Superfreaknomics

Levitt e Dubner, autores do best-seller freaknomics, lançaram um novo livro, superfraknomics  –  Esfriamento Global, Prostituas patrióticas e porque homens-bomba suicidas deveriam fazer seguro de vida. Eu não li o livro, mas há bastante controvérsia a respeito dele. O foco principal das críticas tem recaído sobre a discussão dos autores sobre o aquecimento global, que envolveria desde “misquotes” (citações erradas) até não entendimento do assunto. Dubner, um dos autores, se defendeu das críticas. Como não li o livro, meu propósito aqui não é resenhar uma obra que não li, mas comentar sobre idéias presentes no livro (segundo entrevistas e comentários) que são repetidas e em várias ocasiões e que me parecem problemáticas.

No livro, os autores aparentemente defendem a idéia de que é possível identificar quais os grupos mais prováveis de cometere matentados terorristas suícidas e propões que a polícia devia investigar todas as pessoas com esses atributos. “Isn’t everyone in favour of that? How could you not be in favour of that? I’m not saying we should lock them up,” he says. “But would it not make sense for MI5 to take a close look at those people?”, teria dito Levit em reportagem do Guardian.

Como se sabe, argumentos desse tipo existem há tempos. Para pegar um contexto mais próximo do Brasil. Suponha que a probabilidade de negors cometerem crimes é maior do que a de brancos. A polícia então deve usar a “raça” de uma pessoa como atalho informacional em suas investigações, parando na rua os negros mais do que os brancos, por exemplo? Ou ainda, deveriam os brasileiros serem barrados por detalhes bobos na Espanha, pois a probabilidade de nós irmos como imigrantes ilegal é maior?

O problema desse tipo de análise e conclusão é que ela assume que não há efeitos gerais (em economês, não efeitos no equilíbrio geral) ao se adotar uma prática de forma generalizada. No caso de Levit e Dubner, eles mostram que homens-bomba em geral não tem seguro de vida, e adotar seguro de vida seria uma forma de despistar a autoridade policial. Ou seja, se um governo adotar como prática investigar mais detalhadamente aqueles que não tem seguro de vida, conta em banco, poupança etc. (fatores supostamente associados a aos ataques), então é óbvio que os homens-bomba vão mudar seu perfil e passar a ter seguro de vida, poupança no banco e etc.

Mais do que isso, dados que os recursos para tais investigações são escassos (e, assumamos por um momento, fixos no curto prazo), então aumentar a busca nesse grupos pode na verdade aumentar a taxa de crime a ser evitado. O argumento é, na verdade, simples. Suponha dois grupos de pessoas, A e B, e que pessoas no grupo B tem maior probabilidade de cometer um crime que pessoa do grupo A. Grupo aqui pode ser característias democráficas, econômicas, étnicas etc. Suponha ainda que a responsividade (elasticidade) do grupo B a atividades de investigação da políca é menor que a de A, ou seja, o mesmo esforço policial em A e B reduz o crime mais em A que em B. Então, destinar mais recursos policiais para o grupo B que o grupo A, ainda que aumenta a taxa de investigação de sucesso da polícia, pode levar a um aumento na criminalidade, já que o grupo A aumentará o seu número de crimes mais do que B reduzirá o seu.

O argumento pode ser encontrado nesse artigo. Mas o meu ponto central é: uma coisa é fazer uma análise to tipo: assumindo que nada mais muda, o que acontecerá em X se nós mudarmos Y. Outra coisa é dizer que, porque X reduz Y e queremos reduzir Y, devemos aumentar X. Se há possibilidade de interação com outras variáveis (e em ciências sociais, quase sempre há) então é preciso ter cuidado ao fazer afirmações desse tipo. E é justamente esse tipo de coisa que me irrita em livros como o de Dubner e Levvit. As análise podem ser bem-feitas, mas o mesmo cuidado não existe na hora de fazer recomendações.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, Política e Economia e marcado , . Guardar link permanente.

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