzidas nos discursos atuais. Pretende-se enaltecer a objetividade, mas afoga-se no minimalismo, deixando o texto mais complicado ainda. Pelo que percebo, é mais fácil diminuir a complexidade de um texto, para atender os pseudos “interessados pelo conteúdo” do que investir em Educação e ensinar as normas cultas da língua portuguesa para o “povão”. Mais uma vez o povo é privado de cultura e senso crítico.

    Lastimo que nosso belo idioma, que já foi muito bem retratado por Machado de Assis, hoje, esteja se aproximando de grunhidos.

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