Whatsapp e o pornô

Suponho que todo mundo que tem whatsapp saiba que ele é, provavelmente, a maior rede de troca de arquivos pornô do Brasil. Em tempos de internet, o que não falta é conteúdo pornô à disposição. Tá certo que às vezes dá pra ter medo de pegar vírus. E o sucesso do whatsapp nessa seara pode ser um pouco por causa disso. Mas eu suspeito que o sucesso pornográfico do whatsapp reside em outro aspecto.

Quase todo dia eu recebo pornô no whatsapp seguido de fotos do facebook ou diálogos do whatsapp identificando a mulher das fotos, contando a história dela. Invariavelmente com o propósito de deixar bem claro a humilhação que ela está sofrendo. Ou seja, não se trata de compartilhar pornô anônimo. Esse nós encontramos na internet. O que querem é o pornô identificado, de preferência com doses sádicas de humilhação alheia.

Eu confesso que não entendo muito bem a psiquê desses compartilhamentos. E esse post é um pouco para compartilhar – eita verbo – minha incredulidade e estupefação diante desses fatos. Tudo se passa como se quiséssemos apontar os dedos coletivamente. Como se o gozo não se desse pelo pornô, mas pelo pornô seguido do apontar o dedo. Não é uma anônima, mas a Maria amiga do João.

A coisa funciona mais ou menos assim. Alguém manda umas fotos ou vídeos de mulheres fazendo sexo ou em poses sexuais, nuas. E, aqui é o registro mais curioso, muitas vezes acompanham fotos do facebook da menina, com nome, amigos, dados do perfil, de forma a poder identificar a história da menina e a própria menina na rede social. Não basta que as fotos sejam de anônimas. É preciso identificar o objeto da pornografa e permitir o linchamento virtual da pessoal. Em suma, queremos dar nomes aos bois.

Pensando sobre o assunto, lembrei que o post mais visitado do saudoso blog do Hermenauta foi, por muito tempo, sobre Leila Lopes e o pornô. Nele, o Hermenauta, analisando o processo de normalização do pornô no Brasil, diz a certa altura:

No fundo a história da Leila é algo cômica e algo triste, o que me faz pensar que a tal da “normalização” do pornô ainda vai demorar um pouquinho enquanto tiver que depender de ruínas humanas (grifos meus).

Ele estava falando de outra coisa, mas penso que ele acertou onde não viu. Esse pornô de humilhação e apontamento de dedos do whatsapp é um pornô que depende da ruína alheia. Eu não sei o que isso significa. O que eu acho que sei é que não diz coisa boa sobre quem compartilha esse tipo de coisa.

ps.: eu nunca sei como reagir quando recebo essas coisas. Eu tenho ficado em silêncio, mas é um silêncio que tem me incomodado bastante. Esse post, de certa forma, é uma maneira de dizer, sem nomear as pessoas, que seria bacana se elas parassem com isso. Mas duvido que chegue ao conhecimento delas esse meu incômodo. Só se, como n’O Hermenauta, esse meu post se tornar o mais acessado do Blog. Pra quem tem um post sobre maconha e outro sobre casamento muito procurado por evangélicos como posts mais visitados, não seria algo tão absurdo.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

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