A altivez da subserviência

O episódio é conhecido. Brás Cubas, diante da altivez de Eugênia, fica incomodado. E, no capítulo das borboletas, busca se reassegurar que  é superior. “Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas”.

Lembramos do episódio a propósito de uma carta, de José Veríssimo, a Lima Barreto, sobre o livro “Recordações do escrivão Isaías Caminha”.

“Há nele [no livro], porém, um defeito grave, julgo-o ao menos, e para o qual chamo a sua atenção, o seu excessivo personalismo. É pessoalíssimo e, o que é pior, sente-se de mais que o é. (…) A sua amargura, legítima, sincera, respeitável, como todo nobre sentimento, ressumbra demais no seu livro, tendo-lhe faltado a arte de a esconder, quando talvez a arte o exija. E lhe seria mais altivo não a mostrar tanto”.

Sabe-se que Lima Barreto, negro, passou pelas agruras de o ser no Brasil do início do século XX — algo que lhe marcou a obra, sendo “Recordações” um de seus melhores exemplos.

Possivelmente exageramos, mas cremos ser uma chave boa para pensar o Brasil de hoje. No filme “Que Horas Ela Volta”, o problema nem é tanto a mobilidade social das Jéssicas. Mas a altivez delas. Altivez que se confunde com  “petulância”,  para usar palavra escolhida por um dos principais críticos de cinema do país para descrever a personagem. A única altivez suportada seria a de reconhecer o lugar de subserviência, como Val.

Pondo Machado de Assis, Lima Barreto e Anna Muylaert em cena, a conclusão é óbvia: dois séculos um século e meio depois, a altivez do periférico ainda incomoda o Brasil ilustrado.

ps.: escrito por mim e Natália.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A altivez da subserviência

  1. Laura disse:

    Olá, Manoel, tudo bem? Estive visitando seu blog vi que você implementou um Amostrador de Gibbs para uma regressão probit. Você poderia me passar? Vou utilizar metodos bayesianos na minha monografia. Vou estimar probabilidade de recessão utilizando modelo PROBIT. Acho que ajudaria no meu aprendizado entender o codigo em R. Muito Obrigada, Laura

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