Sobre o uso de Jargão

É frequente ouvir críticas ao uso desnecessário de jargão por especialistas, especialmente como uma forma de argumento de autoridade e para confundir, ao invés de explicar. Quem não já sentiu esse incômodo com o jargão alheio? Com médicos, advogados, economistas… A lista é grande.

Mas como as coisas não são tão simples, o jargão tem sua importância. Cito um trecho de um texto li sobre outro assunto, mas que expõe como a questão é mais complexa do que parece à primeira vista.

Wittgenstein, I recall, wrote to Russell that the Tractatus was so clear no one would understand it. How to understand such a paradox? What he meant was something like: there are no hints for beginners in this book. Consider the difference between a blueprint of a machine that is supposed to be read only by a highly-trained expert, and a blueprint that is supposed to be read by a novice just getting the hang of reading blueprints: oversimplified, cluttered with explanatory this-and-that. Which blueprint is clearer? The first is clearer to the expert, and that is what Wittgenstein meant. He had written a book for experts only; and – besides himself – there weren’t any. Arrogant joke, but you get it. The second blueprint is better for the beginner, but it causes the expert to tear his hair because it is oversimplified and misleading and he can’t tell which lines correspond to machine-parts and which lines are there to help the beginner figure out how to read the other lines. Clarity is in the eye of the beholder (grifos meus).

Assim, por exemplo, quando um economista fala em inflação do IPCA, ele se refere à inflação medida em certas regiões do país, numa dada cesta básica, com certos pesos, num dado período de tempo. Que o leigo ache que a inflação é a mesma para todos e com base nessa premissa errada faça críticas, apenas ilustra a importância de se definir precisamente os conceitos para que qualquer discussão possa avançar. É claro que o nível de precisão pode variar dependendo dos objetivos e do objeto, mas me parece claro que o jargão (e a teoria, mas deixo isso para outro post), tem um papel.

Como diferenciar o bom uso do jargão do mal uso, deixo para outro post. Mas sem um critério claro para diferenciar o bom uso do mal do mau uso, corre-se o risco de jogar o bebê com a água junto, como diz o ditado.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, english, Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s